1. Calor em Inglaterra

Ontem, tive um daqueles telefonemas para aliviar a distância em que os meus filhos falaram um pouco com as primas inglesas. O curioso foi isto: por cá, estávamos vestidos como normal; lá por Inglaterra, as meninas andavam de fralda, num calor tremendo, como se fôssemos nós a viver num país fresco e elas as habitantes dum país quente.

Ah, agora podia aproveitar e escrever um texto todo à volta disto: o clima está todo trocado. Isto já não é o que era... Ah, os bons tempos em que chovia em Inglaterra e fazia sol em Portugal...

Ora, agora tenho de dar uma má notícia aos meus leitores. Se formos ver as tabelas de precipitação de Lisboa e de Londres, temos uma grande surpresa. Então não é que... chove mais em Lisboa do que em Londres?

É verdade: a precipitação em Londres fica-se por uns 602 mm por ano, enquanto Lisboa leva com 774 mm de precipitação anual.

O horror! O mundo está ao contrário! Só que não: parece que isto já é assim há muito tempo.

Que nos sirva de exemplo: as nossas impressões, por mais fortes que sejam — e mesmo que partilhadas por toda a gente à nossa volta — são muito enganadoras. Isto não se aplica só no caso do clima. E, no entanto, conseguimos chegar a certezas absolutas com pouco mais que nada. Quantos de nós não fomos já a uma cidade e saímos de lá com má impressão dos habitantes por causa de um só caso de mau atendimento num café? Ou quantos de nós não temos ideias fortes sobre países inteiros com base num diz-que-disse vago e atrevido? Ou ainda quantos de nós não temos certezas sobre o clima só porque dão jeito para as histórias que gostamos de contar sobre o mundo?

2. O clima, Hillary e Trump

Voltemos então ao clima: já começa a ser hábito ver gente a criticar, escarninhar, a ideia de que o clima está a aquecer só porque, de vez em quando, neva, chove ou faz frio. Ora, o aquecimento global não significa que faz sempre calor. Significa antes que as temperaturas médias, medidas ao longo de décadas, estão a aumentar. As temperaturas médias, repito. Ao longo de décadas! Podemos até passar por vários anos de arrefecimento sem que a tendência geral desapareça.

Outro erro comum é aquele em que caem muitos defensores leigos da existência do aquecimento global quando tentam prová-lo apontando para os malditos incêndios ou para os dias quentes. Faz tanto sentido como tentar negar o aquecimento global apontando para a neve.

Um livro onde a questão do aquecimento global é bem explicada, respondendo sem gritaria às dúvidas legítimas que muitos têm, é The Signal and the Noise. O livro é muito mais do que isso: fala de eleições, de póquer, dos enganos habituais da nossa mente — é um bom contributo para aprendermos a pensar um pouco melhor.

O autor é Nate Silver, que ficou conhecido por prever com sucesso os resultados eleitorais nos vários estados dos EUA nas duas eleições em que Obama foi eleito. No caso de Trump, já não conseguiu repetir o feito, mas foi dos poucos que apresentou uma probabilidade de vitória do actual presidente muito superior ao que se dizia.

Poucos dias antes das eleições de 2016, Silver mostrava, com base em meta-análises das sondagens, como Hillary era a favorita, mas tudo estava dependente dos resultados de dois ou três estados — como o autor mostrava, estava longe de ser impossível ter uma vitória de Hillary em número de votos e uma vitória de Trump no Colégio Eleitoral... A probabilidade de vitória de Trump era, segundo ele, próxima dos 30% — o número parece baixo para quem sabe o que aconteceu depois, mas era muito alto em comparação com as probabilidades atribuídas à vitória de Trump por muitos outros analistas.

3. Ai, os números!

Enfim, tudo isto para dizer que, no clima, nas eleições e em muitas outras questões, os números são importantes e mais fiáveis (se os lermos com atenção) do que as nossas impressões.

Há quem desconfie: afinal, os números enganam! E é verdade: os números enganam muito — só que ignorá-los engana muito mais. Querer confiar nas nossas impressões ignorando os dados ao nosso dispor só porque estes, por vezes, nos enganam é o mesmo de não querer saber o sexo de uma criança através da ecografia só porque há casos em que as ecografias falham — e depois confiar numa qualquer intuição baseada no aspecto da mãe (diga-se, a bem da verdade, que as intuições acertam metade das vezes...).

Há muitos fenómenos importantes que só conseguimos compreender olhando para os aborrecidos números — aliás, quem se der ao trabalho verá que, por vezes, não são nada aborrecidos. Que o clima está a aquecer sabemo-lo não porque chova ou faça sol neste ou naquele dia, mas porque é isso que vemos nos registos das últimas décadas.

Bem, esta crónica fala de números, mas foi também uma desculpa para sugerir um livro e sonhar um pouco com Inglaterra. Não é tanto por causa do belo clima que eles têm por lá. É mais porque gostava de ver as minhas sobrinhas fora das conversas de ecrã. O que vale é que o Verão está aí e com ele os bons reencontros — faça chuva ou faça sol.

Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro A Baleia Que Engoliu Um Espanhol. Escreve no blogue Certas Palavras.

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