Há menos de um ano, Pedro Proença foi reeleito presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), órgão que tutela a I e II Liga e que organiza a Taça da Liga, com 46 votos em 48 possíveis. Hoje, no centro de uma crise provocada pela pandemia do novo coronavírus que paralisou o futebol nacional, luta para sobreviver entre a contestação de vários emblemas. Dia nove de junho, saberemos se sobreviveu.

A liderança do antigo árbitro na Liga Portugal seguia impávida e serena até ter sido confrontada pelos estádios desertos e incertezas, consequências de uma pandemia que, em todo o mundo, já matou mais de 300 mil pessoas e infetou cinco milhões. O confinamento, como medida preventiva de combate ao vírus, obrigou a suspensão de várias atividades e o desporto-rei não escapou.

O apoio massivo que sustentava Proença começou assim a cair. Num dos primeiros episódios de contestação, o presidente do SL Benfica acusou o presidente da Liga de ter ocultado uma verba de um milhão de euros atribuída pela Federação Portuguesa de Futebol para apoiar os clubes da II Liga quando, na reunião a um de maio, Pedro Proença discriminava os apoios aos clubes da segunda divisão que não iriam jogar mais esta temporada, finalizada na secretaria com as subidas do Nacional da Madeira e Farense, primeiro e segundos classificados, e as despromoções do CD Cova da Piedade e Casa Pia, penúltimo e últimos classificados, respetivamente.

O encerramento administrativo da temporada da II Liga levou a uma perda de receitas de aproximadamente 1,2 milhões de euros, sobretudo resultantes de direitos televisivos. Já o apoio anunciado pela LPFP resulta da cedência da taxa de televisão paga pelos clubes da I Liga (550 mil euros), dos custos com os 90 jogos da II Liga que não se realizarão (500 mil euros) e da ativação dos fundos de infraestruturas de 2018/19 e 2019/20 (470 mil euros). A estes montantes acresce um milhão disponibilizado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), permitindo um encaixe individual de 180 mil euros a 14 emblemas da II Liga, excetuando as equipas B e os promovidos.

Ora, este milhão não terá sido referido por Proença na dita reunião em que foi ‘relembrado’ por Luís Filipe Vieira desse apoio, o que instalou o caos, sobretudo entre os clubes do segundo escalão, que olharam para a atitude do presidente da liga como um golpe de "teatro" para que depois pudesse surgir como salvador da II Liga, como adiantaram fontes dos emblemas ao Público.

E o facto é que muitos dos problemas de Pedro Proença residem na II Liga, onde o Cova da Piedade contesta a descida de divisão decidida na secretaria. Os piedenses acusam Pedro Proença de ter conduzido a reunião de direção da Liga, em cinco de maio, “de forma a condicionar o seu resultado” com recurso a expedientes “reprováveis e violadores da lei” e reiteram a intenção de levar o assunto “até às últimas consequências”.

“O Clube Desportivo Cova da Piedade - Futebol SAD vai por todas as razões que lhe assistem, repor a legalidade e responsabilizar quem tem que ser responsabilizado até às mais últimas consequências”, garante o documento assinado pela administração da SAD.

Foi na reunião em questão, a direção da Liga aprovou o fim definitivo do campeonato da II Liga e as descidas ao Campeonato de Portugal dos dois últimos classificados no momento da interrupção da prova.

Agora, os piedenses juntam-se aos “outros clubes” que vêm “insurgir-se e colocar em causa a postura e os atos” de Pedro Proença pela existência de ”uma agenda pessoal e paralela àquela que seria do conhecimento dos vários clubes".

“A confirmar-se o recente episódio, agora tornado público, protagonizado pelo Sr. Pedro Proença, revela uma personalidade napoleónica, com agendas paralelas, em busca de protagonismo pessoal e porventura populista em tempos de crise, totalmente divorciado das suas funções e das atribuições legais que a sua conduta deveria respeitar”, justifica a SAD piedense.

Ainda sobre a II Liga, deu entrada no Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), no passado dia 15, uma queixa do Marítimo contra as decisões tomadas pela direção da Liga Portuguesa, a cinco de maio, quanto à suspensão definitiva da prova, e dois dias depois, contra o regulamento do fundo de apoio aos clubes do segundo escalão, algo que, entre outras razões apresentadas, conduz à subida de divisão do Nacional e consequente redistribuição dos apoios do Governo Regional aos clubes do arquipélago.

