Não vou contar aqui a história da volta dos judeus para a sua terra original, que começou informalmente no final do século XIX e se oficializou como Estado independente em 1948, dirigido por David Ben-Gurion, chefe da Organização Sionista Mundial. Ainda antes de nascer o Estado de Israel já era atacado militarmente por todos os países muçulmanos da região. Ganhou todas as guerras por cada guerra ganha crescia o seu território.

Os judeus tinham abandonado gradualmente a Palestina na Idade Média, mas as perseguições a que foram sujeitos em toda a parte fizeram crescer o sonho de voltar para a Judeia milenar, entretanto habitada por tribos muçulmanas. Com a queda do Império Otomano, em 1918, a região ficou sem controle político definido e tornou-se possível a chegada dos primeiros judeus, comprando terras ou expulsando os habitantes palestinianos.

Também não vou repetir aqui o que já escrevi nesta coluna sobre as possíveis soluções para a existência de um Estado de Israel, que têm de incluir inevitavelmente um Estado da Palestina. 

Quanto a Israel, uma democracia vencedora de todas as guerras contra países e movimentos islâmicos, reconhecido internacionalmente e apoiado por um lobby imbatível nos Estados Unidos, a existência está assegurada. 

Aliás, ninguém discute o direito de Israel existir, com excepção dos países e movimentos muçulmanos, que desde o dia 1 dizem que o país deve desaparecer. Mais importante do que ter esse direito, Israel tem meios de o exercer - em política internacional a possibilidade prática tem mais força do que o princípio teórico.

Quanto ao Estado da Palestina, atualmente dividido em duas áreas não contínuas, a Cisjordânia (“governada” pelo PLO) e Gaza (dirigida pelo Hamas), as probabilidades de ter uma identidade autónoma parecem ser cada vez mais diminutas, pondo em causa o destino dos seus cinco milhões de habitantes.

A situação do Estado Palestiniano, cuja existência é apoiada pelo conjunto das nações mundiais (embora por diferentes razões) depende na prática da vontade dos israelitas. Tempos houve em que o Governo de Tel Aviv parecia inclinado a reconhecê-lo como uma espécie de estado vassalo; mas desde 1980, quando os judeus declararam Jerusalem como a sua capital oficial (o Governo continua em Tel Aviv) o Executivo israelita tornou-se mais nacionalista e, desde 1996, quando passou a ser liderado por Benjamin Netanyahu, apoiado desde 2002 por uma coligação de sete partidos de direita e extrema-direita: Likud, United Torah Judaism, Shas, Religious Zionist Party, Otzma Yehudit, Noam, e National Unity. (Os nomes de alguns já dizem tudo sobre a sua ideologia) abandonou por completo qualquer consideração sobre dois Estados em igualdade de soberania.

A coligação presente (e as suas antecessoras) não só são fortemente contra a solução dos Dois Estados como alguns dos seus elementos têm incentivado a colonização de mais território na Cisjordânia e declarado publicamente que “palestiniano” não é uma nacionalidade, ou que não têm o direito de existir, e muito menos de ter um Estado próprio.

Sabe-se hoje que a divisão das duas regiões palestinianas, Cisjordânia e faixa de Gaza, por dois partidos diferentes, PLO e Hamas, foi impulsionada pelos governos de Netanyahu, para impossibilitar a existência de um Estado viável. Sabe-se também - e uma das provas foi dada por um ministro de Israel, Nir Barkat, numa entrevista televisiva - que Netanyahu pediu ao Qatar que desse centenas de milhões de dólares ao Hamas semanas antes do ataque de 7 de Setembro e que, nesse dia, não havia tropas israelitas na zona. Outras fontes, não comprovadas mas credíveis, afirmam que os serviços de segurança israelitas informaram o Governo da possibilidade do ataque, mas este não tomou nenhuma das habituais precauções.

Estas situações levam a pensar que o Governo de extrema-direita de Israel queria que o Hamas levasse a cabo a operação para ter uma justificação para atacar em força a faixa de Gaza. É uma acusação terrível, a de que um Governo não se importaria de sacrificar centenas dos seus cidadãos para poder matar dezenas de milhares de “antagonistas”. É terrível, mas a postura de Tel Aviv desde então tem-na tornado possível.

