Quando falamos de desporto nos EUA, lembramo-nos logo da NBA (Basquetebol), da NFL (Futebol Americano), da NHL (Hóquei no Gelo) e, ainda, da MLB (Basebol). O que é que estes desportos têm todos em comum? A bola, é certo, mas também o facto das épocas serem constituídas por duas fases: a regular, uma espécie de campeonato entre as várias equipas, e os playoffs, fase em que participam as equipas melhores classificadas na fase regular e onde é coroado o conjunto campeão.

Nos desportos de combate, contudo, o cenário é diferente. No Boxe, por exemplo, as lutas são marcadas entre os managers consoante a pertinência financeira e desportiva dos lutadores. Já no MMA, existem promotoras que organizam eventos em que os lutadores se defrontam com base num ranking, ou numa combinação de lutadores que se apresente como mais interessante para a empresa promotora (levando em conta fatores com a exposição mediática, por exemplo).

A World Series of Fighting (WSOF) era uma dessas promotoras, que tinha como presidente Ray Sefo, antigo lutador de Boxe, Kickboxing, Muay Thai e MMA. A WSOF contou nas suas fileiras com diversos lutadores jovens, lançando-os para promotoras maiores (como o Bellator ou a maior de todas, a UFC), como são os casos de Anthony “Rumble” Johnson, Justin Gaehje e Marlon Moraes, mas também com ex-lutadores da UFC, que viam nesta promotora uma forma de recuperar a forma e a visibilidade (como são os casos de Andrei Arlovski e de David Branch).

A WSOF manteve um acordo televisivo com a NBC Sports e apostou no formato Pay Per View (PPV) – onde os espetadores pagam pela visualização dos conteúdos –, mas a verdade é que as suas audiências/vendas nunca foram muito famosas o que, juntando ao facto de pagar honorários acima da média aos lutadores para participarem nas lutas por si organizadas, acabou por gerar resultados financeiros pouco famosos.

Ora, tendo por base os referidos problemas financeiros e o pouco interesse que a promotora gerava, no dia 17 abril de 2017, através de um comunicado no seu website, a WSOF assumia um nome diferente, passando a chamar-se Professional Fighters League (PFL). Esta mudança, contudo, não seria apenas no nome. A PFL anunciou que em 2018 irá apostar numa nova fórmula, baseada nas grandes ligas profissionais americanas, ou seja, passará a existir época regular e playoffs no MMA. Os lutadores, por seu turno, passarão a ser remunerados como salários mensais, em vez das “tradicionais” bolsas por cada luta que realizam, como acontece atualmente na maioria das promotoras. Quanto ao campeão, o prémio final já está definido: um milhão de dólares.

O objetivo será, em cada categoria de peso, desenvolver uma primeira fase em que todos os lutadores se defrontarão entre si (a chamada fase regular) sendo que, os que obtiverem melhores resultados, irão apurar-se para uma fase final, em formato torneio, para declarar o campeão (os chamados playoffs).

Antes de analisar o formato, importa referir que já foi tentado algo semelhante por outra promotora, a pouco conhecida International Fighters League (IFL), criada pelos empresários Kurt Otto e Gareb Shamus. Neste caso, os lutadores eram divididos por equipas que competiam entre si para declarar a equipa vencedora. A empresa foi fundada a 7 de Janeiro de 2006 e foi encerrada em 2008, por possuir uma estrutura financeiramente pesada (também neste caso os lutadores eram pagos através de um salário mensal, e não de um valor por luta).

O formato que a PFL oferece não divide os lutadores por equipas, é certo, mas a verdade é que um desporto de combate – ou melhor, um desporto individual – é diferente de um desporto de equipa, uma vez que numa época na NBA, por exemplo, uma equipa faz 82 jogos e no MMA, por questões de preparação – um lutador necessita de cerca de 8 semanas para se preparar para um combate – e por questões médicas – dado que após os combates os lutadores recebem suspensões médicas – esta realidade seria impossível.

Por outro lado, à palavra season (temporada) associamos automaticamente a existência de uma por ano. No entanto, para tal acontecer, é necessário ponderar que quantidade de lutadores deverá existir em competição para o formato ser exequível, seja pelas condicionantes anteriores, seja para existir uma fase de playoffs interessante para os fãs.

Em termos financeiros, do ponto de vista dos lutadores, apesar de, por enquanto, a competitividade poder ser menor, é uma ótima solução, principalmente para os que recebem valores mais baixos por combate e que combatem menos. Contudo, do ponto de vista da promotora, esta opção acaba por gerar uma estrutura financeiramente pesada: o pagamento de um salário mensal aos lutadores e o facto de, para atrair o interesse do público, serem necessários grandes nomes, irá tornar os custos com os protagonistas mais altos do que aqueles que habitualmente são suportados por promotoras (além do próprio prémio de um milhão de dólares pagos ao vencedor de cada divisão). Adicionalmente, algo que tem um grande impacto financeiro nestes projetos são os contratos televisivos e o facto de ainda não ter sido anunciado qualquer acordo deste género para a transmissão das lutas da PFL mostra que, também ao nível das receitas, as coisas podem ser, nesta primeira fase, mais exigentes.

Apesar de se ter que destacar a vontade de fazer uma coisa diferente do que as promotoras de MMA em geral estão a fazer, a verdade é que a ideia de competição da PFL está ainda, aparentemente, pouco amadurecida e, acima de tudo, testada. Para além do elevado suporte financeiro, são necessárias divisões de peso com a quantidade e qualidade de lutadores certas (neste momento, apenas um lutador foi anunciado, vindo da UFC, o que é manifestamente pouco para o interesse que é necessário gerar).

Neste sentido, apesar de estarmos ainda a alguns dias do início de 2018, este projeto tem mais contras do que prós, quer seja operacionalmente ou financeiramente. No entanto, pode o mote para inserir um novo um fator diferenciador no mercado das promotoras de MMA.

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