O dinheiro não é tudo, mas os relatos sobre os argumentos de uns e de outros no pugilato diplomático na cimeira europeia mostram que a Europa está esfrangalhada pelas desconfianças e pelo choque de visões sobre interesses nacionais e o interesse europeu.

As acrobacias nos discursos vão tentar explicar que os compromissos conseguidos evitaram o naufrágio.  De facto, até podem invocar que o tabu está quebrado e há mutualização de recursos, esse é sem dúvida um progresso importante, mas o principal que constatamos é que a solidariedade e esperança impulsionada pelas propostas audazes de Merkel e Macron e reforçadas por Ursula von der Leyen, resposta valente a uma crise sem precedentes, são travadas e recuam para dimensão sem a ambição que tinham.

A cimeira em que os chefes se reencontraram presencialmente mostra choque generalizado: os social-democratas escandinavos (Suécia, Dinamarca e Finlândia), o conservador austríaco e o liberal holandês contra os governos mediterrâneos (Espanha, França, Grécia, Itália e Portugal) que desta vez tiveram solidariedade de conveniência de alguns dos nacionalistas do grupo de Visegrado (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia), com Orbán num ataque violento a Rutte acusado de ser o causador do caos europeu, no que também é um ajuste de contas: Rutte está no grupo à cabeça do ataque europeu às violações de Orbán ao estado de direito na Hungria. Surpresa: não há notícia de sinais de liderança forte de Merkel, Macron ficou sozinho ao comando dos europeístas.

É devido ter em conta os argumentos de uns e de outros.

O grupo dos frugais, que aparece como egoísta, contesta o modo como os países do sul da Europa aplicam o dinheiro que recebem. Denunciam gastos assistencialistas que são amortecedor social mas que não são estratégicos para resolver o problema e criar riqueza futura. Também continuam a desconfiar do esbanjamento de recursos e suspeitam de canais por onde pode entrar a corrupção.

Os países do Sul lembram a história da construção europeia: o benefício para todos passa pela promoção da coesão que, para ser alcançada, com países em situação económica, financeira e social tão distinta no momento da integração, requer apoio dos mais prósperos aos mais frágeis. No caso da atual emergência, acresce o facto de a causa ser uma pandemia que ninguém previu – reconheça-se que esta imprevisão é uma falha de todos.

Ora, o que está em causa neste momento é reduzir os desequilíbrios que a pandemia agravou na Europa, aumentando as distâncias entre os países parceiros na União. O vírus começou por gerar emergência sanitária que depois se tornou social e económica. A resposta estratégica a estas emergências, com a necessidade de um plano de salvação e recuperação, propiciou a oportunidade política para aceleração da integração europeia.

A oportunidade é boa e promete benefício futuro a todos (o benefício de uma União a agir como Estado, grande e influente no contexto mundial), mas o surgimento de um novo nacionalismo não soberanista, mas eleitoral (o holandês Rutte tem eleições no horizonte e ameaças de concorrentes anti-europeus), faz encravar a ocasião para gerar o levantamento da União Europeia como força política e institucional de primeira grandeza, em patamar de igualdade com os EUA, China e Rússia.

A falta de superação de desconfianças e os interesses eleitorais imediatos leva ao risco de desperdício da ocasião que a pandemia paradoxalmente propiciou para robustecer a União Europeia como potência.

Há ampla maioria de países entre os 27 parceiros que desejam essa União Europeia mais coesa e mais forte, mas o interesse nacionalista de quatro ou cinco encrava esse progresso.

Mas a União Europeia forte precisa de ter como pilares, mais do que os dinheiros, os valores. A credibilidade da União Europeia passa pelo respeito integral do Estado de Direito. Estamos a ver no bazar desta negociação dos fundos, que são vitais, o fechar de olhos aos aos atropelos na Hungria de Orbán.

Subsiste alguma esperança: Merkel sabe que tem a oportunidade de entrar para os livros de história como uma grande na construção da União Europeia. Tem pela frente um semestre para conseguir essa Europa tal como foi sonhada na melhor ambição, coesa, com os dinheiros e com os valores, deveres e direitos. A chanceler também não deixará de pressionar por reformas nos países que precisam delas para deixarem de estar tão expostos às crises.

A VER:

O fascínio da grande reportagem é poder contar histórias assim.

Como a pandemia também se repercute na proteção da biodiversidade.

O concerto de Lenny Kravitz at home.

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