Também é terrível que hoje se possa dizer publicamente que os israelitas estão a fazer com os palestinianos o que os nazis fizeram com eles. Esta comparação brutal não será justa, mas também já não soa como puro anti-semitismo.

Nestes oito meses desde o fatídico 7 de Setembro, a aceitação internacional da política de Israel tem evoluído continuamente. Ao princípio, toda a gente estava ao lado dos israelitas, horrorizada com a brutalidade da incursão, e considerava justa uma retaliação. Mas há um princípio consensual de que a retaliação tem de ser proporcional ao ataque. À medida que as IDF (Forças de Defesa de Israel) bombardeavam intensa e extensivamente o território de Gaza, incluindo hospitais, mesquitas e edifícios institucionais, matando indiscriminadamente milhares de civis, homens, mulheres e crianças, o apoio internacional começou a mudar. (No dia 14 deste mês os números oficiosos eram de 31.184 mortos e 72.889 feridos palestinianos, contra 247 mortos e 1.475 feridos das IDF. O ataque inicial do Hamas fez 1.200 vítimas.) 

Simultaneamente, os colonos israelitas da Cisjordânia têm ferido e morto um número desconhecido de palestinianos, sem que as IDF intervenham.

Israel justifica esta carnificina com a necessidade de destruir os famosos túneis e salas subterrâneas do Hamas, que se calcula que possam ter mais de 500km de comprimento. E Netanyahu repete, quase diariamente, que a guerra só terminará quando o Hamas for completamente erradicado e os ainda reféns israelitas libertados. Ora, todos os analistas militares e observadores afirmam que é impossível acabar completamente com um grupo terrorista no meio duma população civil. Por outro lado, as negociações para a libertação dos reféns não têm dado resultados práticos, cada lado culpando o outro pelo impasse. É evidente que o Hamas não quer perder a vantagem negocial dos reféns, mas também parece evidente que as IDF estão mais preocupadas em liquidar os guerrilheiros do Hamas do que salvar os seus cidadãos, que nem se sabe se estarão vivos.

O apoio militar dos Estados Unidos mantém-se (com o fornecimento de material) mas a Casa Branca mostra-se cada vez mais relutante em permitir a destruição de Gaza, que inclui a impossibilidade de fornecer alimentos e medicamentos a uma população à beira da catástrofe humanitária total. A palavra “genocídio” aparece cada vez mais nas opiniões públicas e privadas. Na prática, o Presidente Biden está numa situação sem saída: não pode deixar de apoiar Israel, cujo lobby dos judeus americanos é decisivo para ganhar eleições; mas não pode apoiar Israel porque os republicanos o acusam de cumplicidade num crime. Costumava dizer-se que Israel estava refém do apoio norte-americano, mas na realidade o Governo Biden é que está refém do lobby judaico interno.

Os judeus americanos também estão divididos quanto à situação, por um lado horrorizados do que os seus irmãos estão a fazer, mas por outro incapazes de não os ajudar. Sem o apoio norte-americano, no limite poderia acontecer a situação contrária: Israel ser erradicado do mapa pelos países muçulmanos que o rodeiam.

Na minha coluna acima linkada, enumerei as saídas possíveis para esta situação. Todas têm um ponto comum: a necessidade de que Netanyahu se vá embora. Isso só pode acontecer se ele se demitir (impensável, porque tem assuntos pendentes na Justiça que o levariam à prisão), ou se a coligação se fracturar, ficando o Governo em minoria no parlamento, ou ainda com um levantamento popular que parece cada vez mais provável - 80% consideram-no responsável pelos ataques de 7 de Setembro e mais de 50% acha que ele tem de se demitir.

Considerando que ele não se demite, se perder a maioria no Parlamento o seu Governo cai e haverá novas eleições. Mas, por lei, essas eleições só podem acontecer três meses depois da queda do executivo - e durante 90 dias Netanyahu tem mão livre para fazer o que quiser, inclusive arrasar completamente a faixa de Gaza. Por outras palavras, se Netanyahu perder apoio, terá ainda mais poder!

Ao fim desses três meses, mesmo que entre um governo moderado, o que poderá ainda negociar, em que termos, e com quem? 

Xeque-mate.