“O caminho dos Açores é mais natural, mais verde, com um produto melhor e vendido com um bom preço, que é aquilo que nós tentamos fazer ou que estamos a dias de apresentar. Acho que é esse o caminho de futuro para os Açores: é fazer o suficiente, mas vender um bom produto a um bom preço”, afirmou, em declarações à Lusa, Anselmo Pires, presidente da Associação de Jovens Agricultores da Terceira (AJAT) e um dos oito produtores que integram o projeto.

Há vários anos que os produtores da ilha Terceira dizem ser os mais mal pagos dos Açores, com um preço médio por litro de leite de 26 cêntimos.

Com o fim das quotas leiteiras na União Europeia, muitos tentaram aumentar a produção para compensar a perda de rendimentos, mas a indústria impôs-lhes um teto, a partir do qual estão sujeitos a cortes.

Habituados a produzir mais para ganhar mais, nem todos se deixaram convencer pela ideia de produção em modo biológico.

“Na minha opinião, é normal haver essa resistência. Se estamos em tempo de crise, achamos que tendo menos vai ser mais prejudicial. Mudei-me, porque achei que ao produzir menos e ser mais bem pago ia ter mais lucro e estou a ter”, salientou Silvestre Rocha, outro produtor do projeto.

A proposta de criação de um leite biológico partiu da única fábrica de leite da ilha, a Pronicol, com um incentivo de 10 cêntimos extra por litro, que os obrigava, no entanto, a reduzir o efetivo e a alterar os hábitos de uma vida.

O desafio foi aceite por oito produtores e seis estão só a aguardar pelos últimos resultados da entidade certificadora para verem o seu produto chegar às prateleiras dos hipermercados.

“Acima de tudo é uma aventura. Vi isto com bons olhos quando me disseram que eu precisava ou tirar mais leite ou tirar menos e ganhar mais. Apareceu-me esta oportunidade de reduzir no efetivo das vacas e conseguir ganhar mais com mais qualidade e aproveitei”, adiantou Bento Pereira, que também integra o projeto.

O número de vacas por exploração diminuiu – de 60 para 40 em alguns casos – e a sua alimentação passou a basear-se quase em exclusivo no pastoreio, por isso a produção de rolos de erva também foi reduzida.

Os tratores, adquiridos com apoios da União Europeia, estão agora arrumados na garagem e em vez de utilizarem herbicidas contratam trabalhadores para limpar as infestantes manualmente.

“Eu fazia 400 rolos e agora faço nem sequer 100. Tenho menos despesa a fazer rolos e o trator arrumado na garagem. Todos os dias gastava um rolo de erva nas vacas agora passo seis meses sem gastar um rolo que seja”, contou Bento Pereira.

Sem químicos, a erva “cresce mais devagar, mas é de melhor qualidade”, segundo o produtor, que realça que, desta forma, também as infestantes “crescem mais devagar e dão menos trabalho”.

Apesar das muitas mudanças, Silvestre Rocha considera que, no fundo, os produtores de leite estão a fazer um “regresso às origens”.

“Passei a ter um trabalho mais parecido com aquilo que eu tinha com o meu pai, quando comecei há 30 anos”, frisou.

Foi o preço que os convenceu a reaprender tudo o que julgavam já saber sobre a produção de leite, mas, passados dois anos, mudaram de práticas e de mentalidade.

“Há dois anos o que nos aliciou para entrar neste projeto foi o facto de termos mais 10 cêntimos por litro de leite na conversão para o leite biológico, hoje já pensamos que estamos a fazer um produto diferenciado, com valor acrescentado, estamos a proteger o meio ambiente, não usamos herbicidas, não usamos adubos químicos. A mentalidade do agricultor está a modificar”, sublinhou Anselmo Pires.

“Atualmente vejo-me a olhar para as prateleiras e a comprar menos plástico, a comprar mais verde. Até eu estou a tentar ter uma melhor alimentação”, confirmou Silvestre Rocha.

Os primeiros oito produtores deverão colocar no mercado entre 3.500 a 4.000 litros de leite por dia, mas o presidente da Associação de Jovens Agricultores da Terceira está convicto de que outros se juntarão ao projeto.

“Os produtores estão à espera de ver como é que este grupo finaliza para depois arrancarem”, disse, alegando que há abertura por parte da indústria para alargar o projeto.

A produção em modo biológico “não é fácil como alguns querem fazer crer” e está sujeita a um controlo rigoroso de várias entidades, segundo Anselmo Pires, que defende, no entanto, que os Açores são “a região ideal” para apostar neste género de produto.

O leite biológico da ilha Terceira ainda não chegou às prateleiras, mas quem já o provou garante que “é mais saboroso” e já mostrou ser uma boa opção para a confeção de arroz doce, por exemplo.

“Costumam utilizar leite e às vezes metem manteiga para ficar mais gorduroso. A pessoa que fez disse que não precisou de usar um bocadinho de manteiga, foi só o leite, e estavam belíssimas”, contou Silvestre Rocha.

*Carina Barcelos, da agência Lusa

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