Otkrytie Arena, Moscovo. Argentina - Islândia, minuto 63. Messi controla a bola no miolo e procura linhas de passe. Não tem. Tagliafico está tapado e Salvio encostado à linha. À sua frente, uma muralha viking composta por 9 guerreiros. Sobrava Meza (que agarrou o lugar no 11 que muitos garantem ficar melhor caso estivesse a cargo de “La Joya” Dybala). Só que Messi é Messi e é ele quem transporta a bola pelo corredor central. Contemporizando, deslinda um espaço nas costas da muralha. E resolve meter lá a bola, num passe digno de quem tem visão e capacidade de passe alienígena. O que se seguiria era (e foi) certinho: a bota de Meza — que corria como flecha para atacar o espaço vazio. E verdade seja dita: só não lá chegou porque Magnusson o derrubou. Quanto ao resto, foi aquilo que correu pelas redes sociais e em todas as televisões que tinham os olhos postos no astro argentino: Messi avança para marcar o penálti. Só que, surpresa, não bateu bem. E logo ele que normalmente faz tudo de forma tão melhor ou superior aos outros. Só que esta não era a sua tarde. Não estava escrito que iria ser ele o protagonista. Descaído para o lado esquerdo, o remate foi a meia altura e ao alcance do guardião adversário. E eis que a Islândia voltar a surpreender.

A defender com 9 ou com 10, a defender no seu meio-campo ou não, a verdade é que ditou o empate. Há factos engraçados. Mas ninguém pode contrariar a sua natureza. Um facto é um facto. Ponto. E por muita linha que se escreva de como os islandeses jogaram com um bloco baixo, de como defenderam com as duas linhas praticamente emuladas, não quer isso dizer que se deva escrever exclusivamente sobre o penálti falhado de Lionel Messi. Porque a Argentina efetivamente não marcou mais golos que o adversário e Messi só o falhou porque alguém especial defendeu o seu remate. E esse alguém foi Hannes Halldórsson. Logo ele, que teve para desistir de jogar futebol aos 20 anos.

Desde logo convém ressalvar o seguinte: este guarda-redes nunca teve treinos profissionais enquanto jovem. Não teve formação de futebol nenhuma até estar quase a entrar na idade adulta. E viveu a vida no secundário como qualquer outro adolescente. Namorou, foi a festas e fez o caminho normal destas idades. Não passou por aquilo que um jovem das escolas dos três grandes em Portugal, por exemplo, passa. Mais: foi por essa altura que descobriu que gostaria de ser realizador de cinema. Mas quando ao certo, mesmo? Uma data que qualquer português tem gravada na memória: 2004. (Porém, caso queira recordar, tem aqui uma oportunidade excelente para o fazer através do episódio 6 no documentário Chegámos Lá, Cambada.)

Conta o The Guardian que no verão que colocou os portugueses a seguir o futebol como nunca, Halldórsson não conseguiu um lugar numa equipa local da terceira divisão. Custa a crer que alguém que foi o único guarda-redes utilizado durante as últimas competições internacionais não fosse considerado um jogador com talento, mas é facto. Assim como Ronaldo não marcou em 2016, em 10 remates. Facto. Tal como Messi não marcou em 11 tentativas na tarde de ontem. Facto. Ou seja, não deixa de ser surpreendente que alguém que se considerava não ter talento não tenha sofrido golos dos dois melhores jogadores da atualidade.

Criado perto de Breidholt, nos subúrbios de Reykjavi, treinou no clube da terra. Só que como bem explica o jornal britânico, na Islândia é normal que não se dê grande atenção aos miúdos que jogam nesta posição, nestas idades. Hoje, é tudo credenciado. Mas naquela altura era o próprio que emergia numa onda autodidata banhada a perseverança. E então todos os dias rematava contra uma parede e tentava apanhá-la.

Em 2004, bateu no fundo. A descrença na sua capacidade era tal que nem conseguiu arranjar espaço num plantel de uma pequena equipada chamada Numi. “Apenas eu acreditava que conseguia [vingar no futebol]. Só eu acreditava que o podia fazer”. Depois, executou um plano e disse ao pai que iria fazer “alguma coisa ridícula” no panorama internacional do futebol e traçou vários objetivos — sendo que um deles era jogar frente ao seu ídolo, Gianluigi Buffon. Porém, não jogou com o ídolo. Esteve perto em 2016, mas não o fez (a Islândia perdeu nos quartos de final frente à França e a Itália perdeu também com a Alemanha nos penáltis). Porém, esta tarde, travou a Argentina, travou Messi.

A sua estreia internacional acontece em 2011, depois de fazer a dobradinha pelo KR, da Primeira Divisão islandesa. É que nesse outono o titular fica lesionado e o realizador agarrou a oportunidade e nunca mais a largou.

Recomenda e recorda muito bem o ZeroZero.pt que se dê uma espreitadela no IMDb.  É que Halldórsson aparece por lá também. Apesar de ter começado a fazer vídeos no secundário, já realizou alguns com expressão como, por exemplo, o vídeo para a Eurovisão que serviu de apresentação à Islândia na competição, em 2012.

Ontem ele foi o protagonista do filme que devia ter sido de Messi. As manchetes eram para ter a cara daquele homem que faz Ronaldo querer continuar a ser o melhor — e não um islandês que teve para pendurar as luvas aos 20 anos e que chegou a dizer que o seu emprego a tempo inteiro era como realizador. E mais: a empresa para a qual trabalha já terá dito que o seu lugar estará disponível quando deixar de jogar à bola.


O ensaio tinha sido feito à tarde, antes do jogo, mas parece ter resultado. São muitos mil (há quem escreva que cerca de 30.000) a bater as palmas. E 11 a correr por eles, mesmo que não tenham bola.


A Argentina é tida como uma das seleções candidatadas ao título de campeã do mundo. Há quem não concorde. Mas ninguém pode negar que uma equipa que tem Messi nas fileiras — não vamos já julgar o astro por ter falhado um penálti na primeira jornada — tem de estar num lote restrito.

Campeã mundial de 1978 e 1986, a Argentina até se adiantou no marcador, aos 19 minutos, por Sergio ‘Kun’ Agüero. Só que a Muralha Viking fechou-se, uniu-se e restabeleceu a igualdade menos de cinco minutos depois por intermédio de Alfred Finnbogason, que ficou para história do país como o primeiro jogador a ter feito um golo num Mundial. Já na segunda parte do encontro, Hannes Halldórsson segurou o forte. A Islândia volta a entrar em campo a 22 de junho, contra a Nigéria, e a 26 de junho frente à Croácia.

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