São também tempos de uma nova censura e do activismo extremado que não se concretiza para além do Facebook. Ou Twitter. Vai dar ao mesmo porque depois, no terreno, são poucos os que dão a cara.

Vivemos dominados por algoritmos que não entendemos e que fazem tudo por nos conhecer quando, na realidade, estão sempre muito ao lado... São também estes os responsáveis por este estado de coisas, enquanto filtram, limitam ou mostram aquilo que supostamente queremos ver. As notícias não estão — nunca estarão — nos sites de redes sociais. Nestas plataformas estão representações de uma realidade fabricada de acordo com um paradigma que não corresponde à realidade real.

Se a construção da realidade social já depende de umas quantas escolhas, e essas escolhas dependem de um conjunto de factores que relacionam os indivíduos que as fazem com o contexto em que se inserem, a organização que representam e a sociedade em geral, aquilo que é disparado pelas organizações noticiosas para o Facebook (e outros sites ou aplicações do género) obedece a um outro conjunto de escolhas, nas quais, novamente, prevalece a subjectividade individual em relação à subjetividade associada à marca de media que representam. Uff... Se a isto juntarmos as categorias que determinam o que o algoritmo de cada um destes sites nos vai mostrar, então é demasiado óbvio que estamos perante um real pré (e mal) fabricado que resulta principalmente em excesso de repetição e muito sensacionalismo.

Estes são, para mim, tempos em que também se perdeu a noção de bom senso, simplesmente isso. Tempos do vale tudo, esse desporto em que apenas os olhos ficam no lugar. E porque vale tudo, descemos além do nível 0 da comunicação e da decência para explorar uma certa curiosidade mórbida tão típica do ser humano. Somos melhores do que isto. Podemos ser mais do que (agora) somos, desde que tenhamos a tenacidade de contrariar a tendência, pousar o telefone, desligar o computador e simplesmente ver o mundo lá fora. Pelos nossos olhos.

Paula Cordeiro é, entre outras actividades consideradas (mais) sérias, autora do Urbanista, um híbrido digital que é também uma aplicação para smartphones. Baseado em episódios diários, o Urbanista é um projecto para restaurar a auto-confiança perdida e denunciar o preconceito social. Na verdade, os vários preconceitos sociais (raça, género, orientação sexual e outros difíceis de catalogar), embrulhados num estilo de vida saudável, urbano e divertido.

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