Não vamos discutir aqui se o Governo chinês, ou seja, o Partido Comunista xijipinguista, tem muita ou pouca responsabilidade na pandemia do Covid-19. As hipóteses são várias – foi de propósito, por descuido, ou por negação inicial –, mas o facto incontestável é que o mundo inteiro, com razão ou sem ela, considera a China responsável por esta aflição à escala planetária.

Os ataques ao Governo chinês não se devem a preocupações humanitárias, bem entendido; as motivações são políticas, uma vez que a peste surgiu num contesto de disputa entre os chineses e os norte-americanos, e num cenário mais geral de expansão do Império do Meio, que há anos investe pesadamente na sua afirmação entre as nações. No meio, ainda há questões menos abrangentes, mas ásperas para todas as partes, como Hong Kong, Taiwan, o tratamento dos uigures e os investimentos internacionais estratégicos.

Embora os planos expansionistas chineses não sejam segredo nenhum – a Nova Rota da Seda, o domínio da tecnologia 5G e as compras de empresas estratégicas em toda a parte – Pequim tentava sempre dar a impressão de cordialidade pacífica. Ao mesmo tempo que afirmava que seu o modelo de comunismo capitalista é o melhor do mundo, Xi também insistia que todo os países vão beneficiar com o aumento de transações globais e que a China não tem pretensões de domínio no sentido tradicional – militar, com ocupação pela força.

Claro que só acreditava neste bom rapaz quem quisesse acreditar, pois via-se bem como tratava as minorias religiosas, os teimosos de Hong Kong, protegidos por um estatuto negociado com os ingleses em 1997, e os rebeldes de Taiwan, que a China conseguiu expulsar do palco internacional. No entanto, a diplomacia chinesa usava o que se pode chamar de “soft power”. Quando o país era acusado de alguma aleivosia, a resposta era do inocente ofendido, “olhe que não, estamos a respeitar os compromissos assumidos”.

Não mais. A crise desencadeada pela pandemia coincide com uma notável mudança de atitude dos chineses. Segundo a comunicação social, controlada pelo partido, a nova atitude proveniente das instruções do Ministério dos Negócios Estrangeiros aos seus diplomatas é a do “Lobo Guerreiro”. Quem é esta figura? Nada mais nada menos do que um Rambo chinês, ex-soldado mercenário que combate os norte-americanos, estrela de três filmes imensamente populares na China.

A narrativa principal, em termos das críticas quanto à pandemia, é que “nós não somos o inimigo, o inimigo é o vírus; todos os países têm de se unir e não ficarem a atirar culpas uns aos outros”. Mas este argumento de vitimização – atacam-nos injustamente – é complementado com os embaixadores-lobos guerreiros a dar conferências de imprensa e a fazer afirmações nos foros internacionais extremamente agressivas.

O campeão desta atitude é o embaixador em Paris, Lu Shaye. Numa entrevista ao jornal “L’Opinion”, Lu faz afirmações muito pouco diplomáticas, como, por exemplo, que a imprensa francesa não faz mais do que repetir acusações infundadas dos norte-americanos: “Uivam com os lobos para provocar agitação com mentiras e rumores sobre a China.”

Lu já se tinha destacado quando era embaixador no Canadá e acusou Ottawa de “umbiguismo ocidental e defesa da supremacia branca” a quando da prisão da filha do dono da Huawei por suspeitas de pirataria industrial.

Em 2019, Xi decidiu controlar pessoalmente a diplomacia e nomeou para Secretário dos Negócios Estrangeiros do Partido Comunista um especialista em formação ideológica, Qi Yu, que não tinha experiência diplomática anterior, mas era o director do “departamento de pessoal” do partido. Num artigo publicado em Dezembro do ano passado, Qi escreveu que “os nossos diplomatas devem contra-atacar com firmeza, nas arenas internacionais, os ataques ao partido e ao nosso sistema socialista”.

Os diplomatas chineses mudaram de tom. O embaixador no Nepal apresentou queixa porque um jornal, o “Kathmandu Post”, publicou um artigo a responsabilizar a China pela fraca resposta inicial à pandemia.

Na Austrália, o embaixador ameaçou que haveria “repercussões económicas” se o Governo de Canberra insistisse num inquérito internacional sobre a origem do novo coronavírus.

Na Venezuela, a embaixada reagiu violentamente quando um membro da Assembleia Nacional chamou “coronavírus chinês” ao Covid-19: “Esses legisladores é que estão infectados com o vírus da política. O melhor é usarem máscaras e ficar calados.”

E não é só com palavras que se contra-ataca. Uma tournée na Orquestra Filarmónica de Praga pela China foi cancelada porque o presidente da câmara criticou a atitude de Pequim em relação a Taiwan. A embaixada publicou uma nota no Facebook a dizer que “Praga deve mudar a sua abordagem o mais depressa possível... se não os seus interesses serão prejudicados.” Uma ameaça, portanto.

Os diplomatas em geral, e os orientais em particular, sempre usaram uma linguagem institucionalizada em que tudo o que é desagradável fica sub-entendido. Este paradigma, como tantos outros a que nos habituamos, está a mudar.

No outro dia, na BBC, um especialista em política internacional disse que não acha que ao período de hegemonia norte-americana (que se considera ter começado em 1945 e está em nítida decadência) se suceda outro de hegemonia chinesa. Segundo a sua opinião, será um mundo com várias potências conflitantes, mas nenhuma dominante. Não podemos estar mais em desacordo com ele – e talvez por isso não fixamos o nome... Os períodos históricos caracterizam-se pela potência dominante da época. Os seus diplomatas são sempre assertivos, porque sabem que podem ser, têm os canhões por trás – mas a agressividade verbal chinesa tem um tom diferente. Os norte-americanos, quando acossados, largavam os marines no teatro de guerra. Os chineses têm outras armas, económicas. Mas um Lobo Guerreiro, mesmo de casaco e gravata, é sempre um lobo.

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