Desde fevereiro que a Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) está a formar uma equipa de râguebi mista, onde as portas se abrem a pessoas com deficiência cognitiva ou sem ela, num projeto que pretende trabalhar competências, mas também a integração.

“O râguebi, na sua génese, tem uma coisa interessante: há lugar para o baixinho, magrinho e rápido, para o baixo, gordo e lento, para o alto que é só alto, para o que é jeitoso de mãos ou para o que tem um bom pontapé. O râguebi abraça toda a gente”, disse à agência Lusa João Costa, antigo jogador da Académica e atualmente fisioterapeuta da APCC, onde decidiu implementar a ideia de uma equipa mista.

Ao início, pensava só em criar uma equipa de râguebi adaptado (em que as placagens são substituídas por umas faixas presas à cintura que se tiram ao adversário), mas uma viagem à República Checa, enquanto árbitro desta modalidade, fê-lo mudar o rumo do projeto.

Um membro da Associação Internacional de Mixed Ability Rugby provocou-o: “Mas então vocês não incluem qualquer pessoa? Ah, então se calhar isso não é bem inclusivo”, reproduz João Costa.

O projeto ainda está no seu início e conta com 13 utentes da APCC, a que João Costa pretende que se juntem outras pessoas, com ou sem experiência deste desporto e com ou sem deficiência, para formar uma equipa.

“O objetivo é ter pessoas, com ou sem deficiência, com ou sem experiência, a jogar, num campo normal, na relva, à chuva, com chuteiras e equipamento. Esse é o objetivo e, até lá chegarmos, será um processo demorado”, vinca.

O processo faz-se passo a passo e, apesar de meia dúzia de treinos apenas, já se contabilizam ganhos.

Na Quinta da Conraria, na APCC, os seus 13 jogadores aquecem, a correr, enquanto passam a bola de rugby à volta da cintura ou a atirá-la para o ar.

Quem os vê pela primeira vez não se apercebe da evolução, mas João Costa explica: “Não conseguiam atirar a bola para o ar e apanhar sem deixar cair e agora conseguem fazer isso e ainda batem uma palma no entretanto”.

Para além de melhorias na agilidade ou na coordenação física, ganham-se também “competências sociais e pessoais, como a comunicação ou o trabalho em equipa”, salienta João Costa, que faz questão também de incutir nos seus jogadores um conjunto de valores associados ao râguebi: “Respeito, honestidade, paixão e entrega”.

Mas, acima de tudo, quer que todos os treinos se façam com diversão.

“Se não há sorrisos, se não há gargalhadas, então isto não faz sentido”, assevera.

Nuno Simões, de 24 anos, capitão da equipa, desdobra-se em elogios ao seu treinador e à modalidade que, diz, sempre gostou mais do que do futebol.

“Eu amo o râguebi. Gosto de ser um durão e um valente no râguebi, gosto de ser o ‘gajo’ brutamontes, mas também gosto de ser aquele que ajuda os outros”, realça Nuno, para logo a seguir chamar a atenção da Lusa do que se passou no treino: “Vocês viram? Dei um espalho e levantei-me”.

Na equipa, Nuno sente-se bem, conta que está a evoluir e quer sempre dar “o melhor”, enquanto sonha, um dia, ir aos Estados Unidos para ver o Super Bowl, jogo da liga de futebol americano.

Por agora, João Costa pretende alargar o grupo e torná-lo consistente, para além de querer levar a ideia a outras instituições, por forma a se formarem mais equipas mistas.

Sobre planos futuros, nomeadamente a presença no Campeonato Mundial desta modalidade, em 2020, na Irlanda, o mentor do projeto não afasta a possibilidade: “Quem sabe? É um grande desafio, mas nada é impossível”.

No entanto, o último patamar a atingir, frisa, seria ver um dos seus jogadores a “ter uma experiência de um treino num clube”.

“Vamos tentar levar isto um pouco mais além, para um contexto extra instituição e realmente inclusivo. Quem sabe se não vamos conseguir”, refere.

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