Uma das decisões mais indignas que um português pode tomar é marcar férias para setembro. Setembro? O mês nove? O pré-antepenúltimo mês do ano civil? O mês de vindimar, de ceifar arroz, de colher amêndoa? A sério, setembro? Em plena recordação solene do bárbaro ataque às Torres Gémeas? No início do ano eclesiástico da Igreja Ortodoxa? No regresso às aulas? Durante um equinócio? Ignorando tudo aquilo que aqueles que já esgotaram os seus dias de férias estão a passar?

Como se atrevem? Em vez de, como cidadãos tementes às regras como nós, fazerem férias em agosto? Ou em julho, para os mais aventureiros e criativos. Vá, em meses em que faça sentido utilizar a palavra "quinzena". Ninguém menciona os preços dos T2 em Cacela Velha para a segunda quinzena de setembro, pois não? Alguma razão haverá para tal. Não vejo hipótese senão julgar em praça pública quem se julga no direito de se dedicar ao ócio no mês nove.

Abra-se a excepção para quem trabalha no turismo, mas a maioria destes dissidentes do veraneio, destes corruptores ativos das normas recreativas, destes rebeldes pré-outonais, destes revisionistas balneares marca férias em setembro porque julga que nós somos parvos. Acorrem aos destinos onde, poucas semanas antes, nós, estivadores estivais, fizemos trabalho de sapa para esta gente se poder divertir à larga. Esperámos uma hora por uma mesa, comemos pota por polvo, estacionámos a uma Segunda Circular da praia, fomos almoçar com uns tios só porque alugaram casa perto, pagámos dois RSI por um quarto, pusemo-nos a andar dia 31, ficámos parados na Marateca e deixámos tudo em condições para que estes agitadores, que conspiram com os pioneiros que descansam em junho (juntos exaltam as qualidades dos meses com trinta dias), apareçam bronzeados anacronicamente.

E agora, quando já voltámos para casa, quando já estamos para aqui a organizar dossiers de micas, a saudar vizinhos que também passeiam o cão às nove e quinze, a pôr o carro na revisão dos cento e vinte mil, a marcar o podologista, a ver noticiários à hora certa, a tirar senhas da charcutaria e cafés de cápsula, a apitar a TVDEs, a comparar preços de desentupidores de ralos e a comer diárias, esta gente reage aos nossos e-mails com “Resposta automática: estou ausente até fim de setembro”. Ultrajante. Resta-nos esperar por um — um só — dia nublado.

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