A primeira medida da guerra comercial que Trump lançou contra o mundo foi o lançamento de tarifas sobre o aço europeu. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, respondeu com outras ameaças, uma das quais atingia o Whisky e o Bourbon dos Estados Unidos. E quase de seguida, Trump prometeu retaliar com uma taxa de 200% sobre as bebidas alcoólicas europeias.

Por enquanto, tanto do lado da União Europeia como de Trump, tudo não passa de ameaças, mas se o presidente norte-americano avançar mesmo com estas tarifas, os problemas no setor nacional, que exporta cerca de 100 milhões de euros em vinho por ano para os EUA, serão enormes. Em Portugal, naturalmente há enorme preocupação, mas também estupefacção face a estas ameaças.

"O Presidente Donald Trump repete constantemente que 'vai fazer a América novamente grandiosa', mas na verdade tem dado inúmeros tiros nos pés desde o momento da sua investidura, há escassos dois meses. Esta medida, a concretizar-se, é mais um erro crasso de estratégia. As tarifas geram sempre uma série de retaliações em cadeia de outros países, assim dificultando cada vez mais a rentabilidade da circulação de bens, que é fundamental para os EUA", começa por dizer ao SAPO24 Paulo Amorim, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas (ANCEVE), revelando também que estas possíveis medidas podem prejudicar inclusivamente a própria economia dos Estados Unidos.

"Todo o sistema de importação e distribuição de vinhos nos EUA é muito dependente dos vinhos Europeus, nomeadamente dos vinhos Italianos e Franceses, incluindo o Champagne, não esquecendo os vinhos portugueses e espanhóis. Não é só com os vinhos da Califórnia - que são muito caros e que sofreram quebras de produtividade dramáticas em consequência dos incêndios -, nem só com os vinhos chilenos e argentinos que a distribuição consegue ter massa crítica e sustentabilidade económica. Os importadores, distribuidores, restaurantes e lojas de vinhos necessitam dos vinhos Europeus e sem eles verificar-se-ão despedimentos e falências em grande escala", diz.

"Esta medida, a concretizar-se, é mais um erro crasso de estratégia. As tarifas geram sempre uma série de retaliações em cadeia de outros países, assim dificultando cada vez mais a rentabilidade da circulação de bens, que é fundamental para os EUA" Paulo Amorim, Presidente da ANCEVE

Paulo Amorim critica a posição de Donald Trump, mas não se esquece também das ameaças europeias, concretamente de Ursula Von der Leyen.

"A utilização do Bourbon por parte da União Europeia para retaliar as taxas aplicadas ao aço europeu foi um erro crasso, conhecendo-se a idiossincrasia de Trump, o seu orgulho desmesurado e a facilidade com que se ofende. A União Europeia falhou novamente ao sacrificar e colocar em risco a sua fileira agro-alimentar, o que mostra a falta de estratégia, de táctica e de liderança na Europa", afirma, salientando que estas ações poderão levar, "consequentemente", a outras menos legais.

"A história ensina-nos que, perante este tipo de dificuldades, o mercado busca sempre caminhos alternativos e os exemplos do contrabando via Hong Kong aquando das taxas aplicadas na China, dos esquemas para contornar as sanções à Rússia ou até da Lei Seca e da Proibição nos próprios Estados Unidos repetir-se-ão, com entradas de vinhos através das fronteiras do Canadá e do México", concretiza.

Tudo não passa, por enquanto, das tais ameaças. Mas a concretizarem-se, as de Trump, o que isso significará para o mercado nacional? Paulo Amorim não tem dúvidas: uma machadada para o setor nacional.

"Para o setor vitivinícola português esta medida vem no pior momento, pois o mercado norte-americano é fundamental para os vinhos nacionais. Todas as regiões serão afetadas, até porque a concorrência ficará ainda mais exarcebada nos outros mercados.Basta ir às duas principais Feiras do Mundo, a Vinexpo Paris e a Prowein, para constatar o quão difícil é hoje vender vinho nos mercados internacionais. Portugal, historicamente reconhecido pela sua ancestral habilidade em prospetar e conectar mercados globais e a sua capacidade de adaptação a diferentes culturas, encontra-se novamente perante a necessidade de reforçar a sua vocação internacional. No setor do vinho, em particular, a internacionalização é não apenas uma estratégia urgente, mas um imperativo económico e cultural", defende Paulo Amorim.

