António Costa tem tido vários problemas com a energia: os preços da gasolina estão no patamar do incomportável, os da eletricidade para lá caminham e, sobretudo, tem sido criticado por andar a dar gás pelas autoestradas deste país para chegar a horas a ações de campanha.

Talvez tenha sido por estar farto de largar uma nota verde de cada vez que enche o depósito, no âmbito do seu périplo pelo país na qualidade de caixeiro-viajante da bazuca europeia, que o primeiro-ministro apostou, face ao encerramento da refinaria de Matosinhos da Galp, na política do raspanete ao grande capital. Essa tipologia política já começava a ser uma imagem de marca do seu possível sucessor, Pedro Nuno Santos, pelo que Costa quis mostrar quem é que é realmente o chefe de família socialista. Porém, não há como ver a descompostura que impôs à Galp ("tem de levar uma lição") como altamente cínica, como notam os sindicatos.

Atualmente, é notório na noite das grandes cidades que os jovens procuram divertir-se de forma intensa o suficiente para compensar o ano e meio em que foram obrigados à reclusão. O mesmo fenómeno é observável em António Costa, mas no tocante à campanha política. Foram demasiados meses a evitar a demagogia e o eleitoralismo, pelo que agora o melhor é mesmo servi-los em dose dupla, sem gelo. O secretário-geral do PS, depois de uns tempos em que era necessário desempenhar o papel de homem responsável, soltou politicamente a franga.

Recentemente, António Costa, 60 anos, tornou-se um membro da geração millennial: está permanentemente numa busca incessante por aprovação. Aprovação dos eleitores portugueses e aprovação do Orçamento do Estado, que talvez possa explicar o facto de Costa andar a evitar aparecer em autarquias disputadas entre o seu partido e a CDU. Com esta fútil tentativa de defesa dos direitos dos trabalhadores, talvez tenha tentado arranjar forma de convencer eleitorado do PCP de uma forma mais subtil. A crer nas reações dos próprios trabalhadores, não terá tido sucesso. Tal como não foi difícil identificar o greenwashing presente no rejúbilo de Costa pelo encerramento da poluente refinaria, não é difícil detetar o evidente redwashing nesta súbita preocupação por aqueles que vão para o desemprego. O primeiro-ministro é um sobrevivente político, mas as últimas semanas poderão denunciar que o instinto de António Costa já foi mais refinado.

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