O final da época transata cheirava a fim de ciclo. Terminando a cinco pontos de um Sporting campeão ao fim de 19 anos, os pontos de interrogação quanto à continuidade de Sérgio Conceição à frente dos Dragões somavam-se no fim de uma temporada amarga e sem títulos (excluindo a conquista da Supertaça ganha ao SL Benfica em dezembro de 2020, jogo em atraso devido à pandemia, mas ainda relativo à época 2019-2020). A valorosa campanha na Liga dos Campeões, na qual os azuis e brancos só caíram nos quartos de final frente ao Chelsea, pouco serviu de consolo.

Alguns fatores contribuíram para a possibilidade de Conceição abandonar no verão de 2021 a casa a que regressou em 2017. O principal foi o facto do contrato do treinador conimbricense terminar em junho — e de todo o mistério que rodeou as negociações. O presidente do clube, Pinto da Costa, anunciou em maio do ano passado que as conversas só começariam no final da temporada. Conceição, por seu lado, manteve-se calado.

Citaram-se como motivações da possível saída a falta de reforços significativos do FC Porto — ainda estrangulado pela austeridade do fair-play financeiro imposto pela UEFA —, mas, principalmente, o desgaste do treinador em Portugal. A época de 2020-21 foi repleta de casos disciplinares e polémicas em campo: Conceição foi expulso em vários jogos, tendo um dos incidentes — frente ao Moreirense a 26 de abril — valido ao técnico uma suspensão de 21 dias.

À indefinição juntaram-se os rumores. Esta não seria a primeira vez que a situação contratual do técnico era alvo de especulação da imprensa, quase sempre colocando-o em Itália, país onde ganhou fama e títulos como jogador. Inter de Milão, AC Milan e Lazio foram alguns dos clubes a que foi ligado ao longo dos anos. No entanto, a potencial saída para o Nápoles em 2021 pareceu mais tangível do que nunca.

Segundo alguns meios de comunicação, Conceição chegou mesmo a falar com intermediários para rumar ao clube e ousou-se publicar a a sua saída iminente. Todavia, essa informação viria a ser desmentida pelo próprio presidente do Nápoles. O técnico até poderia sair do Porto, mas não seria para uma morada com vista para o Vesúvio.

Este capítulo teve o seu desfecho a 5 de junho, quando o FC Porto comunicou oficialmente que Sérgio Conceição iria renovar pelo clube por mais três anos. “Muitas vezes, não é fácil lidar comigo, acredito que sim, mas, no meu horizonte, está sempre uma coisa essencial, o sucesso do FC Porto em termos profissionais”, disse, ao firmar o novo contrato. Assinando-o, prometeu mais títulos ao clube e garantiu que foi fácil chegar a acordo e que não fez qualquer tipo de exigência, frisando que há “coisas muito mais importantes do que o dinheiro e o contrato”.

De resto, essa seria a mesma bitola de Pinto da Costa, que asseverou que o técnico não fez exigências salariais pois o que queria mesmo era “ficar no FC Porto, pelo projeto” e “que queria ajudar”. “Foram quatro anos de êxitos, com alguns percalços, inevitáveis para qualquer um, mas foram quatro anos que justificam plenamente a tua continuidade", disse o líder portista ao seu treinador. 

Mas não foram só quatro, foram cinco.

Como Conceição recuperou um Porto campeão

O início da temporada revestiu-se de alguma incerteza quanto a sucessos futuros dada a timidez com que o FC Porto abordou o mercado. Apesar de manter peças essenciais como Otávio, Pepe, Uribe, Luis Díaz, Mbemba e Taremi, os reforços foram parcos: a contratação de Fábio Cardoso para a defesa e o regresso de Bruno Costa para o meio campo não entusiasmaram, e Wendell chegou no último dia mais com selo de “a contratação possível” para a lateral do que com estampa de “reforço cirúrgico”. As exceções foram o extremo brasileiro Pepê, que já tinha sido negociado na época anterior, e continuidade de Marko Gruijc por mais um ano, emprestado pelo Liverpool.

Ainda assim, pela positiva, as saídas não foram catastróficas: Danilo Pereira foi cedido em definitivo ao PSG, mas também já tinha perdido influência na equipa, e Moussa Marega seguiu para o Al Hilal após terminar contrato. O adeus do maliano foi encarado como a questão mais espinhosa, já que Taremi por si só não chegaria, e tanto Toni Martínez como Evanilson não davam garantias goleadoras.