"Este é o momento de arriscar novos voos, não apenas para o setor do vinho, mas para toda a economia portuguesa, reafirmando, como sempre, que este pequeno País à beira-mar plantado pode voltar a ser um grande protagonista no palco mundial"

A estratégia futura, diz o Presidente da Anceve, pode passar por uma procura de novos mercados de exportação, mas para tal terão de existir mudanças internas pelos próprios produtores nacionais, o que poderá afetar os mais pequenos

Trump vinho
Trump vinho Donald Trump é também ele um produtor de vinhos. A Trump Winery está localizada em Charlottesville, na Virgínia, e é a maior vinícola da costa oeste dos EUA. Atualmente a empresa é dirigida pelo seu filho, Eric Trump. AFP

"Apesar dos benefícios claros, a internacionalização também apresenta desafios para Portugal. A competitividade global exige que as empresas portuguesas sejam altamente eficientes e inovadoras, o que pode ser um desafio para pequenas e médias empresas que enfrentam limitações financeiras e de recursos. O sucesso da internacionalização requer um compromisso estruturado e medidas alinhadas às especificidades do setor. É crucial que o setor explore novos mercados e se reinvente constantemente, adotando estratégias de marketing inovadoras, à semelhança do que já fazem, com sucesso, a Áustria e a Nova Zelândia", refere Paulo Amorim, crente de que esta também poderá ser uma boa oportunidades para a economia nacional.

"Internacionalizar não é apenas exportar produtos ou serviços, é exportar a essência de Portugal, a sua qualidade, inovação, história, cultura, resiliência e autenticidade. Este é o momento de arriscar novos voos, não apenas para o setor do vinho, mas para toda a economia portuguesa, reafirmando, como sempre, que este pequeno país à beira-mar plantado pode voltar a ser um grande protagonista no palco mundial", salienta.

"Grupos de cinco, seis ou até mais produtores poderiam ter uma adega comum, um chefe de viticultura, um enólogo, um administrativo e um responsável comercial, que trabalhariam para todos e potenciariam uma muito maior competitividade global"

O panorama atual do setor em Portugal: "Uma enorme preocupação"

Se vão chegar ou não, as tarifas, ainda é incerto. O que é certo, no entanto, é o atual panorama do vinho em Portugal, que não é nada fácil.

"Existe uma enorme preocupação com o momento atual do setor vitivinícola, que enfrenta desafios significativos, face à quebra e alterações dos padrões de consumo, à instabilidade do contexto internacional, à dificuldade em conseguir aumentar o valor acrescentado, à deficiente remuneração dos viticultores, aos apelos constantes às destilações de crise e aos negócios por elas proporcionados, ao controle relativo ao trânsito de vinhos, às reclamações sobre as deficiências da fiscalização, à problemática em redor do arranque de vinhas, ao futuro do Programa VITIS e às importações de vinho a granel de baixo preço, que desvirtuam o mercado. A geração de excedentes de vinho e as alterações nos padrões de consumo, especialmente entre os mais jovens, são apenas dois de outros grandes desafios do setor", diz Paulo Amorim, salientando também que ao longo da sua vida profissional nunca assistiu "a uma vindima tão difícil como a de 2024".

Bloco de Esquerda defende mais proteção para trabalhadores expostos ao sol
Bloco de Esquerda defende mais proteção para trabalhadores expostos ao sol

"O setor regista dificuldades de produção e colheitas cada vez mais imprevisíveis, devido às alterações climáticas, a que acrescem os novos problemas surgidos com os seguros de colheitas. Muitos viticultores deixaram as uvas por colher, ou por não conseguirem encontrar compradores ou pelo facto de o preço que lhes foi oferecido implicar um prejuízo demasiado avultado e não compensar o trabalho da vindima, após um ano de investimento nas vinhas", diz o presidente da ANCEVE, que apresenta também algumas soluções para o setor.

"É fundamental conseguir remunerar melhor os viticultores. Em muitas regiões estes só sobrevivem graças ao facto de desenvolverem outras actividades profissionais, que ajudam a complementar o trabalho na vinha. Também muitos pequenos produtores resistem a unir esforços, o que lhes permitiria muito maior massa crítica e repartição de custos. Grupos de cinco, seis ou até mais produtores poderiam ter uma adega comum, um chefe de viticultura, um enólogo, um administrativo e um responsável comercial, que trabalhariam para todos e potenciariam uma muito maior competitividade global", refere.

Diz quem sabe que "depois desta última vindima passamos a ter um setor diferente, mais crispado, menos unido e com muitos viticultores, produtores, comerciantes e exportadores a tentarem vender as suas empresas ou a ponderarem pura e simplesmente abandonar a atividade, por ser claramente e insustentavelmente deficitária".

Paulo Amorim, contudo, diz que não é o momento de "baixar os braços".

"O maior e mais imediato desafio da fileira vitivinícola Portuguesa é conseguir aumentar o valor acrescentado nos mercados internacionais, no sentido de remunerar melhor e mais condignamente os viticultores, dessa forma assegurando que as vinhas são rentáveis, cada vez mais bem tratadas e produzem as melhores uvas. É uma conjugação virtuosa de factores que colocará finalmente Portugal na rota do sucesso", concluiu.