A falha na contagem dos votos resulta da displicência de uma organização partidária que não testou o modelo. É o espelho de um aparelho partidário que, ao revelar-se incapaz de eficiência na organização de uma eleição primária, mostra que está sem afinação para triunfar e suscita o júbilo dos de Trump.

Mas a questão mais complexa para os democratas, é política. O “establishment” do partido puxa pelo veterano centrista Joe Biden. Na manhã desta terça-feira, quando ainda não há certezas, apenas informações de bastidor sobre os resultados no Iowa, parece desenhar-se o que se antevia: fracasso de Biden, ultrapassado pelo também veterano esquerdista Sanders e pelo jovem centrista Buttigieg. Falta saber se Warren, candidata no centro-esquerda, também fica à frente de Biden.

Todos sabemos que os Estados Unidos não são uma república federal socialista. Um político que se assume socialista tem possibilidade de ser eleito presidente dos Estados Unidos? Esta é uma questão principal para a principal força de oposição progressista aos republicanos no poder nos Estados Unidos. Algumas sondagens admitem que Sanders supere Trump, outras dizem o contrário.

É ainda muito cedo, ainda faltam 10 meses para a eleição decisiva em 3 de novembro. Mas é muito notória a falta de uma candidatura robusta no campo da oposição à demagogia do instável Trump. Os progressistas reclamam a reposição da decência na condução dos Estados Unidos da América. Mas o Partido Democrata está a mostrar-se pouco capaz de criar essa onda ganhadora.

Bernie Sanders, aos 78 anos de idade, aparece como o favorito, no conjunto dos EUA, para os eleitores com menos de 30 anos, gente que como define o cineasta Michael Moore, “está farta de políticos vendidos aos interesses corporativos e dos negócios”. Sanders tem 32% da preferência desses mais jovens, o que também mostra fragmentação do eleitorado. Mas entre os eleitores com mais de 55 anos Sanders entra pouco.

Há uma figura a revelar-se: Pete Buttigieg, com 38 anos, é o mais jovem dos aspirantes à presidência, tem um currículo que o mostra como jovem prodígio e discurso com ecos de Obama. Criado no conservador estado do Indiana, formado em Harvard, Buttigieg, foi soldado do exército dos EUA em missões no Afeganistão, apresenta-se sem complexos como gay, é casado com um professor de Humanidades e ativista religioso cristão. Em todas as muitas reuniões de campanha repete que tem o perfil certo para recuperar votos republicanos. Mas não convence a ala esquerda do partido que, nesta América muito polarizada, prefere Bernie Sanders ou Elizabeth Warren.

Os eleitores na área do Partido Democrata mostram-se muito divididos e é incerto que venham a unir-se em torno de alguma candidatura, tal a fratura entre os centristas moderados e os progressistas que reclamam viragem à esquerda. São notícias que dão júbilo à campanha de Trump.

Há uma carta ainda fora do baralho: é o multimilionário Michael Bloomberg que, aos 78 anos, depois de ter sido “mayor” de Nova Iorque e, atualmente, patrão de um império mediático se dispõe a investir a sua fortuna de um dos homens mais ricos do mundo para a missão de afastar Trump da Casa Branca. Bloomberg aparece ao centro, os republicanos moderados gostam das ideias dele sobre economia e os moderados aderem ao discurso dele sobre a emergência climática, as restrições ao acesso a armas e os direitos das minorias. Michael Bloomberg ainda pode vir a ser um compromisso.

Ainda faltam 10 meses para a eleição presidencial mas, já dentro de um mês, a “super terça-feira” 3 de março, com primárias em 15 dos 50 estados dos EUA vai peneirar muito a seleção da candidatura democrata que em novembro vai desafiar Trump.

O que este arranque da campanha desde já mostra é que asa perspetivas são amargas para Joe Biden, o veterano ex-vice-presidente de Obama que, ao longo de mais de um ano liderou as sondagens. O que também mostra a falta de uma candidatura capaz de entusiasmar o eleitorado

A TER EM CONTA:

O coronavírus vai ter o poder de fechar (temporariamente) as ligações entre Hong-Kong e a China continental? Era preciso terem dado atenção aos alertas do Dr Li. O diário de um jornalista colocado em quarentena.

Boris Johnson segue a cartilha de Donald Trump: alguns jornalistas banidos dos briefings da chefia do governo britânico. Os jornalistas reagem.

Estamos na semana que leva à noite dos Óscares.

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