Rajoy, a partir de Madrid, apoiado pelo senado fiel e pelos maiores partidos do reino (PSOE e Ciudadanos, para além do PP), retira todos os poderes ao presidente da Catalunha e ao seu governo, todos independentistas, é facto. Mas o que é vai acontecer se Puigdemont, repetidamente sustentado na rua por centenas de milhar de apoiantes, desobedecer? E se os deputados independentistas, que são maioria no parlamento da Catalunha, não acatarem a ordem de Madrid? Vai tudo preso? Ou será que a Catalunha vai viver com dois poderes paralelos?

E a polícia catalã, os ultimamente famosos Mossos d’Esquadra, vai acatar a disciplina imposta por um comandante da Guardia Civil espanhola? Há o risco de polícias contra polícias? Lisboa teve uma vez o episódio secos e molhados no Terreiro do Paço, a Turquia teve choque armado entre polícias e militares. O desafio vai chegar à Ramblas?

E o poder de Madrid vai ousar tomar o controlo e limitar a liberdade de expressão dos media catalães, e impor-lhes o espanholismo que fervilha nos jornais, rádios e televisões de Madrid? A informação séria já está a ser grande perdedora neste confronto, com algumas exceções – neste capítulo, exemplar o pluralismo do La Vanguardia, editado em Barcelona.

Os independentistas catalães caíram no erro de carregar no acelerador da soberania sem acautelarem o dia seguinte.

Os nacionalistas castelhanos e espanhóis caem no erro de submeter a Catalunha à sua tutela, suspendendo a autonomia que tem existido. Sobrepõem o argumento da legalidade ao da democracia. Escudam-se atrás da Constituição para não admitirem sequer discutir os argumentos de uma parte da população.

Metade da Catalunha, a metade independentista, cai numa fase de frustração e revolta. Dividida e reprimida. Conheço famílias em que na mesma casa há pessoas que são militantes do republicanismo catalão e há quem defenda a continuidade da Catalunha no reino de Espanha. A ocupação do poder catalão pelo espanhol, através do célebre artigo 155 não vai alterar o essencial da correlação de forças entre as pessoas sob o mesmo tempo. Mas tende a provocar mais crispação. As boas práticas de convivência, até entre vizinhos, nas tão abertas cidades catalãs, de Girona a Tarragona, passando por Barcelona, começam a ficar prejudicadas.

O risco de tudo virar para o pior decorre de políticos que não foram capazes de mostrar grandeza na função para a qual foram eleitos. Não foram capazes de dialogar e negociar. Nenhum está a ser capaz de reconhecer o outro como interlocutor para uma solução com dignidade.

A política existe para tratar de encontrar respostas. Está em ação gente que não é capaz. A intenção de asfixiar a identidade nacional catalã ou de a explorar traz à memória o trágico precipício dos Balcãs nos anos 90 do século XX.

A ter em conta:

Que confiança e respeito conquista um sistema de justiça que tem juízes que proferem sentenças que dão cobertura à violência doméstica quando a mulher é infiel ou que insinuam: se a mulher é adúltera, está mesmo a merecer uma coça? A história protagonizada por esses juizes do Porto já ultrapassa fronteiras.

Vale ver: 

O cronista que divaga sobre o destino de Trump.

Serão assim as casas do futuro?

À espera de Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson. Apetece que Daniel Day-Lewis opte por não fazer ainda a retirada.

O fim do ano aproxima-se. Esta primeira página de há uma semana, por tudo o que a fotografia nos faz ver, está no topo para ser a melhor do ano.

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