A época, porém, veio a dar razão à gestão portista. Se Martínez marcou pouco, mas fê-lo quando necessário — destaque-se o bis frente à sua ex-equipa do Famalicão e os dois golos que viraram o resultado contra a Lazio na Liga Europa —, Evanilson desbloqueou o seu potencial, com 14 golos para a I Liga, 21 no total. O brasileiro faria uma dupla temível com Taremi, a galinha dos ovos de ouro iraniana que, com 20 golos e 13 assistências no campeonato até à data, atingiria o seu melhor registo de sempre.

Mas mais do que a proficiência dos avançados, pode alegar-se que a principal razão para o sucesso azul e branco nesta temporada foi a aposta de Conceição na “prata da casa”: Diogo Costa, integrado no ano passado, tornou-se o dono da baliza portista; Fábio Vieira foi elevado a maestro do meio-campo; João Mário fixou-se na lateral direita; Vitinha, cuja venda ao Wolves esteve para acontecer, veio ser um joker do FC Porto.

Foi este misto de irreverência juvenil — há muito exigida a Conceição por uma fatia significativa de adeptos — e experiência que propalou uma temporada de sucessos, em que nem a perda de Luis Díaz causou particular mácula. Tido por muitos como o melhor jogador da I Liga, a estrutura portista não resistiu ao assédio do Liverpool e o colombiano saiu por 45 milhões de euros no mercado de inverno — tal como Jesús Corona e Sérgio Oliveira, outrora peças fundamentais, mas que foram perdendo influência, saindo o primeiro em definitivo para o Sevilha e o sendo o segundo emprestado à AS Roma de José Mourinho.

A passagem de ano permitiu ao FC Porto colmatar algumas lacunas, contratando Galeno, Rúben Semedo e Stephen Eustáquio (os dois últimos por empréstimo). No entanto, apesar do plantel portista não ter particular profundidade, nenhum assumiu particular preponderância, quase sempre remetidos à condição de suplentes.

A incógnita quanto às performances dos Dragões, órfãs de Díaz, seria dissipada com imponência pela turma de Conceição. Se à jornada 20, decorrida mesmo no fim do mercado de inverno, o FC Porto contava com 18 vitórias e dois empates, à entrada da 34ª tinha passado o registo para 26 jogos ganhos e quatro empatados. Sem o colombiano, os azuis e brancos continuaram a fazer aquilo a que se habituaram desde o início da época: ganhar.

Habituado a fazer omeletes sem ovos — recordem-se as prestações na Liga dos Campeões com elencos francamente abaixo do que o Porto nos habituou —, Sérgio Conceição conseguiu aprimorar a sua estratégia tática: ao futebol intenso e de alta pressão que se tornou na sua imagem de marca, juntou a finesse de jogadores como Fábio Vieira e Vitinha para pensar o jogo e dar uma faceta mais cerebral ao seu jogo.

Porém, nem tudo foram rosas. O título, a meros pontos de ser conquistado, foi fugindo. A jornada 35 soou os alarmes com a derrota contra o Braga na Pedreira — a primeira da época no campeonato — e aumentou a pressão sobre os Dragões, já que o Sporting venceu no Bessa e a vantagem passou de nove para seis pontos.

Além disso, a queda da Liga dos Campeões ainda na fase de grupos foi um raro borrão no currículo de Conceição, agravado pelos frustrantes resultados contra o AC Milan e o Atlético de Madrid, e a possibilidade de seguir longe na Liga Europa foi bloqueada pelo Lyon nos oitavos de final. Além disso, a Taça da Liga, nunca ganha pelos Dragões, escapou mais uma vez, devido à única derrota a nível interno que sofreram, nos Açores, frente ao Santa Clara.

Nada que incomode em demasia os adeptos portistas. Se não foram campeões na receção vitoriosa ao Vizela (4-2), foram-no com o empate com o Benfica — e no Estádio da Luz, sendo a terceira vez na história dos Dragões que venceram o título em casa dos eternos rivais de encarnado.

Quando se está com fome e o prato principal é o campeonato nacional, dispensam-se os aperitivos das outras competições. E ainda há a promessa de sobremesa na final da Taça de Portugal, contra o Tondela.

