O Brasil conquistou a sua primeira vitória na fase final do Mundial de futebol de 2018, graças a dois golos ao cair do pano, já nos descontos, em São Petersburgo. Philippe Coutinho aliviou os corações dos adeptos aos 91’ minutos, de bico, no coração da área; Neymar faria o segundo, aos 97’, selando as contas. Thiago Silva foi o capitão, Fágner jogou no lugar de Danilo no corredor direito, mas a seleção brasileira teve algumas dificuldades para levar de vencida a Costa Rica, numa partida onde só garantiu a vitória (sofrida) já depois da hora e num jogo em que o nervosismo foi uma constante nos amarelos e verdes.

Durante o jogo, Coutinho provou que está capaz de dar ares de quem tem uns pés de quem pratica aquilo que de melhor o futebol tem para oferecer. No entanto, verdade seja dita, as atenções estão sobre Neymar. E efetivamente não foi um jogo feliz para o n.º 10 brasileiro. Não desequilibrou, não esteve endiabrado, não estilhaçou um rim ao adversário. Neste jogo, dos seus pés para a história, só se escreveu um golo e um "cabrito" a um adversário. E quase nada além disso... no primeiro tempo.

A primeira parte foi morna, morninha. Gabriel Jesus ainda introduziu a bola na baliza (26’), mas o golo seria anulado por estar em posição irregular. A Costa Rica fechou-se, defendeu, e não havia espaço para o adversário explorar o génio do trio atacante composto por Coutinho, Neymar e Gabriel Jesus. Só que que os Ticos, apesar de defenderem bem, também não criavam perigo ou assustava Allison.

Mas a segunda parte foi diferente. Bem diferente. Havia assertividade e critério na circulação da bola, tendo o Brasil o domínio total do jogo. O principal culpado foi Douglas Costa (entrou ao intervalo para o lugar de Willian), que agitou e baralhou a defesa contrária. Logo aos 49’, o número 7 brasileiro, colado à linha, pressionado por dois costa-riquenhos, atrasa para Fagner que cruza para o centro da área e Gabriel Jesus, de cabeça, envia a bola à barra. No seguimento da jogada, Paulinho ganha o ressalto e atrasa para Philippe Coutinho que remata para uma defesa incrível de Navas. Foi o primeiro sinal de que Tite abanou as hostes no balneário e espevitou o escrete. Até a própria atitude era diferente para com o jogo; a abordagem dos jogadores era diferente, era mais decidida.

Os primeiros quinze minutos do segundo tempo foram um autêntico sufoco. Nesta fase, os brasileiros enquadravam os remates e criavam as principais oportunidades de perigo bem no coração dos Ticos. Até que, já nos descontos, Coutinho faz o primeiro num gesto típico de futsal e minutos depois Neymar marcaria o seu primeiro da Copa. No lance do golo do 10 brasileiro, na verdade, foi só preciso encostar. A jogada começou com Casemiro a transportar a bola, a dar curto no esquerdino Douglas Costa, na direita, que cruzou com aquele que não é o seu melhor pé, para Neymar encostar.

Brasil vs Costa Rica
Neymar fechou a contagem da vitória do Brasil sobre a Costa Rica. créditos: Lusa/AFP

Foi um golo fácil, mas que bem lá no íntimo significa bem mais que isso. Não foi só um golo. Não é possível ver o jogador a cair sob o relvado em São Petersburgo e não se interrogar o que lhe vai na alma. Foi choro de quê, exatamente? De alívio? De angústia? De estar a jogar lesionado? Tite avisou que Neymar só vai estar em condições a partir dos oitavos-de-final. É compreensível a exigência que se espera dele, tendo em conta todo o seu mediatismo e qualidade. Não há mal em ser exigente e querer mais de alguém que tem nos pés o potencial para percorrer lugares que muito poucos caminharam. Tudo isso é verdade; assim como é compreensível que existam críticos. No entanto, isso não é sinónimo de não sentir compaixão.

