Segunda-feira, 4 de julho de 2016. Foi neste dia que o mundo do basquetebol ficou em choque, depois de Kevin Durant anunciar o inesperado num texto publicado no The Players’ Tribune: o extremo de 2,06 metros decidia abandonar os "seus" Oklahoma City Thunder, equipa que representou durante nove épocas (a primeira das quais ainda como Seattle Supersonics), para se juntar aos Golden State Warriors, finalistas vencidos da temporada anterior. E em choque porquê? Porque os Thunder tinham perdido para os Warriors na final da Conferência Oeste por 3-4, depois de terem estado a vencer por 3-1. Ou seja, Durant e o conjunto de Oklahoma estiveram a apenas um triunfo de chegar à final da NBA, pelo que, com os habituais reforços que as equipas fazem durante o defeso, o objetivo de regressar às Finais (perderam em 2012 para os Miami Heat) era um cenário plausível.

Kevin Durant juntou-se a Steph Curry, Klay Thompson e Draymond Green e, assim, estava formado o primeiro “Big 4” da história da liga norte-americana. A NBA já nos tinha mostrado “Big 2” famosos, como os invencíveis Michael Jordan e Scottie Pippen nos Bulls, a mítica dupla dos Jazz composta por John Stockton e Karl Malone, e a união (nada pacífica) entre Kobe Bryant e Shaquille O’Neal nos Lakers. Mais recentemente, tivemos alguns “Big 3”, como Parker-Ginobili-Duncan nos Spurs, Allen-Pierce-Garnett nos Celtics ou LeBron-Wade-Bosh nos Heat. Nunca vimos um “Big 4”. Até agora. Ainda por cima, um “Big 4” que junta os dois últimos MVP da liga: Durant (2013/14) e Curry (2014/15 e 2015/16). Escolheu o caminho fácil, disseram os analistas. Foi um mariquinhas, disseram os adeptos. De meninos bonitos da NBA, os Warriors viraram vilões. E Durant ficou com um alvo na testa. Dos grandes.

Mas isso ficou lá atrás. Não está esquecido – perguntem ao ex-colega de KD nos Thunder, Russell Westbrook -, mas ficou lá atrás. A decisão de Durant foi muito criticada, mas produziu efeitos que são bons para a melhor liga de basquetebol do mundo. Aumentou, desde logo, a rivalidade dos Golden State Warriors com os Cleveland Cavaliers. Os Warriors bateram o recorde de vitórias da fase regular (73 triunfos em 82 jogos) na época passada, mas perderam as Finais às mãos dos Cavs (depois de terem estado a ganhar por 3-1) e foi precisamente por isso que foram atrás de Durant.

Conseguiram-no e, após um início de época em que se especulava sobre as dificuldades do treinador Steve Kerr encaixar mais uma super-estrela numa super-equipa já apinhada de talento, a formação de Oakland está agora absolutamente imparável, com o melhor registo da liga (42 vitórias e 7 derrotas) e, sobretudo, com um ataque demolidor: 118.1 pontos por jogo (1º na NBA), 50.1% de percentagem de lançamentos (1º), 38.8% de eficácia nos triplos (2º) e 31.1 assistências por partida (1º). De acordo com o site Basketball-Reference.com, o rácio ofensivo de 116.4 pontos marcados por cada 100 posses de bola confere aos Warriors (em apenas 49 jogos) o título de melhor ataque da história - ou, pelo menos, desde que há registos deste género (1981) -, uma marca bem acima dos 115.6 dos Los Angeles Lakers de 1986/87. Leram bem, é o melhor ataque da história!

Tudo isto é motivo para deixar Westbrook irritado e levar o base dos Oklahoma City Thunder a não passar a bola a Kevin Durant quando ambos vestirem o equipamento do Oeste no All-Star Game do próximo dia 19 de fevereiro – tomem nota e vão a correr para as casas de apostas meter dinheiro nisto! –, mas é razão para nos deixar com água na boca. Porquê? Porque LeBron James, Kyrie Irving, Kevin Love e os Cavaliers querem renovar o título e, frente a estes Warriors, a tarefa é bem mais complicada.

O número 23 dos actuais campeões já percebeu isso mesmo e tem verbalizado insistentemente a necessidade da equipa de Ohio contratar mais jogadores de qualidade, em particular um base que sirva como suplente de Irving. Resta-nos perceber quem é que os responsáveis do conjunto de Cleveland vão oferecer a LeBron, para além do recente reforço Kyle Korver. Se a final do ano passado ficou na História como uma das melhores de sempre, imaginemos o espetáculo que Warriors e Cavaliers vão dar pelo terceiro ano consecutivo. Porque acreditamos todos nisto, certo?

Enquanto não chegam as Finais, segue o desfile de equipas a tentar superar os Warriors na fase regular. Hey, os Thunder não são essa equipa, mas se há jogo que não vamos querer perder é o do próximo dia 11 de fevereiro, que assinala o regresso de Durant a Oklahoma.

Seguindo o exemplo dos Cavaliers, também outras equipas tentam adicionar talento ao plantel. Não é por acaso que Carmelo Anthony é dos nomes mais falados em possíveis trocas, até porque ninguém rejeitaria receber o extraordinário atirador dos New York Knicks, em particular uma daquelas equipas que “estão quase lá, mas ainda falta um bocadinho assim” para chegar ao título. Uma dessas equipas – que deseja Carmelo e à qual falta “um bocadinho assim” – está sediada em Los Angeles. Os Clippers parecem estar na ‘pole position’ para acrescentar Carmelo Anthony ao trio-já-de-si-espectacular formado por Chris Paul, Blake Griffin e DeAndre Jordan. Se se vier a concretizar, será o novo “Big 4” da NBA e provavelmente o mais habilitado a impedir a viagem aparentemente tranquila dos Warriors até às Finais. E se se vier a concretizar, não produzirá as mesmas reações de choque, porque Durant desbravou caminho.

Debaixo de olho:

Russell Westbrook ficou órfão de Kevin Durant em Oklahoma, mas também ganhou com isso. Ganhou mais bola. E, graças a isso, está a assinar uma das mais memoráveis prestações individuais de que há memória. Com médias de 30.7 pontos, 10.6 ressaltos e 10.3 assistências, Westbrook pode tornar-se o segundo jogador da história a terminar uma época com média de triplo-duplo. Antes dele, só Oscar Robertson conseguiu tal feito, com 30.8 pontos, 12.5 ressaltos e 11.4 assistências na temporada de 1961/62. Mas Robertson fê-lo com uma média superior a 44 minutos por jogo, enquanto Westbrook não passa dos 35.

Esta semana, o base dos Thunder recebeu uma má notícia: a lesão do colega Enes Kanter, que partiu o antebraço ao socar o banco de suplentes. Sem o turco como recetor de alguns dos passes de Westbrook, a média de assistências deve cair nos próximos tempos e, se fechar a época sem média de triplo-duplo, até pode perder o prémio que todos diziam que era seu, o de MVP. É que James Harden está a jogar tão bem quanto Westbrook e há mais um jogador que corre por fora: Kevin Durant. Sim, esse mesmo.

Ricardo Brito Reis é jornalista há uma década e meia, mas apaixonado por basquetebol desde que se lembra. É um dos comentadores de basquetebol da SportTV, faz parte do departamento de comunicação da Federação Portuguesa de Basquetebol e é treinador de formação no Sport Algés e Dafundo.

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