Na verdade, nos últimos dias, a revolução em curso tem sido pouco tranquila, e nada romântica, especialmente para quem trabalha para a UBER e a Cabify. Mas não há a forma de a deter, e não há volta a dar-lhe.

Voltemos à história: era uma vez um país onde uns poucos milhares de motoristas dominavam sozinhos, em regime de oligarquia, o universo e o negócio dos táxis. Como as cidades têm limites ao número de carros e de motoristas em actividade, não é difícil imaginar em que resultou tal limitação: corrupção, compra e venda de licenças, carros envelhecidos, lei da selva onde só se governa quem tem dinheiro para comprar tudo o que se pode comprar. Até mesmo uma inspecção automóvel.

Contava a Sílvia Caneco, na revista Visão, há um ano, que uma licença para conduzir um táxi, que em concurso público custa 500 euros, podia ser comprada no “mercado paralelo” por qualquer coisa como 120 mil euros… Na mesma reportagem, também se revelava a incrível multiplicação de motoristas a dormir na mesma casa: 166 licenças tinham todas a mesma morada!

É o custo da aplicação de contingentes num negócio gerido por muita gente pouco formada e pouca gente muito formada - se a Câmara Municipal de Lisboa, que gere os concursos para atribuição de licenças, demora anos e anos para abrir a torneira a mais 50 motoristas, o valor de cada licença, no “paralelo”, inflaciona até onde pode. Num país em crise de empregos, pode muito…

Já o Sr. Florêncio, presidente da ANTRAL, subiu a pulso, e bem: quando se tornou dirigente da Associação, era proprietário de um táxi. Hoje, tem 18 veículos e ligações a 14 empresas directa e indirectamente ligadas ao sector. Como ele, há mais meia-dúzia de poderosos no mundo dos táxis em Lisboa. E estando todos postos em sossego nos seus lugares aparentemente eternos, não deram pelo avanço da tecnologia e pela chegada do futuro.

De um dia para o outro, viram-se cercados por plataformas digitais que, pelo mesmo preço (ou menos), oferecem motoristas educados, em vez de mal encaradas figuras, em carros impecavelmente limpos, com nome e identificação, factura automática e serviço rápido. O segredo está na tecnologia, sim senhor, mas acima de tudo está na oferta de um serviço eficaz e de qualidade.

E tudo teria acabado em bem, se as histórias tivessem um final feliz: chegou a democracia ao mundo dos transportes urbanos. Sem pressa, sem atropelos, com falta de alguma legislação (todos de acordo, a começar nas plataformas digitais), como em qualquer revolução, mas com vontade de fazer conviver todas as formas de negócio ao serviço da mobilidade urbana.

Mas não. Aflitos, os senhores dos táxis querem agora fazer a contra-revolução, como no 25 de Abril também alguns tentaram recuperar o poder entretanto perdido… Difícil, senhores: não se pode tirar o sabor doce, e a gosto, que se deu a quem antes só tinha direito a comer e calar. Nos debates, os senhores dos táxis dizem de tudo: que as plataformas roubam, que são mais caras, que os “maiores ladrões” do aeroporto trabalham para a Uber, que o trabalho é precário (prefiro passar um recibo verde a ter de pagar 120 mil euros para poder conduzir um táxi, posso?), diabolizam as plataformas como se fossem a nova droga da cidade. Só não conseguem responder a esta pergunta simples: por que raio tanta gente largou o táxi a passou para a plataforma digital?

Talvez tudo comece aí. Como na tal revolução: vivíamos em paz, e sem sobressaltos, mas no dia em que os soldados vieram para a rua, em 1974, fomos todos atrás deles. Éramos loucos? Ou percebemos o que era melhor para nós?

De volta aos Estados Unidos em três frentes…

Sou há muito admirador do jornalista e cronista P.J. O’Rourke - o seu humor, ironia, sarcasmo, fazem da sua prosa um retrato ácido, mas sempre assertivo sobre todos os assuntos onde pousa o olhar. É irresistível esta entrevista a respeito do seu mais recente livro, “Don’t Vote, It Just encoraje the bastards!”… E o título diz muito sobre o conteúdo do livro…

Muito boa a edição especial da revista Sábado dedicada exclusivamente à eleição presidencial americana. Além de exclusivos como os artigos de Paulo Portas e Luís Amado, reúne dados, análises, infografias e reportagens que sumariam, em 120 páginas, o essencial que podemos querer saber para entender o processo. À antiga, em papel, mas também em digital…

Além de tudo o que separa os dois candidatos à Presidência dos EUA, temos algo que é novo e incomum: um confronto de sexos como nunca antes houve. A matéria cuja leitura sugiro pensa o último debate da madrugada de segunda-feira à luz desta nova realidade…

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