“Estar livre de perigo” significa o vírus desaparecer completamente, tornar-se quase inofensivo, ou facilmente neutralizado se aparecer pontualmente. Esse objectivo, segundo todos os especialistas, só será atingido quando chegarmos a uma situação chamada de “imunidade de grupo” – a uma certa percentagem de pessoas imunes, ou susceptíveis de ter sintomas suaves. Não há uma definição certa para essa percentagem, mas, considerando epidemias anteriores, anda pelos 70% da população.

Agora, o valor, num globo globalizado, aplica-se a toda a população do mundo, mais de sete mil milhões de pessoas. Como se tem visto pela rapidez com que as mutações do vírus viajam entre os cinco continentes, não basta que um país ou uma região cheguem os 70% de imunidade. Por exemplo, na China, onde o vírus começou e foi considerado controlado há meses, ainda hoje aparecem surtos esporádicos.

Para uma imunização que se veja, a solução são as vacinas. Remédios que curem, podem vir a aparecer, mas só servem para quem já está infectado. Então, nesta altura temos cinco vacinas: Moderna, AstraZeneca, Pfizer, Sputnik e Sinovac – dando como certo que as duas últimas, russa e a chinesa, ainda não certificadas mundialmente, sejam eficientes. E há mais de uma dúzia a caminho da validação, como a da norte-americana Johnson & Johnson e a indiana Covaxin. São muitas vacinas, mas também são muitas pessoas a vacinar...

A distribuição das vacinas está a mostrar-se um problema muito mais complicado do que o desenvolvimento e, depois, a produção. O desenvolvimento foi feito num tempo recorde, como sabemos, acelerando o cuidadoso processo tradicional que levava dez anos. A produção tem-se revelado insuficiente, pois trata-se de um processo complexo, com componentes escassas e com um tempo mínimo de cultura. Fazer fábricas, esterilizadas e de alta segurança, também não é possível dum dia para o outro. Mas o ponto fraco na cadeia está a ser a distribuição dum produto perecível e que exige temperaturas muito baixas. Para não falar da necessidade de duas doses.

Para complicar o processo há, evidentemente, as questões económicas e políticas. Como temos assistido nos noticiários, a sofreguidão – justificada – dos vários países, que competem entre si pelas preciosas doses, não tem sido um espectáculo de solidariedade. Nem se esperaria que fosse...

Várias entidades mantêm um registo diário, nacional e mundial, do número de infectados, mortos e recuperados. Parece que agora está a descer, em termos globais, mas já subiu e desceu várias vezes. Além disso, é percepção geral que em certos países a contabilidade está sub-avaliada, pois para a fazer como deve de ser são necessárias estruturas sanitárias abrangentes e fiáveis. Há países avançados, como os Estados Unidos, que não têm um serviço nacional de saúde e há outros, como o proverbial Burundi, digamos, em que a medicina é exercida pelo feiticeiro da aldeia... Em ambos os casos, e em muitos outros, não se pode contar com conhecimento exacto das situações em tempo real.

Agora, uma estatística que é certa, são o número de vacinas produzidas, distribuídas e aplicadas. Esta contagem é feita pela empresa de tecnologia e serviços financeiros Bloomberg, que inclui publicações impressas e digitais, além duma profusão de serviços relacionados com os mercados. Com delegações em mais de 170 países, pode dizer-se que é uma das empresas mais bem informada do mundo.

A Bloomberg mantém um “vacinne tracker” diário, que pode consultar aqui (acesso gratuito com inscrição) sempre que queira saber como vai a situação. Na quarta-feira, dia 10, já tinham sido inoculadas 152 milhões de pessoas. Nesse dia, foram administradas 5.642.714 doses.

Ora bem, considerando o número já aplicado e a cadência diária, a Bloomberg calcula que sejam precisos cinco anos e meio para a Humanidade chegar aos mágicos 75% de imunidade.

Por um lado, o número de inoculados diariamente tende a aumentar. Mas, por outro lado, a distribuição não é uniforme, o que leva a uma imunidade de grupo muito mais difícil, uma vez que as pessoas continuam a viajar – muito menos do que em 2019, com certeza, mas ainda em números impressionantes.

Israel, que é um país pequeno, com uma estrutura sanitária de primeira, (e tem dinheiro para furar todas as filas à porta das fábricas) vai neste momento à frente, com 65,68% da população vacinada. Será? Os 65% referem-se à população judaica. Para os árabes nos territórios sob o seu controle, foram entregues cinco mil vacinas.

Adiante...

Os Emirados Árabes Unidos, um país também pequeno, com estrutura sanitária e fundos ilimitados, já vacinou 43,58% dos seus cidadãos. Muito bom. Mas os milhares e milhares de trabalhadores nas suas obras faraónicas não são cidadãos.

Adiante, outra vez...

Segundo esta estatística, Portugal, um país pequeno, com um serviço de saúde no limite e sem capacidade financeira, já vacinou 4,04% da população. As nossas estatísticas confirmam: 436.220 no dia 11, quinta-feira.

Na estatística não estão os casos de vacinações indevidas, vacinas perdidas e a permanente discussão das prioridades, claro.

As nossas autoridades dizem que em setembro chegamos aos 70%. Os dados da Bloomberg prevêem quatro anos. Vamos apostar (e fazer um bruxedos) para que eles estejam enganados.

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