A primeira pergunta que se impõe, em português corrente é, onde raio fica o Darfur?

Pois então, localiza-se na região Oeste do Sudão, um país no extremo oriental da África subsaariana, com uma costa que dá para o Mar Vermelho. Está ao Sul do Egipto e ainda tem fronteiras com a Líbia, o Chade, a República Centro Africana, o Sudão do Sul, a Etiópia e a Eritreia. Tudo países de primeira água, como se vê.

O Sudão, independente desde 1956, quando saiu da tutela da Grã-Bretanha e do Egipto, começou logo a vida com disputas internas – sendo que “disputa” quer dizer massacres de civis, milícias à solta, genocídio e outras misérias – entre os 41 milhões de habitantes espalhados por cerca de 1.900.000 quilómetro quadrados. Agricultura de subsistência e abundância de petróleo seriam boas razões de disputa; mas o que mais divide os sudaneses são as questões religiosas entre muçulmanos, cristãos ortodoxos, coptas, presbiterianos e animistas. Quer dizer, o Sudão, como muitos outros países, foi criado artificialmente pelas potências colonizadoras, sem preocupações étnicas ou religiosas com os “cafres”, originando nações naturalmente ingovernáveis.

Os muçulmanos, salafistas e wahabitas, predominantes no Norte e Oeste, dominaram o poder central logo de início, a partir da capital, Kartum, provocando revoltas constantes dos cristãos e animismas do Sul, que culminaram em 2011 com a independência do Sudão do Sul. Entre 1989 e 2019 o Sudão foi governado pela ditadura sanguinária de Omar al-Bashir, responsável pelo massacre de cerca de 400 mil pessoas. (Os números de mortos e vítimas em geral são sempre cálculos inverificáveis.)

Podia pensar-se que, dividido o Sudão em dois países com predominâncias religiosas opostas, a paz seria uma possibilidade. Mas não, na região Oeste do Sudão (do Norte), chamada Darfur, ficaram muitos não muçulmanos que começaram a ser sistematicamente perseguidos. Milícias apoiadas por Kartum, os famigerados janjaweed, fazem constantes incursões na região, torturando e assassinando populações inteiras. Calcula-se que o conflito já fez mais de 200 mil mortos e deslocou cerca de dois milhões, dos sete que habitam o Darfur. A partir de 2003, os habitantes organizaram-se militarmente para fazer frente aos janjaweed e os massacres indiscriminados transformaram-se numa “guerra de libertação”.

Entre as vítimas do conflito não estão só os locais; todas as organizações internacionais não governamentais que têm tentado ajudar a população também sofrem assassinatos e desaparecimentos.

Em 2006, sob tutela internacional, o governo do Sudão e o Movimento de Libertação de Minni Minnawi, o mais importante resistente, assinaram o chamado Acordo de Doha, com vista a um cessar-fogo. Mas outros movimentos da região recusaram-se a participar, e a guerra continuou. Em 2007 as Nações Unidas, em conjunto com a União Africana, enviaram uma “força de paz” que, como é habitual nestas situações, não podendo atacar nenhuma das partes, se limita a criar barreiras efémeras entre os litigantes e não consegue impedir as escaramuças e matanças constantes.

O Acordo de Doha tem sido aceite e rejeitado por outras forças que lutam na região, como o Movimento de Libertação e Justiça (que agrupa dez facções) e o governo central do Sudão, mas nunca parece haver coincidência de opiniões; quando uns dizem que sim (o que não quer dizer “sim”) os outros dizem que não (o que também não quer dizer “não”).

Por fim, mas não finalmente, um novo acordo acaba de ser assinado, a 31 de Agosto deste ano, entre Kartum e as várias forças rebeldes. Em Julho, a revista “Vice” esteve na região – a primeira vez em muitos anos que um orgão de comunicação social ocidental conseguiu fazer uma reportagem completa sobre o conflito. Os pormenores são arrepiantes. Mas o mais desanimador talvez seja a ideia implícita nas conversas com os protagonistas de que nada se resolverá. É verdade que a atitude de Kartum mudou muito desde que Omar al-Bashir foi deposto pelos seus correligionários. Estes, pressionados por vários países e organizações internacionais e regionais, criaram um simulacro de democracia representativa e mostraram-se mais dispostos a negociar com o Darfur. No entanto a situação no terreno pouco ou nada mudou, até porque os milhões de desalojados não têm condições de voltar às suas aldeias, a desconfiança permanece em relação a Kartum, e os ataques e crimes não pararam.

Excepto em algumas ocasiões, como quando o então Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, fez um pungente discurso, em 2016, ou quando o actor George Clooney visitou o país e lançou o alarme para a situação, em 2019, a guerra no Darfur não chega ao noticiário internacional.

Actualmente, o país com mais influência no Sudão é a China. 10% do petróleo importado pelos chineses vem do Sudão, pago com armamento.

Os chineses, como se sabe, não têm problemas com direitos humanos ou conflitos locais, desde que os seus interesses estejam protegidos. Os norte-americanos já não têm força para vender “democracia” à África sub-sahariana. Os jogos de poder internacionais mudam, mas a guerra do Darfur está para ficar.

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