Lula vale 39% nas intenções de voto brasileiras, é o que fixa a última sondagem conhecida, a pesquisa Datafolha, em 22 de agosto, que corrobora os dados de outras neste último mês. Todas mostram que o voto em Lula cresceu (de 30 para 39%) nestes quatro meses que já tem de prisão, por condenação a 12 anos de cadeia. Este crescimento da intenção de voto em Lula aparece como um esticar da tensão no teatro político que está a ser este processo: a maioria desses milhões de pessoas que declaram querer votar em Lula sabe que a lei não vai deixar que o ex-presidente volte a ser candidato.

O Supremo Tribunal, ao barrar a candidatura de Lula, decidiu o que toda a gente sabia que ia decidir. É uma deliberação que inflama a discussão alimentada pela suspeita (que para os fidelíssimos aparece como convicção entranhada) sobre tudo passar por uma persistente tramoia político-judicial urdida para impedir o regresso de Lula à presidência do Brasil.

O veredicto judicial que bloqueia a candidatura Lula abre de facto o debate sobre um confronto com alta carga emocional: é o choque entre o estado de direito (a aplicação da lei da Ficha Limpa que impede a candidatura de pessoas condenadas em segunda instância judicial) e a democracia (o povo que quer escolher o seu líder). Em fundo a esta tensão estão os enredos em volta da condenação de Lula e da impressão de parcialidade no sistema judicial brasileiro. Muita gente vê em curso um golpe institucional já em marcha há precisamente um ano, quando Dilma foi tirada da presidência.

E agora? Qual será a estratégia de Lula e do PT? Será que julgam que as intenções de voto em Lula são transferíveis para outro candidato? Não se vê como. O nome que aparece como alternativa a Lula no campo PT é, ex-presidente da câmara de São Paulo. Haddad tem currículo: é formado em economia e em direito, é professor universitário e mostrou competência local em gestão pública. Mas não tem reconhecimento popular. Nada do carisma que Lula tem a rodos. Não se vê que a transferência de votos possa funcionar.

Há em setores intelectuais do PT quem lamente que não haja um entendimento com Ciro Gomes, candidato do centro-esquerda que, se recebesse o voto do PT, poderia impedir a eleição de um candidato das direitas. Essa hipótese de entendimento tornou-se entretanto impossível, por haver muito no PT quem impeça a aproximação a gente que não tem prática de esquerda.

A convivência política e social está, também no Brasil, em degradação acelerada. O assassinato, há cinco meses, da deputada municipal do Rio de Janeiro, Marielle Franco, é um caso que ilustra o maior disparo da violência, embora esta seja de sempre e quotidiana. A violência sobre líderes sociais está a crescer, sobretudo em meios rurais e no Brasil da favela.

É assim que o discurso de afirmação de autoridade ganha terreno. Muito eleitorado volta-se para quem promete mão de ferro para impor a segurança. É o caso de Jair Bolsonaro, ex-militar, amigo dos generais da ditadura, um ultraconservador que cultiva o estilo provocador, autoritário e antissistema, com língua solta, grosseira, sobre as minorias (LGBT no centro do alvo), as mulheres e as instituições democráticas. Tem apoios hiperativos nas redes sociais, sempre prontos a contra-atacar qualquer alusão desfavorável ao candidato com ares de valentaço – estão em cima de tudo o que é dito, não admirará se aparecerem nos comentários a esta análise a disparar contra a visão crítica sobre o candidato.

O sistema Bolsonaro, tendo o trunfo de estar limpo de suspeitas de corrupção, não é dado a ideias inteligentes de progresso, a palavras enriquecedoras e a debates sensatos. Mas, sem Lula na eleição, é ele, Bolsonaro, quem lidera a primeira volta, com à volta de 20% das intenções de voto. Apesar de rejeitado pela direita moderada e por larga porção do eleitorado feminino, a promessa de políticas rígidas sobre segurança pública pode puxá-lo para vir a ser eleito como o próximo presidente de um país que está farto de políticos que roubam e que, por isso, arrisca escolher o que alguns antecipam como uma espécie de versão brasileira de Trump.

Bolsonaro pode conseguir a eleição. Mas não é de excluir um sobressalto robusto do eleitorado que não aceita um presidente com este perfil. A evangélica e ambientalista Marina Silva é quem, com 16%, aparece a seguir a Bolsonaro nas intenções de voto. Mas não se vê que possa conseguir juntar os votos necessários para lhe garantir a eleição na segunda volta. Geraldo Alckmin, candidato da direita tradicional, aparece a seguir, a par do rival centrista, Ciro Gomes, com 5% das intenções. Há quem admita que Alckmin ainda pode crescer, beneficiando do voto útil da direita que rejeita Bolsonaro.

