A ousadia da escritora é extrema e porquê? Ela escreve sobre o mundo árabe, sobre os homens, a forma como entendem as mulheres e como a sociedade assenta na enorme hipocrisia e balelas sobre Deus, o casamento, o pretenso macho e outras invenções. Eis o mood do sub título deste livro O Super-Homem é Árabe – sobre deus, o casamento, o machão e outras invenções desastrosas  de que acaba de ser editado em Portugal (tradução de Inês Pedrosa) não é um manifesto contra os homens em geral, é contra os homens que, de forma incrivelmente discriminatória, tratam as mulheres como seres inferiores, promovendo o silêncio e a ideia de que eles, homens, são mais, melhores, fortes e, claro, heróicos.

O patriarcado que rege o entendimento sobre essa forma de poder, a lógica da religião como ferramenta política, a misoginia e o sexo, eis outros tópicos à discussão, ou melhor dizendo, em análise neste livro que, para mais, está carregado de bom humor e pertinências várias, capazes de provocar pensamento.

Não sendo um livro sobre sexo, este é um livro também sobre sexo. Joumana Haddad conta vários episódios da sua vida pessoal, os seus namoros, os seus amantes, os maridos e os filhos e há perguntas terrivelmente válidas como esta: “Quando deixará uma mulher que goste de sexo de ser chamada ninfomaníaca, enquanto a um homem que gosta de sexo se chama simplesmente viril”? Ou, mais à frente, o episódio da relação apaixonada com um homem casado, muito religioso, que interrompe a relação sexual para rezar no momento exacto em que o orgasmo dela se anuncia. Ou ainda esta passagem: “Não esqueçamos que são as mães quem cria os Super-Homens: a ignorância das mães, a superficialidade das namoradas, o conformismo das filhas, a vitimização das irmãs, a passividade das esposas e assim sucessivamente”.

A mestria da autora é pensar, elaborar, com uma base de conhecimento bastante vasta sobre a realidade feminina, ao mesmo tempo que vai pontuando o livro com histórias da sua vida pessoal e, ainda, com poemas que são outra maneira de expressar o que pretende.

Com está leitura, ou com o primeiro ensaio publicado em Portugal (Eu Matei Xerazade, confissões de uma mulher árabe em fúria, também edições Sibila), somos igualmente confrontamos com a arrogância do mundo ocidental que julga com rapidez o mundo árabe (composto por 22 países e seriamente distintos entre si) e com os nossos preconceitos e ideias feitas.

Joumana Haddad recorda-nos que de pouco vale ter pena das mulheres árabes quando no Ocidente a realidade assume aspectos drasticamente condenáveis, sendo disso exemplo os números relativos ao femicídio.

Há um banho de realidade neste livro, tal como existia já no anterior, e há inteligência. Esta mulher, que já foi ameaçada várias vezes, escreve e publica, no Ocidente como no seu país ou em outros países árabes, e não tenciona calar-se. É feminista porque é humanista e crê que todos o deveríamos ser.

Acreditem em mim, querem um livro para pensar e rir ao mesmo tempo, actual e político, pertinente e inteligente? O Super-Homem é Árabe – sobre deus, o casamento, o machão e outras invenções desastrosas de Joumana Haddad é tudo isso e mais.

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