“Suportar o insuportável” foi a expressão usada pelo Imperador Hirohito em 15 de Agosto de 1945, ao anunciar aos seus súbditos pela rádio a rendição do Japão. É a expressão mais dramática do que significa aceitar uma situação inaceitável. Muitos “suportares” do insuportável aconteceram na História, normalmente devido a derrotas nacionais. Os ingleses, depois de lutar na guerra de 1939-45, quando chegaram a sentir-se perdidos, passaram a acreditar no poder ilimitado da sua resiliência. Em entrevistas feitas actualmente nas ruas da Grã-Bretanha, tem sido habitual ouvir dizer “Aguentámos em 1939, podemos aguentar novamente”, ou por outras palavras com o mesmo espírito. Em 1940, perante a ameaça de invasão, escassez de bens e inferioridade militar, o Reino Unido mostrou o espírito de sacrifício e o empenho necessários para sobreviver e, finalmente, vencer o inimigo (com ajudas, mas isso não vem para o caso).

Estas pessoas entrevistadas na rua, patrióticas, orgulhosas, denodadas, certamente que aguentarão estoicamente o destino que as espera. A diferença de 39-45, que nós, cá fora, tão bem percebemos, é que desta vez não há nenhuma invasão nem ameaça hostil. A “perda de soberania” que invocam como um dos principais motivos para sair da UE (os outros são os custos financeiros e a concorrência dos trabalhadores estrangeiros) não é um facto real. O país conservou a sua soberania durante os 50 anos em que esteve integrado na Europa, em parte porque teve sempre um estatuto de excepção, em parte porque conservou as suas instituições intactas. Ou seja, a desgraça pela qual vão ter de passar agora não vem de fora, é auto-infligida. No entusiasmo do referendo de 2016, votaram com o coração e não com a cabeça, pois ambos os lados ignoraram completamente as projecções económicas, ou distorceram-nas em nome de princípios. Mas ao fim de dois anos a esmiuçar as impossibilidades práticas (fronteira das Irlandas) e medir os constrangimentos económicos, já não resta nenhuma dúvida de que o país vai passar uns anos muito difíceis. Os “leavers” [partidários da saída da UE] nem sequer afirmam que vai ser fácil, mas sim que o país tem capacidade de suportar o insuportável.

O sofrimento não será para todos, como de costume. Os manipuladores internacionais do dinheiro já estão a ganhar com as flutuações do câmbio. O sistema é relativamente simples: sempre que o valor da libra cai, o que tem acontecido continuamente nos últimos dois anos e continuará por mais algum tempo, compram bens no mercado internacional com libras. Portanto, sempre que a libra cai o valor do investimento em libras sobe. Quando, algures no tempo, a libra estiver no mínimo, terão um capital colossal. Quanto aos manipuladores ingleses, os “haves”, no calão do país, limitam-se a cambiar as suas libras por divisas estrangeiras. Quando os preços do capital tiverem caído na Grã-Bretanha, poderão recomprar as libras e investir no país a preços de saldo.

Entretanto, o sistema de democracia parlamentar que protegeria os interesses dos “have nots” – os que têm menos capacidade financeira, a maioria da população – perverteu-se dentro das suas regras. Só um exemplo: os últimos dois primeiros-ministros, Theresa May e Boris Johnson, não foram eleitos por voto popular. Com a decisão de Johnson pedir à Rainha para suspender o Parlamento, absolutamente legal, a probabilidade de pessoas que não foram eleitas fazer uma coisa que não foi referendada – a saída da UE sem qualquer acordo – torna-se uma inevitabilidade.

É só considerar as alternativas:

Uma oposição parlamentar constituída pelo Partido Trabalhista, os Democratas Liberais e alguns deputados conservadores fortemente anti-Brexit, reúne-se – fora do Parlamento, que está fechado, mas mantêm os poderes parlamentares,  consegue maioria para fazer votar uma moção de desconfiança. O Governo cai. A Rainha convoca novas eleições. O resultado dessas eleições será apresentado, por definição dos tempos de campanha, depois de 31 de Outubro, tarde de mais.

Neste caso – de serem marcadas novas eleições – a UE poderia adiar a data da saída. Poderia, mas nada indica que o faça. Os responsáveis pelos orgãos superiores da UE e os dirigentes dos países europeus têm sistematicamente dito que não há mais nada para negociar e que, caso o Reino Unido não apresente uma proposta viável até 31 de Outubro – coisa que Boris Johnson não faz quaisquer tenções de apresentar – o “no deal Brexit” [a saída sem acordo] é um facto.

A outra alternativa seria o Parlamento votar por um novo referendo durante a semana de funcionamento que vai do fim do fechamento agora aceite pela Rainha até 31 de Outubro. Mais uma vez, por definição dos tempos de campanha, o resultado só seria conhecido depois dessa data. Também nada indica que a UE queira esperar.

Existe uma terceira alternativa, a da Rainha retirar a proposta de saída da União Europeia – cancelar o Artigo 50. Nem o direito consuetudinário que rege as instituições inglesas, nem as atitudes de Isabel II nestas décadas de reinado, indicam que fará tal coisa. Aliás, se o fizesse, deflagraria uma crise política sem precedente – quer dizer, há um precedente, quando o Parlamento, em 1649, mandou executar Carlos I.

Cheque mate.

Quais são as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo? Como toda a gente sabe, inclusive os ingleses, o país passa a negociar com o Continente de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio; alfândega e taxas de importação para os bens, necessidade de visto para as pessoas. Embora dos dois lados do canal já estejam a ser feitos os preparativos para essa hipótese, que incluem milhares de novos funcionários aduaneiros e grandes áreas para os camiões de mercadorias esperarem as inspecções, guias, etc., é evidente que o movimento de pessoas e bens será lento e sujeito a atrasos imprevisíveis. Para os europeus, significa menos exportações para a ilha, e saída de muitos trabalhadores da ilha para a Europa; grave, mas absorvível. Para os ingleses, significa falta de bens essenciais, cadeias de fornecimento (“suply chains”) interrompidas, desemprego em certos sectores (automóveis, por ex.) e falta de mão de obra noutros (agricultura e saúde, por ex.). O petróleo, outro bem essencial, será menos abundante e mais caro, provocando falta de estoques e subida de preço dos combustíveis. As empresas que podem, mudam-se para a Europa continental ou para a Irlanda. Os investidores estrangeiros venderão as suas libras, e o Banco de Inglaterra terá de ir buscar dinheiro ao fundo dos cofres, ou emitir dívida pública a ser subscrita com juros altos.

Politicamente, é expectável que Escócia faça o mais depressa possível novo referendo, em que votará a saída do Reino Unido. A Irlanda do Norte, novamente embrenhada nos problemas entre católicos e protestantes, entrará em guerra civil de baixa intensidade, como antes do Acordo de Sexta-feira Santa, em 2016. Na Grã-Bretanha propriamente dita, antecipa-se um aumento de incidentes e ataques de teor xenófobo e racial. As faltas nos supermercados poderão provocar motins. Novas eleições colocarão Jeremy Corbyn no Governo. 

O que dizem Boris Johnson, o seu governo e os brexiteers quanto a este cenário? Que vai tudo correr bem, graças à perseverança, resiliência e energia criativa dos ingleses. Haverá alguns sacrifícios a fazer, mas breves, e depois de reconquistada a soberania, o país fará acordos comerciais bilaterais com os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e mais quem queira. Cenários possíveis, que levam anos a dar resultados visíveis.

O insuportável vai ser mesmo difícil de suportar.

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