A chave desta eleição presidencial brasileira tende a estar no sistema de transferência de voto dos 39% que desejam a reeleição do homem político mais popular no Brasil recente: não podendo votar em Lula, votam em quem? O Nordeste, com grande peso na eleição, é fidelíssimo a Lula. Mas Lula é um nordestino e Haddad é visto como um tecnocrata de São Paulo, não como o político que se bate para tirar os pobres da pobreza. Não parece que, por maior que seja o apelo de Lula, a transferência de voto seja avassaladora a ponto de sustentar a eleição.

O que parece inquestionável é que Lula, apesar de inelegível, continua a ter forte influência no resultado desta eleição presidencial em outubro no Brasil. Apesar de na cadeia, em quatro meses na prisão, ele ganhou nove pontos nas sondagens. A partir da cela em Curitiba, apesar da diabolização nos media e pelo aparelho judiciário, Lula tem continuado a influenciar de modo determinante a opinião pública brasileira: quase meio país está com ele e a outra metade odeia-o e a quer vê-lo na cadeia pelo maior tempo possível. A estratégia de vitimização, nestes meses, foi eficaz. Vai continuar a funcionar?

Há que seguir esta incerta escolha dos brasileiros. Decide-se em outubro.

Já no próximo domingo votam os suecos. A Suécia é o país que com Olof Palme introduziu no mundo o welfare, ou seja, o conceito de bem-estar inclusivo e, também, o amplo acolhimento de estrangeiros – muitos portugueses, tantos africanos e sul-americanos. Na última década, largos setores da sociedade sueca sentiram que este modelo ultrapassou o limite, querem acabar com ele.

Os sociais-democratas do SPD, com longa hegemonia na política sueca, lideram o governo de Estocolmo, em coligação com os Verdes e com políticas pró-europeias. Mas têm alta probabilidade de derrota nas eleições do próximo domingo.

Está a acontecer em volta dos principais centros urbanos suecos o mesmo que, por exemplo, nas periferias francesas: terceiras gerações de migrantes não integrados, com tensões sociais que às vezes geram episódios com violência. A tensão agravou-se com grandes movimentos de chegada de gente em fuga das guerras do Médio Oriente, do Cáucaso e dos Balcãs. Só no ano de 2015 a Suécia absorveu 163 mil refugiados da guerra na Síria.

A perturbação do modelo de vida sueco levou ao crescimento de duas forças políticas, posicionadas nas extremas, e que somam, em conjunto, à volta de 30%: a extrema direita dos Democratas Suecos ronda os 20% e a extrema esquerda, através do partido V, aproxima-se dos 10%. Ao crescimento destas duas forças corresponde a descida dos partidos coligados no governo (SPD +Verdes), que coloca a Aliança (à direita), que junta partidos como o Democrata Cristão, o Liberal, o Centrista e o Moderado como maior bloco político, porém, longe da maioria absoluta. Perante esta alteração na correlação de forças já se especula sobre a extrema-direita vir a reivindicar participação no governo de Estocolmo, em coligação com a direita clássica, num modelo semelhante ao que está em vigor na Áustria. A social-democracia sueca está confontada com a ameaça de pior resultado eleitoral na sua história.

Este partido extremista que tem o nome de Democratas Suecos segue duríssimo euroceticismo, e fala de Swexit, ou seja: referendo para saída da Suécia da União Europeia. Para além de fechar a porta a migrantes.

As eleições do próximo domingo na Suécia estão a caminho de reforçar o bloco soberanista que nos últimos anos cresceu na Europa. A Suécia, reconhecida ao longo de décadas como exemplo de tolerância e laboratório de bom acolhimento multicultural e integração, ameaça tornar-se o contrário do que tem sido. A Europa, a nove meses de eleições que vão desenhar o próximo Parlamento e a próxima Comissão Europeia, tem muito para discutir e tratar sobre o nosso futuro.

A TER EM CONTA

As obras-primas de Picasso. É uma exposição que abre nesta terça-feira e que vai até 13 de janeiro. Mais deslumbramento para quem neste tempo puder ir a Paris e visitar o Museu Picasso.

O festival de Cinema em Veneza está na semana final deste ano. Segue-se no calendário, entre 6 e 16 deste mês, o cada vez mais influente TIFF, o festival de Toronto, com a novidade de a partir de agora ter uma prestigiada portuguesa, Joana Vicente, a dirigi-lo.

Dez escolhas musicais feitas neste setembro pela NPR, a rádio pública nos EUA.

Duas primeiras páginas que nos mostram a desolação no Museu Nacional no Rio de Janeiro: esta e esta. Também este relato da devastação.

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