“As marinas são tão importantes para o turismo náutico como os hotéis para o turismo em geral. Sem boas marinas, sem boas infraestruturas, não teremos turismo de qualidade”. A garantia é dada por Martinho Fortunato, responsável da MarLagos — a marina de Lagos, no Algarve — e vice-presidente da Associação Portuguesa de Portos de Recreio - Marinas de Portugal.

A zona na qual os barcos atracam acolhe no seu seio um “cluster” de empresas. “Vai da reparação de barcos, supermercados, projetos imobiliários, restauração, empresas marítimo-turísticas, vários negócios que surgem pela existência das marinas”, descreve, em conversa telefónica, com o SAPO24, o responsável, que também é chairman da IMG (Grupo Internacional de Marinas) da ICOMIA (International Council of Marine Industry Associations), associação que congrega todas as associações mundiais ligados à náutica de recreio.

Durante a pandemia, Martinho Fortunato diz que “foi o fecho total, sem entrada de embarcações, dois meses sem visitas”, um dado que impactou nas contas. “As receitas caíram para zero”, recorda, ao referir-se ao período de estado de emergência e ao confinamento de que daí resultou. “Perdemos uma fonte importante de receita. Nós e toda a cadeia de valor à volta”, explica. O impacto só não foi maior, “porque os primeiros três meses do ano foram muito bons”, permitindo equilibrar as perdas, que se cifram “em 20%”, frisa.

“Normalmente, noutras crises, a hotelaria quebra e recupera rapidamente. A náutica tem um delay em relação a outras atividades. Demoramos a comprar e a vender barcos”, admite, relembrando que a indústria náutica, de recreio e desportos, integra o plano de recuperação económica desenhado por António Costa e Silva.

A dependência do sul do país em relação aos velejadores do norte da Europa

No que toca a Portugal, que contempla 37 marinas e portos de recreio no continente, Açores e Madeira, “o sul do país, depende 50% do mercado estrangeiro”, reconhece Martinho Fortunato.

Tal dependência destas quatro marinas – Lagos, Portimão, Vilamoura e Albufeira - abrange, por um lado, os “proprietários de barcos de bandeira estrangeira que escolhem Portugal, e o Algarve, para ter o barco em permanência”. Uma escolha que resulta na “entrada, em setembro, e saída, em junho, que permite atenuar a sazonalidade da vida das marinas”, assinala o responsável.

Por outro lado, as marinas dependem também dos que “estão de passagem, porque Portugal tem a melhor localização do mundo, na passagem de todas as rotas. Somos a primeira paragem de quem atravessa o Atlântico, onde se prepara o barco para fazer a travessia, de quem vai ou vem do Mediterrâneo,”, acrescenta.

O presidente da MarLagos faz ainda uma previsão para o que resta deste verão tardio. Constata um movimento “normal” no mercado português e “nos espanhóis”, mas sente o decréscimo dos “tais 20 %, no norte da Europa, que se estão a retrair, que não circulam de barco devido às incertezas da evolução da pandemia e dúvidas sobre a necessidade de quarentenas”, relata.

E desse mercado, aponta um dado curioso. “O engraçado é que as marinas desses países estão a rebentar pelas costuras. Muitos não usaram o barco durante um ano, habitualmente tinham os barcos no Mediterrâneo ou Caraíbas, levaram-nos para perto deles”, esclarece. “Quem não foi de férias, ficou no Reino Unido, por exemplo. O mercado náutico esgotou nos países que são emissores para nós. Mesmo sem eventos e boat shows”.

Para Martinho Fortunato, “a náutica são as férias ideais para os tempos que vivemos. A família no barco, sem aglomerados, longe de toda a gente, pode ancorar em praias isoladas. Daqui de Lagos podem ir até a Alvor ou ilha da Culatra, são férias móveis e não estão fechados numa casa”, descreve. “Há muita procura”, garante.

Olha para o futuro com “otimismo”, antecipa. “Apesar da quebra de receitas em alguns setores – restauração, hotéis da marina ou marítimo-turística -, as perspectivas, à medida que o mundo se abre e retoma a normalidade, são de que esta será uma atividade preferencial. As pessoas estão a aderir à náutica”, assegura Martinho Fortunato.

Barcos “saltitam” entre Albufeira, Portimão e Lagos

 A 1ª edição da regata “Aos Bordos p’lo Algarve”, primeira competição a sul, ilustrou que a atividade náutica (de recreio e/ou competitiva), uma clara aposta do turismo algarvio — conforme referiu ao SAPO24 João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve — é um filão longe de estar esgotado.

A longo de três dias, 23 embarcações nas classes ORC e NHC percorreram cerca de 40 milhas náuticas (74 quilómetros) entrando e saindo das marinas de Albufeira, Portimão e Lagos e, de novo Albufeira, onde terminou a prova, sem direito ao tradicional convívio de entrega de prémios, mas com os velejadores a serem “recebidos” com uma atuação dos “The Brothers

Organizada pela Marina Yacht Clube de Albufeira (MYCA), em conjunto com a Best ESports Team e a Associação Regional de Vela do Sul (ARVS), Elixir D-Loft (ORC) e ao Mar Meu (NHC) foram os vencedores da primeira edição de uma prova que contou com a presença de Martim Fernandes, 19 anos, a bordo do Baby Elixir, vice-campeão nacional laser radial, vencedor do ranking laser radial 2019 e do J Boats Portugal VR Series, competição náutica virtual que decorreu durante o impedimento das competições no mar.

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