A locomotiva avança cada vez mais depressa contra cada um de nós. O contágio propaga-se em toda a Europa e nas Américas a velocidade, superior às previsões, aumenta exponencialmente a taxa de casos positivos e também dispara o número de mortos. Ao mesmo tempo, instala-se a querela política a que fomos poupados na primeira vaga.

Cassandras excluídas, na maioria dos países não se esperava que esta segunda vaga viesse tão forte e tão cedo no tempo em que a vacina ainda é uma miragem cheia de incertezas. Suportámos, coesos, a violência da primeira vaga.

Depois, muito do verão foi vivido como quase fim do pesadelo. O ar que respirámos em volta da praia era o do regresso à vida. A vontade de escaparmos a novos condicionamentos da liberdade de movimentos levou tantos de nós a desvalorizarmos o facto de o vírus continuar entre nós. O mal, de facto, não estava removido.

No verão, muita gente renunciou à prudência. A segunda vaga entrou mais expansiva do que a primeira, com o carácter traumático que carateriza qualquer recidiva.

Há agora quem, apesar da evidência agressiva desta nova onda do vírus, pretenda a obtusidade de continuar a viver fora da elementar prudência. É a escolha obtusa dos que estão a considerar a recomendação de cautela como um abuso de poder. É um clássico na história do combate às epidemias: depois da coesão inicial, sucedem-se as dúvidas e a contestação.

Esses inflamados da liberdade sem respeito pelos direitos fundamentais dos outros estão, com o absurdo argumento de estar a instalar-se uma ditadura sanitária, a atirar-nos a todos para uma tragédia maior.

A depressão e até estrangulamento económico são, é óbvio, um pesadelo. Inquestionável. Mas quando no outro prato da balança está a proteção da vida e o evitar de sofrimento atroz para tentar continuar a respirar, parece óbvio que a opção tem de ser, se disso for caso, entrarmos em economia de guerra.

Os países da União Europeia, todos, têm conseguido ativar mecanismos de solidariedade para que ninguém fique abandonado. Também está nos livros que o trauma da recidiva costuma ser mais depressivo do que na primeira vaga. O quadro de escassez económica a entrar pela vida de cada pessoa, de cada família, de cada empresa põe as emoções a abafar a razão e assim a desilusão transforma-se em revolta, potenciada por aproveitamentos políticos oportunistas. É o que se tem visto e escutado nestes últimos dias.

É uma lástima que pessoas de quem se esperava sentido de responsabilidade e adesão à prudência recomendada pela comunidade científica alinhem pelo lado dos que fomentam a confusão. É o caso de um antigo bastonário dos advogados. Apareceu, num espaço de opinião num canal de televisão, com pose e discurso de soberba, nesta fase que é a mais crítica da pandemia, interessado em apontar culpados pelo que o país está a sofrer, em vez de mobilizar para o esforço coletivo de combate à progressão do vírus. Defendeu como estratégia preferida a de confinamento dos mais velhos para que os mais novos possam manter o padrão de vida. Esta é uma via de estigmatização dos idosos que deixa à vista a míngua de generosidade e solidariedade intergeracional de quem a preconiza. Pior: induziu informação falsa ao sugerir que os mais novos são poupados à SARS-CoV-2, quando está contabilizado que o grupo etário 20/49 anos é o mais atingido pela pandemia. Há muitos jovens adultos, sem problemas de saúde fora da Covid-19, hospitalizados em cuidados intensivos. Enfrentam sofrimento atroz.

Argumentos como os defendidos pelo ex-bastonário nem merecem mais atenção, sendo que a desconfiança que pretendem ampliar ficou desmontada nos dias seguintes em debates e entrevistas em que médicos que cuidam, no dia a dia, os contagiados e que até já tiveram o sofrimento deste vírus no corpo deles demonstraram como a gravidade do combate nos implica a todos.

É reconhecido que restaurantes e bares estão a sofrer de modo tremendo os efeitos desta pandemia. Muito negócio e muito emprego está a ser perdido em modo que desespera. É preciso que o Estado mobilize recursos para compensar esses setores em desgraça. Mas as restrições ao funcionamento são evidenciadas por estudos científicos como o da equipa do investigador Jure Leskovec, da Universidade de Stanford, com foco em restaurantes de Nova Iorque, Chicago, Filadélfia e sete outras cidades principais nos EUA. A “big data” associada a este estudo demonstra como os restaurantes são lugar de propagação do virus. Mesmo quem está no negócio da restauração reconhece que a refeição em espaço fechado introduz risco aumentado.

O fardo desta pandemia tem de ser partilhado por todos. Muita gente, muitos comerciantes, muitos trabalhadores, está em revolta com a sensação de injustiça com as restrições impostas. Há que respeitar todos, ouvir todos. Apoiar todos. As medidas já decididas para atenuar os efeitos da crise económica e social em curso estão a estourar todos os equilíbrios orçamentais e vai ser preciso que vão ainda muito mais longe.

Dos políticos espera-se que saibam escutar o saber dos cientistas, à cabeça os dos diferentes ramos da saúde, que saibam ouvir os grupos em desespero, que saibam, com audácia, construir consensos amplos para remédios que sejam os mais eficazes que possível.

A divisão, neste momento, favorece o vírus. Propicia condições para que se propague ainda mais.

A TER EM CONTA:

Há problema e crítico na União Europeia: a Polónia e a Hungria concretizam o que ameaçaram e bloqueiam, quer a “bazucada” financeira para combate aos efeitos da pandemia, quer o orçamento da União para os próximos sete anos. Varsóvia e Budapeste vetam tudo por recusarem que a sua “qualidade democrática” esteja em avaliação. A pandemia que também avança descontrolada na Europa de Leste talvez os obrigue ao recuo.

Temos de nos preparar para a chegada da vacina.

As eleições municipais brasileiras mostram que São Paulo e Rio de Janeiro têm duelos renhidos. Que os candidatos amigos de Bolsonaro se afundaram nas urnas. Que o Psol, com Boulos, está a substituir o PT.

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