Não é habitual, nem sequer esporádico, que os vencedores dos 65 concursos da Eurovisão consigam uma fama duradoura ou a consideração da enorme galáxia da música contemporânea. Se percorrermos a lista dos vencedores encontramos três ou quatro nomes que ainda sobreviveram uns anos como originalidades e depois esfumaram-se na constante competição pelo sucesso da pop music. E encontramos os ABBA, que se destacam nitidamente, não pela especial originalidade melódica das suas criações, mas porque de facto conseguiram uma sucessão de grandes sucessos internacionais. Em 1979, o seu sexto álbum, "Voulez-Vous" ainda subiu ao primeiro lugar nas vendas europeias, japonesas, mexicanas, australianas e canadianas. Nesse ano e no seguinte fizeram uma tournée mundial que esgotou salas e salas na Europa e Estados Unidos.

Mas, entretanto, houve divórcios, desentendimentos mais ou menos públicos e a concorrência do "disco" e dos "new romantics", à direita, e do punk e heavy metal, à esquerda, acabou por os tornar apenas uma saudade dos pré-adolescentes na época. Considera-se — consideram os críticos e os historiadores — que os ABBA acabaram em 1982, apesar de continuarem a produzir esporadicamente e a sua última aparição juntos ter acontecido num vídeo para a televisão sueca em 1986. As carreiras a solo não chegaram a pegar.

Se ouvirmos hoje "Waterloo", a música com que ganharam o festival de 1974 e vendeu milhões, não a conseguimos distinguir de outras produções festivaleiras, antes e depois. É um produto nitidamente pop: fácil de memorizar, leve nas intenções, pouco profundo ou inovador musicalmente; uma coisa feita para vender às massas jovens pelo menor denominador comum.

Aliás, é isso que os festivais da Eurovisão sempre produziram; uma espécie de 'nacional cançonetismo' de cada país, misturado de forma a agradar a todos. Os candidatos sempre hesitaram entre o inglês, mais universal e mais adequado ao pop, e as línguas dos seus países, algumas com uma sonoridade ininteligível para a grande audiência que se pretendia. O ponto comum sempre foi sentimentalismo pouco imaginativo, que só piorou quando o termo Euro passou a incluir países que nem um analfabeto incluiria na Europa.

Embora os festivais tenham audiências televisivas formidáveis, os amantes e praticantes do rock, pop e música de dança em geral, aqueles que saem pelo menos uma vez por semana para dançar e seguem a produção musical dos seus preferidos, esses sempre viram com desdém o sucesso dos sucessos eurofestivos. Daí que durassem pouco. E daí que seja mais extraordinário o sucesso dos ABBA.

A música contemporânea — chamemos-lhe assim, à falta duma classificação menos genérica – divide-se em dezenas e grupos e subgrupos — cada um com os seus seguidores fiéis e apreciadores ocasionais. Se quer saber quais são esses estilos, a página "100 anos de rock" é a melhor cábula. Se passar com o rato do seu computador em cima duma etiqueta, ouve um exemplo de género. Não há página melhor para saber tudo e tirar todas as dúvidas.

Duas classificações que não aparecem lá é "nacional-cançonetismo" e "europeu comercial", porque não são géneros em si; podem entrar emprestados em várias etiquetas. São sem dúvida pop, no sentido de "popular music", ou seja, música feita para agradar ao maior número possível de pessoas.

É costume incluir o "pop" e outros estilos, como o "disco", dentro do mundo do rock, mas na realidade, se apelam às mesmas faixas etárias, são completamente diferentes. O "rock", ou "rock’n’roll", é essencialmente música de protesto, e geralmente norte-americana ou inglesa. O pop é música de apaziguamento e vem em todas as línguas – os franceses e os italianos tiveram épocas em que eram fortes no pop (Francoise Hardy, ou Gigliola Cinquetti, por exemplo).

No rock, a banda de todas as bandas são os Rolling Stones, o que não quer dizer que sejam melhores do que muitos outros; apenas têem conseguido manter a energia, a simplicidade musical e o não-conformismo rockeiro intactos durante décadas. Mas o rock tem muitos sabores, entre David Bowie e Peter Gabriel, dois exemplos de como é possível experimentar constantemente — o oposto dos Stones — sem sair da proposta essencial do rock, que é colocar "as coisas" em questão, sejam essas "coisas" individuais ou colectivas — amor, as injustiças sociais, a autoridade mal exercida, etc. etc. Mas também há inovação no básico, que se vê em bandas como os B52’s e os Devo.

Isto tudo a propósito dos ABBA, dos quais se poderia dizer, tal como dos Stones, que são a banda de todas as bandas — só que no mundo do pop.

Porque é que voltaram? Sabe-se lá! Pode ter sido por saudades do sucesso, por necessidade ou vontade de ganhar mais dinheiro — está sempre a acontecer, estes reaparecimentos de cometas desaparecidos.

O regresso vai acontecer num concerto virtual em Londres — sim, virtual, em que eles aparecerão como avatares deles próprios — para o qual se podem comprar bilhetes e assistir virtualmente. Depois, um novo álbum, "Voyage", do qual já foram lançados dois videoclipes. O primeiro, "I still have faith in you" é uma viagem saudosista, como se estivessem arrependidos de se ter separado, ou, melhor, como se esperassem voltar ao sucesso do antigamente.

Segundo os comentários na net, há fãs em êxtase: "O melhor momento da minha vida" e outras afirmações do mesmo género.

Será um grande sucesso? Muito provavelmente. O vazio do pop precisa de ser constantemente preenchido com mais vazio, para nos divertirmos todos. Bué.

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