O inverno de 1975 foi política e socialmente fervilhante no Alentejo, coração do Portugal em revolução. Do outro lado da fronteira continuava a vigorar a ordem austera de Franco. A cidade de Cáceres, a escassas dezenas de quilómetros de Portalegre foi cenário para um desses exemplos de puritana estupidez censória.

Foi numa manhã de fevereiro. Um agente do destacamento em Cáceres da Guardia Civil, o cabo Piris, cabeça coberta pelo capacete tricórnio da época, fazia ronda por quarteirões centrais da cidade quando, entrado na Calle Moret, reparou que um grupo de rapazes adolescentes estava muito animado diante da montra da livraria Figueroa. O cabo Piris abeirou-se e viu que os rapazes estavam em ebulição de comentários sobre uma imagem numa lâmina no escaparate na montra da livraria. Que imagem era essa? Uma reprodução da muito famosa Maja Desnuda, a pintura a óleo de Francisco de Goya que está entre as mais procuradas no Museu do Prado, com a imagem de uma mulher carnuda deitada nua sobre o lençol, e a olhar-nos. O cabo Piris de imediato fez dispersar os rapazes, todos com 14 ou 15 anos, alunos do colégio de Santo António de Pádua, uma escola só para rapazes (não era tempo de mistura de sexos), conduzida por franciscanos.

Para além de, com modos rudes, afastar os estudantes, o cabo Piris avançou para dentro da livraria e intimou a única pessoa lá dentro, a proprietária, Charete Figueroa, a retirar imediatamente aquela imagem da Maja Desnuda, que o guarda qualificava de obscena e pornográfica. Escreveu no auto de queixa que a livraria promovia “atentado à moral”.

O caso tornou-se muito falado, a livreira chegou a receber ameaças de morte e o cabo Piris foi louvado num plenário do ayuntamiento de Cáceres, com o alcalde Bustamante e o concejal Escalona a elogiaram o modo como o cabo Piris “defendeu com zelo a moral pública”.

O grande Manuel Vázquez Montálban assinava então (recorria, nesses tempos de censura, a um alter ego, Sixto Cámara) uma crónica na revista Triunfo, onde desafiava: “Toda a Espanha sensata deve lançar uma campanha radical de apoio à livreira que exibia a imagem e aos adolescentes que a contemplavam. Que todas as montras sejam inundadas com majas desnudas, para que todos possam mirar aquela carne algo decadente que promete os corpos fugitivos de pintores impressionistas”.

Este episódio aconteceu em fevereiro de 1975. Franco morreu em novembro desse ano e a Espanha entrou em transição política para a democracia. Ainda nesses meses finais do franquismo, a livreira Charete Figueroa, que não se deixou ficar submissa, começou por encomendar uma série de uns 10 postais com reproduções do óleo de Goya. Conta-se que naquele ano de 75 em Cáceres foram vendidas centenas de imagens com reproduções da Maja Desnuda.

Mais perto de nós no tempo, a rede social Facebook mostrou que também se dedica à censura, ao retirar do mural uma campanha da banda nova-iorquina Scissor Sister que, para promoção do álbum Night Work, usou, com autorização de quem gere os direitos, uma fotografia das costas do bailarino clássico Peter Reed, com a imagem captada por Robert Mapplethorpe. O sistema de controlos do Facebook considerou a imagem “inapropriada”, por isso retirou-a. O marketing da banda agradeceu a publicidade que a censura levantou.

Todos sabemos do caso “para maiores de 18” que Serralves instalou numa sala com algumas das fotografias feitas precisamente por Mapplethorpe.

É sábio o comentário que um ex-diretor de Serralves (entre 2003 e 2012), João Fernandes, fez ao Público, ao considerar a decisão censória um uso indevido pela parte do museu: ”Trata-se, simplesmente, de uma questão de cidadania, de direitos cívicos.  O pai ou a mãe de um menor devem ter o direito de levar os filhos a qualquer exposição, de decidir com eles a que imagens vão expô-los, que imagens querem discutir. Não deve ser o museu – não pode ser o museu – a decidir por eles, O que um adolescente viu nesta exposição é mais explícito do que viu já, sem filtro, na internet ou na televisão?” Evidentemente.

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