Legado ou carreira europeia: o que se segue?

Com esta conquista, Sérgio Conceição eterniza o seu nome nos anais da história do FC Porto. Ao dar o 30.º campeonato nacional aos Dragões, passou a fazer companhia a Jesualdo Ferreira enquanto treinadores com três campeonatos ganhos pelo clube — e fica apenas a um título de igualar os seis conquistados por José Mourinho, o maior número conseguido por um treinador portista na era moderna dos Dragões. Ainda assim, não é despiciendo frisar que o treinador sadino chegou a este registo com uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões ganhas.

Mas Conceição fê-lo com particular poderio. Juntando o período de invencibilidade desta época na I Liga à sequência temporada transata — antes da visita a Braga, a última vez que provou o sabor da derrota no campeonato tinha sido a 30 de outubro de 2020 contra o Paços de Ferreira —, o FC Porto chegou aos 58 jogos consecutivos sem perder e acabou com um recorde de mais de 40 anos. O treinador conimbricense passou assim o anterior marco, estabelecido por John Mortimore, que pelo Benfica teve 56 partidas sem derrotas entre outubro de 1976 e agosto de 1978).

Não é desta, porém, que Conceição atingirá o pleno de um campeonato sem derrotas, feito conseguido por André Villas-Boas, em 2010-11, e Vítor Pereira, em 2012-13, ao serviço do FC Porto. De resto, esta sequência sem perder tem a curiosa peculiaridade de vir na senda de uma muito similar, a de Rúben Amorim no ano passado. O treinador dos leões quase chegou ao fim da época sem derrotas para o campeonato, perdendo na derradeira jornada contra o Benfica, na Luz, quando já era campeão. Os azuis e brancos, porém, caíram a quatro jornadas do fim.

Depois deste ano, terá Sérgio Conceição o dever de missão cumprida e partirá para outros campeonatos, ou continuará a querer construir o seu legado no FC Porto? Essa é a grande incógnita.

Pinto da Costa, ao inaugurar um espaço dedicado a Conceição no Museu do clube no final de 2021, arriscou prever que o treinador “vai alcançar um recorde que um dia será imbatível: nunca mais um treinador vai estar tantos anos seguidos no clube, para aí uns dez”.

Caminhando para cinco anos ao leme da equipa azul e branca, Conceição é uma anomalia no reinado de Pinto da Costa: apesar do percurso hegemónico dos Dragões desde 1982, nenhum treinador esteve tanto tempo seguido no FC Porto. O técnico sabe que é acarinhado pelos adeptos e a estrutura, conhece os cantos à casa e tem contrato até 2024. Além disso, o seu nome já está indelevelmente associado ao fim do jejum de campeonatos que se prolongou durante cinco anos — de 2013 a 2018 — outra raridade na era do atual presidente dos azuis e brancos. Mas será que tudo isto é o suficiente para ficar?

Com 47 anos, é ainda um treinador jovem, cujas ambições poderão levá-lo para outros voos. Aliás, alegadamente a sua recusa em ir para o Nápoles terá recaído no facto da equipa italiana não se ter apurado para a edição da Liga dos Campeões da presente temporada. O crédito estabelecido no FC Porto pode também despertar a cobiça de clubes europeus onde terá mais meios para construir uma equipa — e o facto de ser agenciado pela Gestifute, de Jorge Mendes, só propicia uma potencial boa colocação.

De frisar ainda que, apesar da boa relação com Pinto da Costa, Conceição nunca se acanhou de lançar críticas e deixar recados à direção. O mais recente caso a ficar-lhe entalado na garganta foi a saída de Luis Díaz que, não obstante ter sido indiferente ao sucesso da equipa, causou-lhe desagrado pelo timing, chegando mesmo a vaticinar o insucesso do FC Porto no campeonato.

“Nas grandes empresas, nos grandes clubes, o planeamento é feito em função dos objectivos. Como existe pouco planeamento ou não há, temos de rever esses objectivos e pensar um bocadinho no que vai ser o nosso futuro próximo”, atirou, numa conferência de imprensa. Sendo temperamental, como o próprio admite, poderá ter sido uma questiúncula já resolvida. Mas o futuro apenas nos dirá. Para já, a sua casa é o Dragão — onde voltou a ser campeão.

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