O argumento da distribuição dos fundos regionais amplamente noticiada levou o Marítimo a reagir em comunicado afirmando que “resumir o âmbito e o objeto da ação aos aspetos que foram focados na imprensa é, no mínimo, redutor, para não dizer mesmo ridículo, como ridículos foram os comentários que, a partir daí, se produziram, e deliberado, porque pretende iludir o rol de ilegalidades, vícios formais e procedimentais cometidos pela Direção da LPFP, omitindo o arsenal argumentativo a que acima se alude”. O clube madeirense diz que a razão é simples, “das duas uma: ou podem todos jogar à porta fechada e em segurança, ou, não podendo, então não pode ninguém”, conclui a nota.

Por último e o motivo de maior discórdia e que levou a que na quinta-feira as capas dos três jornais desportivos nacionais sugerissem a possível queda de Pedro Proença da presidência da liga: a carta escrita e enviada à Presidência da República e ao Ministério da Economia pedindo para interceder no sentido da transmissão em sinal aberto dos jogos da I Liga que faltam disputar.

A carta e o pedido foram feitos à revelia dos clubes e das operadoras, que rapidamente manifestaram a sua insatisfação, com a NOS à cabeça, principal patrocinador da Liga e que detém o naming da competição, num contrato em que a operadora paga 600 mil euros mensais à liga e que termina no próximo ano - e que atualmente está em causa -, assim como a Sport TV, que tem sofrido duras perdas com a paragem das competições nas várias modalidades.

No entanto - e há que ser dito - Proença nunca esqueceu todas as partes nas comunicações feitas, pedindo salvaguarda de todos no caso dos jogos virem a ser transmitidos em sinal aberto. Segundo a diretora executiva da Liga, Sónia Carneiro, em entrevista na SIC Notícias, a Liga “tem de proteger quem é verdadeiramente parceiro”, destacando NOS, Altice, Sport TV, Vodafone e Olivedesportos.

A intenção era que os adeptos pudessem assistir aos jogos no conforto do lar e evitar assim aglomerações em restaurantes e cafés para ver os jogos em canais pagos, uma vez que também os encontros decorrerão à porta fechada.

No entanto, a clarificação de pouco serviu e assim chegámos a esta quinta-feira, dia 21 de maio, a uma reunião com os presidentes de clubes por videoconferências e que foi, tal como se esperava, de ambiente quente. Não era do interesse de ninguém, por causa da imagem que podia passar lá para fora do futebol português, que Proença saísse já da direção da Liga, mas poder-se-ia hipotecar o futuro do ex-árbitro internacional de futebol.

Por videoconferência, Pedro Proença antecipou-se e marcou uma Assembleia Geral para o dia nove de junho, de onde pretende obter uma moção de confiança. Segundo a Lusa, e contrariamente ao que foi noticiado por outros meios, o atual presidente da Liga não colocou o seu lugar à disposição, tendo propondo sim apresentar um novo modelo de governação na próxima. E esse é o seu maior trunfo para segurar o cargo.

O novo modelo e a alteração aos estatutos da Liga que serão propostos são algo há muito defendidos pelo chamado G-15, o grupo de 15 clubes além os chamados "três grandes", e que propõe uma redistribuição mais democrática dos poderes. Assim, Pedro Proença quer conquistar uma grande maioria de emblemas e assim o seu cargo.

Algo que no entanto não será fácil, uma vez que uma das vozes de maior descontentamento não pertence nem ao SL Benfica, nem ao FC Porto, nem ao Sporting CP, mas sim ao Sporting Clube de Braga. António Salvador já pediu a demissão dos clubes que integram a direção da LPFP, formada por cinco clubes da I Liga (Benfica, FC Porto, Sporting membros permanentes pelos estatutos - e um dos pontos que o G-15 contesta há muito -  e, esta temporada, Tondela e Gil Vicente) e três da II Liga (Mafra, Leixões e Cova da Piedade). De acordo com o presidente bracarense, se os clubes da direção não estavam inteirados do que estava a acontecer "não estão lá a fazer nada; e se souberam e nada fizeram, também não estão", relata o site Tribuna do Expresso.

Salvador anunciou ainda que iria agir judicialmente caso o campeonato não chegue ao fim, depois de terem sido dadas garantias que iria acontecer.

Apesar de tudo, Pedro Proença acredita que tem condições para ficar à frente da Liga e vai levar para a AG todo o trabalho que fez, incluindo o processo de certificação dos estádios para o regresso do campeonato, que, ao contrário do que se previa, vai permitir que a grande maioria das equipas dispute os jogos nos seus estádios.

É uma luta de um contra - quase - todos e que vai ser decidida quando o campeonato começar, algo que ainda não é certo à data de publicação deste artigo e a menos de duas semanas da competição regressar — o que também não deixa satisfeitos os clubes. A pergunta fica, conseguirá Pedro Proença, no final da próxima Assembleia Geral dizer, tal como Mark Twain, "os rumores da minha morte foram profundamente exagerados", e seguir forte no comando do órgão que tutela a principal competição do futebol português?

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