Não imagino que algum jornalista possa concordar com o essencial desta argumentação de Dobelli. Talvez o equívoco esteja no modo como ele põe a questão: não é nas notícias que há problema, poderá haver no modo como elas nos são servidas ou como as consumimos. Um noticiário é suposto ser uma ocasião de informação que acrescenta valor para a análise que nos permite entender o que está à nossa volta, perto e longe. Infelizmente, a prática diária está a mostrar-nos que é muito questionável o conteúdo de muitos noticiários cuja agenda, que produz efeito de contágio, vive da exploração de sentimentos e crimes. As deformações emocionais da realidade desviam o espaço que seria útil para dar a compreender mais do mundo.

Há tendência para redução nos jornais do espaço dedicado à análise dos media. Um dos casos que apetece analisar é o de um jornal de excelência, como é The Guardian, fonte de informação global e marca de qualidade consolidada ao longo de 195 anos. The Guardian foi criado em Manchester em 1821, a partir da filantropia da riquíssima família Scott que investiu na publicação de um jornal diário que pudesse noticiar e promover a causa da liberdade e do jornalismo liberal ao abrigo da pressão de interesses políticos ou económicos. Em fundo, The Guardian teve sempre alma liberal, entenda-se: de centro-esquerda. Sempre com grande dedicação às artes e à cultura. Em 1936, para consolidar o futuro do jornal em tempos turbulentos, a família Scott dedicou muito da sua enorme fortuna à criação de um avultado fundo financeiro, o Scott Trust, com dupla finalidade: garantir a independência e a perpetuidade do jornal. O fundo gera rendimentos com a exploração de outros negócios, sendo que o lucro reverte sempre para consolidar a marca Guardian News and Media.

É com esses vastos recursos e com a política editorial adoptada que The Guardian se tornou referência global no jornalismo. O facto de em 195 anos ter tido apenas 11 editores atesta a estabilidade do jornal e do grupo. Um dos editores mais marcantes é o visionário jornalista Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal por 20 anos, entre 1995 e o verão passado. É com ele que The Guardian se expande para marca global. Rusbridger teve a possibilidade de dedicar muitos milhões de libras de orçamento anual para colocar The Guardian como o terceiro sítio digital de notícias em língua inglesa mais procurados no mundo (os dois primeiros são The New York Times e o popular Daily Mail, de Londres).

Com Rusbridger, The Guardian recebeu em 2014, a meias com The Washington Post, o Pulitzer, o mais relevante prémio internacional de jornalismo, com as revelações de Edward Snowden. Antes, já tinha marcado a agenda informativa com os documentos Wikileaks sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão. Rusbridger apostou o máximo de recursos que conseguiu na edição digital. Investiu milhões para criar um gigante digital nas notícias.

Mas o disparo da relevância e influência do jornal é acompanhado por escalada dos prejuízos. As contas de 2015 fecharam com o grupo de imprensa The Guardian News and Media no muito vermelho défice de 45 milhões de libras (60 milhões de euros). O fundo da família Scott caiu, nos primeiros seis meses de 2015, de 838,3 milhões para 740 milhões. A quebra tinha-se tornado contínua nos últimos cinco anos. The Guardian tem 1960 trabalhadores, sendo que 750 pertencem à área editorial. Está em aplicação um plano de contenção de gastos e aumento de receitas. Já implicou a redução de 300 postos de trabalho, entre despedimentos e rescisões amigáveis. A australiana Katharine Viner substitui agora Alan Rusbridger na direcção do jornal.

O que é que correu mal num jornal tão bem apresentado e tão influente? Por um lado, a crise económica que trouxe drástica quebra da publicidade. Essa baixa também frustrou as expectativas publicitárias para a edição digital. Mas a questão mais discutida é a gratuitidade da edição digital. Rusbridger foi intransigente a defender que a edição do jornal é sempre totalmente aberta e gratuita. Questão que sobra: sendo o jornalismo de qualidade um produto que requer investimentos substanciais, quem paga? É possível fazer bom jornalismo e não cobrar ao utilizador? Este é o tema essencial.

O risco de perder muito da qualidade no jornalismo talvez nos leve aquela ameaça de que fala Dobelli. Nunca - é de confiar - será caso para dizer que as notícias fazem mal à saúde. Mas poderemos ter, já estamos a ter, inflação de notícias que são lixo. Portanto, não trazem bem.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

A interrogação do Papa numa entrevista ao La Croix: "Frente ao terrorismo islâmico devemos interrogar-nos sobre o modo como um modelo muito ocidental de democracia foi exportado para países onde havia um poder forte, como o Iraque".

O deserto no Egipto agora é também de turistas. As fotografias de Luca Campigotto, no La Repubblica, mostram-nos "os esplêndidos monumentos restituídos à sua pureza, mas também a desoladora falta dos visitantes que alimentavam a economia do país".

A crise do regime chavista na Venezuela está em escalada imparável. A opinião num jornal da oposição em Caracas. E o relato na CNN. Depois da Argentina e do Brasil, a Venezuela é a próxima viragem política na América Latina cansada de etiquetas esquerdistas..

O júri do Man Booker Prize International preferiu a sul-coreana Han Kang a Agualusa, Ferrante e Pamuk. A escolha de 2016 é "The vegetarian", a história "numa desconcertante miscelânea de beleza e horror" de uma mulher que se torna vegetariana.

Um desfile pelo festival de cinema em Cannes. Alguns dos filmes a ver nos próximos meses.

A BBC prepara-se para lançar uma plataforma rival da Netflix. É o futuro imediato.

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