É tão bom que a literatura seja internacionalizável e que uma jovem escritora tenha mostrado interesse no trabalho de outra jovem? Nada disso. Em pleno século XXI, o que importa é a cor da pele da tradutora. Não pode ser. Uma vez que a poetisa é negra, precisamos de uma tradutora negra.

A poetisa Amanda Gorman iria ter o poema que declamou, na tomada de posse de Joe Biden, traduzido para holandês pela escritora Marieke Lucas Rijneveld (no ano passado foi vencedora do International Booker Prize, com a obra The Discomfort of Evening). Depois de um artigo de jornal, a escritora holandesa desistiu, escreveu um tweet a dizer que abandonava o projecto. Pergunta: Qual será a tradutora para holandês negra que irá fazer a tradução? Daqui a dez anos, quem sabe? Ainda vamos concluir que ninguém traduziu o poema. É o mais certo.

O mesmo princípio tem dado azo a burburinhos vários e polémicas mais ou menos acesas. Alguns actores vieram dizer que a série inglesa It’s a Sin, sobre a comunidade gay em Inglaterra nos anos 80, quando se começa a falar de Sida e HIV positivo, deveria ter “apenas” actores e actrizes gay. Pergunta: porquê? Porque queremos a malta num gueto, cada um no seu poleiro, com a sua etnia e sexualidade, é isso? Estranho mundo em que vivemos porque me parece que, claramente, vivemos um retrocesso civilizacional, com falta de bom senso, e com muito julgamento e moralismo para o qual não há a mínima pachorra.

Numa entrevista recente, o actor Rupert Everett diz que não lhe passa pela cabeça que só actores gay possam fazer papéis gay, e dá como exemplo o filme sobre Liberace, Behind the Candelabra: My life with Liberace, com Michael Douglas e Matt Damon, ambos heterossexuais. “Como homem gay comoveu-me a representação de ambos. Porque representar é representar, e é igualmente maravilhoso para pessoas gay interpretarem papéis heterossexuais”.

A razão pela qual estas questões se tornam polémicas é, evidentemente, por existirem fervorosos adeptos da teoria A e fervorosos adeptos da teoria B (sim, também existem os outros, aqueles que encolhem os ombros e pensam: que se lixem). E, neste caso da tradução do poema de Amanda Gorman, parece que a opinião de uma jornalista, Janice Deul, — a moça que levantou a questão alegando a existência de muita consternação nas redes sociais (ai que medo!) —, tem mais peso do que o bom senso. E parece-me também a escritora holandesa não esteve para se chatear. É pena.

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