Rajoy tem mostrado dominar as técnicas de sobrevivência política mas, desta vez, o fim de ciclo político em Espanha parece iminente: a demolidora sentença no caso Gurtel, processo sobre uma década de vasta corrupção envolvendo figuras principais do PP espanhol, passa pesada fatura política. O PP, como várias forças políticas em Espanha, já estava mergulhado em escândalos, que anunciavam decadência. A sentença do caso Gurtel, com as tramas dadas como provadas, retira toda a credibilidade para este PP continuar a governar.

Num país onde a prática democrática fosse seguida com escrúpulo, o governo Rajoy teria caído na quinta-feira, logo após o anúncio da sentença. Mas Rajoy dispunha-se a continuar na presidência do governo, apesar de todos os principais partidos de oposição logo terem reclamado a demissão do governo.

Um principal interessado em todo este processo é Albert Rivera, líder do Ciudadanos, o novo partido que em cinco anos se tornou a sombra e a alternativa ao velho PP. Rivera, porém, não esticou muito a corda, provavelmente preferia que Rajoy ficasse ainda mais atolado no lodaçal da corrupção para, depois, jogar a sua cartada.

Houve, porém, uma surpresa: Pedro Sanchez, líder do PSOE, espreitou uma oportunidade para sair da irrelevância que lhe é atribuída e avançou, sem consultas prévias, com uma moção de censura ao governo de Rajoy. Em Espanha funciona o modelo de moção de censura construtiva, que obriga quem ativa a censura a apresentar uma alternativa para a chefia do governo. Neste caso, é Sanchez. Significa que, se a moção de censura for aprovada, Pedro Sanchez torna-se imediatamente presidente do governo de Espanha, embora por tempo breve, até eleições.

Pergunta essencial: a moção de censura tende a ser aprovada? É preciso esperar para saber. Vai depender de muita negociação. Difícil para Sanchez, mas não impossível. Desde as últimas eleições gerais, em junho de há dois anos, Rajoy governa em minoria (137 dos 176 lugares necessários para a maioria), beneficiando do suporte do Ciudadanos (32 deputados) e de alguns partidos regionais, como os bascos do PNV (5 lugares), que acabam de proporcionar a aprovação do orçamento de Estado. Perante o estrondo da sentença no processo Gurtel sobre corrupção, parece improvável que o PNV continue a suportar Rajoy. Resta saber se Sanchez consegue juntar maioria para se impor. Os partidos catalães têm peso decisivo – mas os independentistas, embora em guerra política contra Rajoy, também não confiam em Sanchez.

Tudo pode ainda acontecer. A sentença do caso Gurtel acelerou a mudança de cenário político em Espanha. O ciclo de Rajoy parece esgotado. Rivera tem sido apontado como o político que se segue, como alternativa liberal em Espanha. A dúvida, agora, é se a jogada de antecipação de Sanchez poderá dar-lhe a oportunidade que parecia fora de causa. Os próximos dias serão de negociações intensas.

Tudo isto, ao mesmo tempo que a Itália, 84 dias depois das eleições, aprofunda a crise política que agora é crise institucional com choque frontal entre os dois partidos que se juntaram para formar maioria – o populista 5 Estrelas e o nacionalista Liga – e o presidente da República que, europeísta convicto, recusou a indicação do eurocético Paolo Savona para ministro da Economia. O choque levou à queda também do indigitado primeiro-ministro, Giuseppe Conte.

A maioria parlamentar italiana (5 Estrelas + Liga) já está a abrir guerra ao presidente da República, e explora o argumento de intromissão do presidente na escolha dos italianos. A favor dos partidos coligados, está o programa de governo onde não há qualquer referência à saída de Itália do Euro, o que questiona o veto presidencial a um indigitado ministro. O líder da Liga, Matteo Salvini, já está a atacar o presidente e a questionar o grau democrático da chefia do Estado italiano. Chega a disparar: “Somos um país de soberania limitada? Somos uma colónia da Alemanha?”. Salvini já fala em processo ao presidente, por abuso de poderes, e também já sugere novas eleições, com a convicção de que este caso vai reforçar a aliança que estava formada para governar.

Há que contar com semanas de alta turbulência política, em Itália como em Espanha. Os ricochetes podem ser perigosos.

TAMBÉM VALE VER:

O acesso aos alimentos como arma política na Venezuela, numa reportagem The New York Times.

A vida (e a morte) dos que servem nos iates de luxo baseados na marina do Mónaco, numa reportagem no The Guardian.

Os banqueiros da UBS também fazem previsões sobre o Mundial de futebol: põem no pódio a Alemanha, o Brasil e a Espanha. Portugal no oitavo lugar.

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