Não vamos aqui enumerar as inúmeras razões dos que consideram a reeleição de Trump como uma catástrofe; desde as políticas (a ameaça muito real ao sistema democrático) às económicas (a guerra comercial aos parceiros e o conluio com os adversários, no cenário internacional), passando pela personalidade narcisista mórbida e pela amoralidade desbragada.

Mas Trump tem os seus defensores incondicionais, uma base firme que aceita e aplaude tudo o que ele faça e que corresponde, mais sondagem, menos inquérito de opinião, a cerca de metade do eleitorado. Já se viu que mentiras descaradas, escândalos sexuais, diatribes racistas e manipulações do sistema, que deitariam abaixo qualquer presidente, não diminuem significativamente o ardor dessa base. O próprio Donald está ciente da sua resiliência, da qual se gaba constantemente; como famosamente afirmou durante a campanha das primárias republicanas em 2016: “Podia dar um tiro a alguém à luz do dia no meio da Quinta Avenida que não perderia um voto”.

Ora bem, a próxima eleição será decidida, como todas as eleições em todos os tempos, pelos indecisos e hesitantes. Dum lado, os defensores incondicionais que votam pelo candidato A, do outro os inimigos ajuramentados que escolhem o candidato B; no meio, aquela massa, por vezes minoritária, que à última hora decidirá qual deles servirá melhor os seus interesses, ou os interesses do país.

Neste contexto, os democratas sabem que precisam de um candidato com duas qualidades contraditórias: equilibrado e sensato ideologicamente (para tranquilizar os moderados), mas agressivo e manhoso o suficiente para lutar contra Trump no seu próprio terreno – pois é certo que o Presidente tudo fará – TUDO, no sentido mais lato do termo – para continuar a sua gloriosa jornada de auto-engrandecimento e destruição inexorável de qualquer valor que o ameace.

Quem tem acompanhado as primárias democratas, que se arrastam há meses e começaram com 29 candidatos, reduzidos agora, em Fevereiro de 2020, a oito, não pode deixar de se preocupar com o cenário esmorecedor.

Por um lado, há a questão da estratégia democrata: apresentar ideias, soluções para a economia norte-americana. Umas serão melhores do que outras, mas não serão as boas ideias que derrotarão Trump nas urnas. E algumas estão tão fora dos conceitos e preconceitos que formam o âmago do pensamento dos americanos desde que o país existe, que nem sequer mostram bom senso.

Por exemplo, o candidato Bernie Sanders, que até agora tem estado entre primeiro e segundo na corrida, rotula-se como socialista. As suas propostas, se vistas do ponto de vista europeu, são até moderadas; uma espécie de social-democracia que diminuiria as aterradoras diferenças sociais, indo buscar aos muito ricos os fundos necessários para dar um mínimo de assistência social e nível de vida aos que nada têm.

Socialismo é uma palavra que tem vários significados, conforme o contexto histórico e geográfico: os nazis eram nacional-socialistas, a URSS era socialista, os países do norte da Europa consideram-se socialistas, o pequeno-burguês PS português também se diz socialista. Mas, para os norte-americanos, que não distinguem nenhuma destas nuances, socialismo é um conceito aterrador, o anti-capitalismo, o que eles chamam de “un-american”. Para eles, socialismo é a abolição da propriedade privada, o fim das liberdades, a ditadura da terra queimada e dos massacres indiscriminados.

Outro exemplo, o candidato Joe Biden, que até agora dividia as preferências com Sanders. O ex-vice Presidente representa o bom senso, uma solução social muito moderada, a decência no cenário internacional e a volta do equilíbrio com os aliados tradicionais. Os democratas acham que este estado de coisas pré-trumpiano teria mais hipótese junto dos moderados, esquecendo-se que o mundo mudou – se foi Trump que o mudou ou se Trump representa essa mudança, não vem para o caso; os eleitores não querem voltar para o antigamente, que não lhes traz boas recordações.

Isto, quanto às políticas. No que diz respeito à personalidade, não é preciso ser psicólogo para ver que tanto Sanders como Biden seriam completamente arrasados num frente-a-frente com Donald Trump. Não têm a agressividade, a manha, o atrevimento rasca para responder taco-a-taco aos insultos, insinuações e confabulações que o Presidente lhes atiraria à cara. Às propostas de Sanders, Trump responderia com uma única palavra: “socialista!”. Às considerações de Biden, Trump atiraria com todas as histórias (falsas) dos falhanços de Obama, um fraco, um pusilânime.

Dos outros candidatos democratas ainda na competição, não vale a pena falar; Trump já os destruiu de várias maneiras, usando todos os golpes baixos do seu inesgotável arsenal. Têm propostas económicas interessantes? Quem quer saber? “MAGA – Make America Great Again!” é o programa que interessa, por mais vazio ou vago que seja.

Neste contexto, surgiu um candidato democrata sui-generis – daqueles de que se poderia dizer “Só na América!” Trata-se de Michael Bloomberg que, logo para começo de conversa, é dezassete vezes mais rico do que Trump.

Ao contrário de Donald, é um homem de negócios muito bem sucedido, que nunca faliu e não tem telhados de vidro. Não tendo apoiantes até há poucos meses, resolveu o problema como pode ser resolvido: com dinheiro. Bloomberg já gastou centenas de milhões de dólares – nada de mais para quem tem 53 milhares de milhões – em campanhas televisivas nos Estados onde decorrem as primárias. Em vez de ir a comícios, como fazem os outros, faz anúncios. Uma presença virtual nos ecrãs e nas redes, tão ou mais eficiente do que arengar para um auditório.

E o que dizem os anúncios de Bloomberg? Propõem reformas económicas, alterações políticas, soluções sociais? Nada disso. Atacam Trump, de frente, de caras. Bloomberg, ex-presidente da câmara de Nova Iorque (onde fez um bom trabalho) é o único candidato democrata que sabe onde está o âmago da questão. Numa entrevista esta semana, perguntaram-lhe se não acha estranho uma campanha política entre dois multi-milionários. Sorriu: “Quem é o outro?”.

Trump já sentiu o perigo. Começou a tweetar furiosamente contra o “mini Mike” – Bloomberg é mais baixo do que ele, e é este o nível a que estamos. E Bloomberg respondeu no mesmo tom.

Temos campanha. Se os democratas não estiveram completamente a desnorte, é este o seu candidato. Vai ser lindo de se ver.

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