Vou falar de futebol, não de bola. Cresci distante do jogo, a ignorá-lo tanto com os olhos do espectador, como com os ouvidos do ouvinte, como com os pés do praticante. Não ligava grande coisa e jogava ainda menos. A paixão nasceu tardia, já durante uma escanzelada adolescência, pelo que não me sinto aqui com a legitimidade familiar de chamar “bola” ao futebol. Quem vos escreve é um perfilhado.

Entre os jornais e noticiários que ontem me passaram à frente, foi impossível deixar de notar duas notícias futebolísticas. Eram tão distantes, quer no tempo quer na importância — uma sobre uma ferida aberta no passado, outra sobre uma terra-à-vista no futuro — que nem parece haver um ponto comum que as conserve lado a lado nos cadernos desportivos. No fundo, nem uma nem outra tinham que ver com futebol, o que me faz pensar que a justa importância desta modalidade (a tal à qual se dá importância desmedida) é conseguir conter coisas com as quais nem ela mesmo tem que ver.

Em primeiro lugar (embora ele seja eterno n.º 10), uma notícia sobre o Rui Costa. O Rui é um dos pedregulhos na minha engrenagem, porque apesar de eu assumir um passado desligado do futebol, a verdade é que jogadores como o Rui nunca me permitiram um desligamento total. Ele era demasiado bonito a jogar. Cabeça levantada, bola colada aos pés – era demasiado bonito a jogar; demasiado elegante, mesmo num desporto cheio de grunhos felpudos que se referiam a si próprios na 3.ª pessoa do singular quando entrevistados. O Rui transformava em arte os aspectos técnicos do jogo, e eu já suspeitava disto num tempo em que, por desligamento, não fazia a mínima ideia do que seriam os aspectos técnicos do jogo.

À beleza do futebol de Costa juntava-se a subtileza, essa característica que nos grava na retina o que a retina mal registou. Muitas vezes já a bola estava no outro lado do campo quando conseguíamos processar a graciosidade do que acabáramos de assistir. Em jogadores contemporâneos, como Figo ou Zidane (só para recordar dois dos mais belos de sempre), cada finta, cada passe, cada livre, eram denunciados pelo tecnicismo óbvio; eles tomavam conta da bola e, com ela, do adversário. Em Costa era como se a beleza tomasse conta do executante, e não fosse um homem a brilhar no jogo, mas fosse a oportunidade para o jogo brilhar. A classe era superior ao génio, e não há nada mais genial que isso.

Para além da graciosidade no futebol do Rui Costa, também lhe serão inesquecíveis as lágrimas. Há dois momentos de choro que guardo dele: um primeiro quando se estreou a marcar contra o Benfica. O Rui, na altura ao serviço da Fiorentina, fez um golo ao clube do coração e logo se viu tomado de pranto inconsolável. Eu, que ouvia o relato desse jogo amigável pela rádio, escutei locutores comovidos com voz embargada, os mesmos que noutras alturas conseguem berrar “golo” até ao cúmulo do sufoco. A comoção que nos atingiu não enxaguou a lição: naquela noite aprendemos qualquer coisa sobre o dever e a devoção, o afecto e o afinco, o equilíbrio entre ambos. Havia ali uma honradez quase de bushido, e o mais belo de todos os jogadores trazia nas lágrimas a prova de que era também o mais humano. É inútil, o futebol, mas às vezes é o mais humano. É inútil, mas às vezes não.

O outro momento histórico com o Rui a chorar foi o tal que, ontem, se assinalou nos noticiários. Completaram-se 20 anos desde que o jogador viu o único cartão vermelho da sua carreira profissional — coisa por si só assinalável, mas de somenos. Portugal ficou arredado duma presença no Mundial de 98 após essa partida do dia 6 de Setembro de 1997; estava a vencer na Alemanha (golo de Pedro Barbosa) mas, reduzido a 10 com a expulsão do Rui Costa , deixou-se empatar e viu o apuramento escapar-lhe – quase que também não foi isto que ontem se assinalou. É a injustiça da expulsão, potenciada pelas lágrimas copiosas do Rui Costa, aquilo que 20 anos depois mantém o jogo gravado na memória colectiva portuguesa, tanto que o nome e cara do juiz da partida jamais serão esquecidos por uns quantos de nós. Diremos amargamente “Marc Batta” no nosso estertor de morte, quase como um “Rosebud” azedado pela má memória.

Mais do que as dores da selecção portuguesa (que, nem por acaso, viveu aqui o seu último afastamento da fase final duma grande competição), creio que ontem revivemos o momento em torno das dores do Rui. Em parte, isso comprova-se com as reportagens feitas exclusivamente à volta dele, não do Pedro Barbosa, nem do Silvino que sofreu o golo do empate. A injustiça agrava-se por ter atingido o mais belo, mais honrado e, outra vez, mais chorosamente humano. A decisão ridícula, vergonhosa e simplesmente feia de Marc Batta ainda mais se agudizou quando aplicada ao jogador que, no campo, era a antítese do rídiculo, do vergonhoso e do feio. Simpatizámos com as dores pessoais do Rui Costa que, honrado e belo, ontem afirmou que a única mágoa que tem é pelas nossas dores.

“There is not a thing more true or natural than wanting to win” – canta o norte-americano PandaBear numa canção intitulada “Benfica”. “Não há nada mais verdadeiro ou natural do que querer ganhar”, e isso justifica muito do nosso apego ao futebol. A frase revela uma pulsão egoísta, a tal que canaliza atenção desmesurada para os fenómenos da bola; assim se confirma a pouca importância que a modalidade no fundo devia ter. Mas não podemos esquecer que o futebol também é um raro reduto onde somos sensíveis ao Belo, onde queremos os mais graciosos protegidos de injustiças, onde sabemos aplicar a máxima cristã do “chorar com os que choram”. A futebolística é a mais fútil das culturas, e uma das mais elevadas quando escapa à futilidade.

A outra notícia de ontem que me puxou ao tema vem tanto dos relvados como dos escombros. Vou reservar-lhe poucas palavras porque não sei se me deva pendurar na felicidade da história, se na grande tristeza que a faz sobressair; em todo o caso é uma notícia incrível: a selecção de futebol da Síria está a dois passos do Mundial. Num país com uma guerra civil devastadora, com um tirano como Bashar al-Assad, com forças rebeldes que dificilmente serão os “bons da fita”, com a presença maciça e cancerígena do Daesh, é inacreditável ver que o futebol não só não se extinguiu como demonstra potencial de sucesso. E ao invés de se tornar apenas noutro instrumento propagandístico do regime, a selecção síria está a libertar-se das malhas políticas e a incluir notáveis opositores de Assad nas convocatórias.

Pode parecer que trouxe esta última notícia para refutar a ideia que assumi no primeiro parágrafo: que se dá demasiada importância ao futebol, e que se desperdiça muito tempo a falar dele. Mas não, não me vou contradizer. O que esta história síria nos prova é que a irrelevância do jogo não é só uma constatação, é uma necessidade. Num povo tão bombardeado (literalmente) e fustigado por coisas importantes, tem que haver espaço para que as não importantes sejam um contraponto de esperança. A esse intervalo chama-se sobreviver. Futebol é um desporto fútil, mas é o nosso querido desporto fútil.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

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