A final da Taça de Portugal foi, simultaneamente, o último jogo da época e, provavelmente, o mais intenso. Os leões levantaram pela 17.ª vez a prova rainha do futebol português, a segunda mais importante depois do campeonato, num jogo que teve de tudo e que terminou com lágrimas de ambos os lados.

Independentemente do facto de não ter cumprimentado o presidente do Sporting CP na tribuna, é difícil ficar indiferente às lágrimas de Sérgio Conceição e de alguns jogadores do FC Porto na hora da derrota. Por outro lado, ver jogadores e adeptos sportinguistas com os olhos embargados depois de uma vitória que acontece um ano depois de um dos seus período mais negros é comovente para todos os que gostam do futebol pelo que é. Porque é também por isto que se diz que o futebol é a "coisa mais importante das coisas menos importantes".

Por tudo isto, seria complicado destacar um jogador no meio de tanta emoção à flor da pele. Mas numa final tão completa e disputada, é difícil olhar para o jogo que Jérémy Mathieu fez e não perceber que o futebol é feito de heróis improváveis - e daí talvez não.

"Sou uma pessoa que diz sempre a verdade, não tenho qualquer problema em fazê-lo. Sobre o assunto de ser fumador, não sou o primeiro nem o último jogador que fuma… Mas quando as pessoas me vêem no campo, os adeptos ficam contentes comigo. Isso para mim é o mais importante. Aliás, só isso."

As palavras são de Mathieu, numa entrevista concedida ao Record em setembro de 2017, pouco tempo depois de ter chegado aos leões. Nas palavras do francês depreende-se que, no final do dia, aquilo que lhe importa é agradar aos adeptos do clube que lhe paga o salário. Sem grandes folclores, que os seus atuais 35 anos já não são para isso.

Há 10 anos, Jérémy seria conhecido de alguns viciados em Football Manager pelo facto de ser uma "pechincha" no jogo, escondido no Toulouse de França. Mas anos depois, quando aterrou em Alvalade, o francês apresentava um currículo de respeito: depois de sair do clube francês foi pilar no Valência e um jogador importante no Barcelona, clube pelo qual venceu uma Liga dos Campeões, um Campeonato do Mundo de Clubes, uma Supertaça Europeia, dois campeonatos espanhóis, três Taças do Rei e uma Supertaça de Espanha, que juntou à Taça da Liga francesa conquistada no seu país de nascimento.

Internacional francês por cinco ocasiões, o defesa-central que chegou ao Sporting CP há dois anos não era o mesmo que tinha chegado a Espanha em 2009. E hoje, aos 35 anos, dias depois de ter confirmado a permanência em Alvalade por mais uma época, fez talvez uma das suas melhores exibições ao serviço dos leões, tendo inclusivamente sido eleito Homem do Jogo pelos jornalistas que assistiram à partida.

Com uma velocidade atípica para um jogador com 1,89 metros de altura (há umas épocas era o 2.º jogador mais rápido do Barcelona, só atrás de Neymar), a experiência, posicionamento e, claro, rapidez do central francês foram decisivas para conter Marega no Jamor. Foi uma luta titânica entre os dois ao longo de quase todo o jogo (o maliano acabaria por ser substituído na primeira parte do prolongamento por Fernando Andrade, curiosamente o homem que falharia a grande penalidade decisiva para os dragões), um despique que apaixonou todos aqueles que gostam do futebol para lá dos golos de Bruno Fernandes ou das assistências de Brahimi.

Quando as forças falhavam a Bruno Fernandes, quando Bas Dost falhou o penálti, quando parecia que o jogo penderia para o lado dos dragões, lá estava Mathieu, que tentou conter o ímpeto portista como pôde e ainda marcou o seu penálti no desempate que sorriu aos leões.

O esforço de Mathieu (que poderá ter aceitado reduzir o salário para ficar mais um ano no Sporting CP) condiz com as suas palavras no final, depois de receber o prémio de melhor jogador em campo: "Obrigado a todos. Foi muito difícil para nós... Voltar aqui para ganhar esta Taça é incrível."

"Aqui" é o Jamor, e a dificuldade prende-se com os acontecimentos que abalaram o futebol português no ano passado, com a invasão de um grupo de adeptos à Academia dias antes da final da Taça de Portugal que os leões perderam frente ao Desportivo das Aves.

No meio das lágrimas de Luiz Phellype depois de ter marcado o penálti decisivo, de Bruno Fernandes depois da vitória e de Frederico Varandas na tribuna, Mathieu foi, ao mesmo tempo, pilar e leme, de uma equipa leonina que acaba por fazer uma das suas melhores épocas dos últimos 15 anos, conquistando dois troféus. Ainda que no fim tenha juntado as suas lágrimas às de todos os outros.

E se Alvalade veio abaixo com Bruno Fernandes, o abono de família dos leões nesta época e provavelmente o melhor jogador do campeonato, é também possível que se tenha ouvido "merci, Jérémy", quando quando o francês entrou no relvado de Alvalade com os seus dois filhos pela mão para constatar que o seu objetivo no jogo de hoje foi cumprido: os adeptos estão felizes.

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