Dia dos Reis. O meu avô gostava de juntar a família neste dia. O meu avô já cá não está e há muitos que decerto não o recordam como eu, terão outra versão dele e de si próprios.

Cá em casa é também no Dia dos Reis que se faz a simpatia dos ditos cujos. Três bagos de romã e uma nota de cinco euros (ou outra, mas não sejam gananciosos, os Reis não se importam muito com o valor). Estende-se a nota numa mesa, coloca-se uma baga de romã e diz-se: Gaspar, Melchior e Baltazar, tomai uma semente para ter e para dar. E enrola-se a semente na nota (deita um pouco de sumo, não tem mal algum). Faz-se isto três vezes. A nota fica um pequeno quadradinho, com as três sementes, e vai directamente para a carteira que anda connosco. Durante o ano, o dinheiro não nos faltará, para ter e para dar. Não ficaremos ricos, atenção, isto não é uma daquelas promessas absurdas que circulam na internet, garantindo que vamos ficar magros, sem rugas, com abominais tipo Cristiano Ronaldo e pernas de bailarina, nada disso. A simpatia dos Reis é apenas para garantir que pagamos as contas; não vamos comprar helicópteros, iates, mansões ou tiaras de diamantes. O que me parece mais relevante neste gesto simbólico é a parte que abarca o verbo “dar”.

Sempre entendi que o dinheiro tem uma dimensão elástica e precisa de me servir e de servir quem precisa. Não faz de mim uma pessoa mais generosa do que outras, faz de mim alguém que percebe a importância do Outro na respectiva existência. Também não faz de mim boazinha, atenção, eu até tenho um hashtag instituído nas redes sociais que reza assim: #fartadeserboazinha. Nada de bondades excessivas, é apenas a convicção de que a partilha faz sentido, de que somos melhores e mais felizes se as nossas pessoas estiverem bem. Se for possível ajudar, pois seja. Portanto, diria que o hashtag certo será #ajudaquemprecisa. Não é caso para torcer o nariz. É evidente que a vida e a experiência nos ensinam a filtrar.

Instituí este ritual da simpatia dos Reis na nossa vida sem grande filosofia adjacente. Dá-me consolo e, não é de somenos, contribui para celebrar o Dia dos Reis e para recordar o meu avô. Para começar o ano, não está mal.

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