1. Isto não é uma pausa na política, e é sobre cabelo. De resto, o que não será político em 2017, do cabelo a tudo o que precisamos para viver, incluindo onde, como? Ar, água, terra, fogo, até uma lareira: tudo político. Mal veio o frio, nem começou o Inverno e o sobro que queimei num par de semanas já esburacou um bocadinho mais o ozono. Há umas semanas a NASA disse que o buraco está um pouco menor (por causas naturais, não graças ao esforço humano) mas continua a ter mais do dobro dos Estados Unidos da América, em área. A primeira vez que acendi a lareira este ano — que foi também a primeira vez que acendi a lareira na serra onde moro — pensei como era incrível não morrer de frio exactamente da mesma maneira que no Cenozóico. Só que o homo erectus não tinha um buraco de 23 milhões de quilómetros quadrados por cima da cabeça. E, claro, se não tivesse acendido o fogo algures em África, há uns 75 mil anos, hoje não estávamos aqui. Pelo menos não com esta forma aparentemente mais erecta, perdendo tempo com o cabelo.

Para não falar de perder cabelo com o tempo, problema moderno, e muito pouco africano.

  1. Eu queria ter deixado crescer um “afro”, um “black”, um “black power”, uma daquelas coroas negras que nada bate, quando o DNA nos dá uma carapinha. Não é totalmente absurdo, bastaria uma gota: uma das minhas amigas, aparentemente branca de ascendentes aparentemente brancos tanto quanto a fotografia alcança, tem uma carapinha que já foi negra e agora é grisalha quase branca. Mas é verdade que uma gota baiana é logo um axê, todo um suplemento no DNA, e ela tem-na. Nada bate um “black power”, de frente ou perfil, a atravessar a superfície deste planeta insano, mais que de cabeça levantada, naturalmente coroada. E tanto é assim aos 15 como aos 50, a ficar branco.
  1. Acabo de fazer 50, e este foi o ano em que fiquei grisalha, algo de repente. Já tinha alguns cabelos brancos, daqueles que se podem cobrir com “henna”, ou algo menos agressivo do que tinta. Mas quando ficamos grisalhos de repente percebemos a diferença. De repente quer dizer: a cada manhã acordar mais grisalha, num mês ter mudado. Lembro-me da manhã em que pensei isso, a meio deste ano, estava em Jerusalém. Se não há nenhuma relação de causa e efeito, talvez estar lá tenha contribuído para o que pensei a seguir: não ia pintar o cabelo.

Desde então, cada vez mais grisalha, tenho concordado com essa manhã.

  1. Ontem fui cortar o cabelo e voltei a concordar. Paguei 15 euros, um bom preço para quem passou a usar o cabelo bastante curto, e a morar na serra porque era mais barato. Morar na serra sem carta é melhor se não formos à cidade para coisas como pintar o cabelo, gastando cinco vezes mais. Quase toda a vida usei o cabelo muito longo, e se assim continuasse até eu o poderia cortar. Cheguei a fazê-lo antes de sair de Lisboa, fui até comprar uma tesoura a uma daquelas lojas que sobrevivem nas traseiras do Rossio, mas o meu DNA não deu para uma grande cabeleira aos 50 (que as há, e mais velhas, e bonitas).
  1. Na semana da mudança, parei entre duas burocracias para almoçar num café. Estava cheio, o empregado sentou-me ao lado de uma senhora impecavelmente penteada, maquilhada e vestida. Achei que teria uns 70 anos, mas ia a caminho dos 90. Era viúva, tinha sido muito feliz, contou ela. Ainda parecia feliz, aliás alegre. Comemos juntas, ela achando que eu quase podia ser neta dela, eu pensando como cada vez menos será possível alguém ter idade para ser minha avó. Contei-lhe que ia fazer 50 e decidira não pintar o cabelo. Ela contou que também gostava de ter feito o mesmo, mas quando estava casada o marido não queria vê-la de cabelo branco, e agora o filho não a quer ver de cabelo branco, de modo que continua a pintar o cabelo. Também falámos sobre aquecimento doméstico, lareiras, caldeiras, etc. Não voltei a sentar-me naquele café, nunca mais a reencontrei. Esmeralda, seria?
  1. Tive uma avó em Lisboa e outra na serra (que não é esta serra). A de Lisboa tinha cabelo negro, asa de corvo. A da serra era grisalha, com fios ainda louros. Nunca me ocorreu até hoje que uma sempre pintou o cabelo e a outra nunca deve ter pensado nisso.
  1. A minha amiga mais velha, que não é a mais antiga mas a que nasceu bem antes de todas as outras, não pinta o cabelo de preto, como a minha avó de Lisboa, nem de castanho dourado como a dona-talvez-Esmeralda, muito menos de louro, como tanta gente, mas de vermelho aos 70 e tal. Não ruivo, vermelho mesmo, uma cor muito sua, que ela achou misturando “hennas”. Não a imagino de outra maneira porque se fez assim, e assim é, de certa forma como naquela ideia de Virginia Woolf: um quarto que seja seu.
  1. Que bom ver nos comboios, nos autocarros, nos transportes em volta de Lisboa tantas cores, tantos cabelos. Há sempre algum “black power” que rouba a cena, que roda as cabeças, pelo menos a minha. Mas também muita menina ou menino sem essa gota extra de axê com o cabelo azul ou verde. Também gente com idade para grisalha de cabelo laranja ou roxo, como aquela filipina a quem entreguei o meu velho aparelho de som para arranjar, porque também as redondezas da serra estão cheias de imigrantes de cada vez mais lugares.
  1. Algumas pessoas próximas preferiam que eu pintasse o cabelo, ia parecer mais nova, é uma fronteira, mesmo. A cabeça mudar de cor muda muita coisa. O cabelo é o cimo de tudo, o em volta da cara. De certa forma, vem uma pessoa nova a sair. Lagarta de duas borboletas, uma, depois outra. Outra vida.

É bom poder ficar de cabelo branco apesar da tendência para o contrário. Como será bom pintar porque gostamos, ou por gosto a alguém, e gosto não é obrigação. Político será o cabelo que seja seu.

Ser nosso não é necessariamente o original, o de onde veio, mas o para onde vai. Vai-se achando, como aquele vermelho da minha amiga aos 70 e tal. E mudando quando nos dá na telha, essa liberdade: mudar de ideia.

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