Nas eleições deste domingo na Polónia venceu, com maioria absoluta, um partido ultranacionalista, anti-europeu, anti-imigrantes. O presidente deste vencedor PiS, iniciais do partido que se define do Direito e da Justiça, alertou num comício na última semana de campanha para o perigo de epidemias que representaria a chegada maciça de refugiados. Chegou a dizer que a cólera está a propagar-se pelas ilhas gregas e que na Áustria se multiplicam casos de disenteria. Também que os refugiados são portadores de parasitas que podem ser perigosos.

A Polónia, com 38 milhões de habitantes, é uma fortaleza económica e motor do leste europeu. Os números da economia crescem imparáveis desde 1990. Enquanto a Europa mergulhou em 2009 em crise e recessão, a Polónia desse tempo apenas viu abrandar o seu crescimento económico. O PIB polaco cresceu mais de 40% entre 2004 e 2014. É um país em expansão económica, mas à custa de muito aperto e insatisfação: mão-de-obra muito barata e escassos direitos sociais. O terreno ficou assim fértil para o discurso do PiS, partido cuja identidade se define pelo “contra”: contra as ingerências externas, contra o federalismo europeu, contra a abertura liberal, contra o controlo da economia pelo capital estrangeiro.

A esquerda polaca apareceu nestas eleições com discurso pró-europeu e o resultado é não haver um só representante da esquerda no parlamento de Varsóvia. O politólogo Kasimierz Kik explica no Libération que “os polacos estão fartos da Europa“ e é também por isso que estão a recusar as quotas de refugiados impostas por Bruxelas. Ele especifica: “Para um polaco, um estrangeiro é antes de tudo o mais um ocupante, um invasor, seja russo ou seja alemão”. Traumas antigos.

O PiS prometeu na campanha novos impostos sobre a banca e as grandes cadeias de supermercados (quase tudo com origem no estrangeiro, designadamente em Portugal, neste caso com denúncias específicas), prometeu aumentar os apoios às famílias pobres com filhos, e também prometeu reinstalar a velha confiança no sistema de segurança social do Estado. Este discurso nacionalista e de conservadorismo social rendeu maioria absoluta. E enquadra o paradoxo polaco: um dos países da “Nova Europa” que mais beneficiaram em fundos financeiros com a adesão (em 2004) à União Europeia põe no poder um partido nacionalista e contra a Europa. A postura populista sobre os estrangeiros, inspirada na do húngaro Orbán, pretende fazer de Varsóvia uma nova Budapeste: muro e arame farpado da Europa cristã frente à “invasão muçulmana”.

É certo que no último domingo a liderança da União Europeia reagiu e impôs um plano de urgência – para acolhimento de 100 mil dos muitos mais refugiados em espera. O comando desta Europa que tanto se sobressalta com as questões económicas e financeiras e que não levantou a mão quando a Hungria se pôs a levantar um muro na fronteira com a Croácia para barrar o caminho aos refugiados, agora, finalmente, está impor medidas humanitárias, garante refúgio temporário, comida e assistência médica para proteger os homens, mulheres e crianças que, em desespero, fogem da guerra. Mas o consenso de agora é apenas sobre 100 mil. Muitos refugiados continuam barrados numa fronteira dos Balcãs, sem teto, a sentir o inverno entrar. O primeiro-ministro esloveno alertou neste domingo em Bruxelas para um cenário de apocalipse.

Voltamos ao agasalho para o inverno: sabemos como nos queixamos quando o frio, o vento e a chuva nos apanham desprevenidos na rua ainda com roupa de meia-estação. Como será para aquela gente em ambiente hostil, sem abrigos nem radiadores? Sei que há em Portugal quem reclame toda a prioridade para o apoio aos nacionais que precisam de ajuda. Sim, muita gente precisa de socorro. Mas, apesar de tudo, para quem está no seu país, sempre há redes de apoio, a começar pela família e a continuar em sistemas de solidariedade que traduzem o melhor de nós. Aliás, algumas dessas redes estão já mobilizadas para o apoio aos refugiados de guerra.

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