A primeira parte de Neymar foi muito sofrida, é certo. De todas as vezes que partiu para o drible, apenas conseguiu ter sucesso numa ocasião. Mas, a par do que aconteceu com toda a equipa, veio para o intervalo um diferente. Não fosse a exibição de Coutinho, o 10 tinha muito provavelmente levado a distinção de melhor em campo. Fez passes de ruptura para os colegas finalizarem, foi certinho no passe e acertou no um para um.

Por isso, mas não só, impossível ficar indiferente à sua reação depois de soar o apito final. Ajoelhou, chorou e falou com Deus. Não tem como não ficar comovido. Foi uma atitude genuína. As redes sociais, a popularidade, os seus seguidores, ali, naquele momento, não contam. Ali, no relvado, não estava o cabelo oxigenado ou de esparguete. Estava apenas Neymar, o jogador. O homem. Terá sido da pressão de um estilo de vida, de um país, de um talento único, de uma recuperação, de um momento menos bom? O peso de uma nação nos ombros de um jovem? Não sei, talvez. Mas não deixa de ser um homem como qualquer outro, que erra e toma más decisões num dia de trabalho como todos aqueles que diariamente tentam dar o seu melhor. Só que ele é alguém que tem muito sucesso e que tem os quatro cantos do globo com os olhos em cima, tendo também o azar de ainda não estar em boa forma, numa fase em que cada vez mais parece não ter ainda atingido a sua maturidade enquanto futebolista.

Vestir a camisa 10 do Brasil não é para qualquer um. Vestir de amarelo e verde, com aquele número nas costas, tem peso. Para ter esse privilégio, especialmente na canarinha, é preciso nascer com um dom. E um dom raro, porque ser talentoso por si só não chega. E qualquer um que tenha "jogado à bola" sabe que só vontade e trabalho não são suficientes. É importante, muito, mas há lugares que só aqueles que nascem com certas características alcançam. Dez nas costas é Pelé a conquistar o primeiro Mundial. Dez nas costas é Rivaldo a levantar a Copa em 2002. É um número que atrai responsabilidade, peso e história. Não é qualquer um que tem o privilegio de fazer parte do figurino dentro do relvado com aqueles dígitos.

Para o Brasil chegar ao ‘hexa’ precisa dele. E, ainda que nos primeiros dois encontros não esteja a ser feliz, não quer dizer que não se espere que não seja ele a decidir no mata-mata. Por agora, ainda se encontra a recuperar a melhor forma. O que faz fora do campo, bem vistas as coisas, não está assim tão diferente de um jovem anónimo de 26 anos. Não estou a defender o craque, mas sim apenas realçar que nem todos amadurecem ou conseguem atingir um nível que deles é esperado antes do tempo.

Contra a Suíça, relembra Tite, convém recordar que foi o seu primeiro jogo completo em três meses e meio. Hoje, pela frente, estava um adversário que não ganhou qualquer dos seus últimos cinco jogos em Mundiais (três empates e duas derrotas) e que fez apenas três remates neste encontro, todos eles efetuados nos 15’ iniciais.

O Brasil mereceu ganhar e levar os três pontos. Havia um nervosismo latente; basta recordar a queda de Tite que vai virar GIF ou meme pela certa. Ainda assim, Neymar marcou o seu 56.º golo, em 87 jogos pelo Brasil, ultrapassando Romário na tabela dos goleadores. Só Pele (72) e Ronaldo (62) marcaram mais que a estrela do PSG.

Esperar que comande a seleção só porque isso é o que é dele esperado, não vai trazer resultados. Brincar com o seu cabelo, dizer que é mimado, falar em “Neymídia”, parece um bocadinho desajustado com apenas dois jogos no Mundial. Não tem ainda a maturidade profissional que os dois outros astros que habitam neste mundial. No primeiro jogo esteve sempre no chão, sofreu muita falta e não marcou. No segundo, não foi feliz, mas marcou. E se no terceiro for feliz e marcar? Que dirão?

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