O chamado “Grupo dos 20” é oficialmente constituído pelas 19 maiores economias do mundo e pela União Europeia. Foi criado em 1999, numa reunião dos ministros das finanças do G7, com a ideia de congregar mais países do que os “sete mais ricos”, constituindo um grupo mais representativo da economia mundial . Congregar talvez seja a melhor palavra, uma vez que não se trata de uma organização, nem existe qualquer compromisso entre os participantes, para lá de estarem presentes num encontro de poderes económicos que representam 85% do PIB e 75% do comércio mundial.

A partir de 2008, a reunião desdobrou-se em duas, uma dos ministros das finanças, mais discreta e técnica, e outra dos chefes de Estado, mais exuberante e mediática. Na verdade, não há muito em comum entre estas vinte entidades; politicamente, vão da mais irascível autocracia à mais confusa democracia; e economicamente, para lá das dimensões desiguais, são completamente diversificadas. Inclusive, não se percebe muito bem porque é que certos países fazem parte do grupo, dada a sua pequena dimensão geopolítica e económica. Basta ter a paciência de percorrer a lista de participantes no encontro que acaba de decorrer na Argentina para se ficar perplexo com o mix:

Maurício Macri (Argentina), Angela Merckel (Alemanha), Donald Trump (Estados Unidos), Theresa May (Reino Unido), Tayyip Erdogan (Turquia), Pedro Sánchez (Espanha), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Lee Hsien Loong (Singapura), Macky Sall (Senegal), Mohammed bin Salman (Arábia Saudita), Paul Kagame (Ruanda), Vladimir Putin (Rússia), Moon Jae-in (Coreia do Sul), Mark Rutte (Países Baixos), Enrique Peña Nieto (México), Andrew Holness (Jamaica), Giuseppe Conte (Itália), Joko Widodo (Indonésia), Narendra Modi (Índia), Emmanuel Macron, (França), Donald Tusk (Conselho Europeu), Jean-Claude Juncker (Comissão Europeia), Xi Jinping (China), Sebastián Piñera (Chile), Justin Trudeau (Canadá), Michel Temer (Brasil), Scott Morrison (Austrália) e Shinzo Abe (Japão).

Só para exemplificar algumas das incongruências, qual será a importância mundial da Jamaica ou do Chile, se comparadas com a União Europeia e a China? Ou, por outro lado, como é que os países europeus estão representados duas vezes, uma como nações independentes, outra como uma união económica?

Oficialmente, estas reuniões arranjaram magnos objectivos que as justificam, como sejam “eliminação de restrições no movimento capital internacional”, “desregulação”, ”condições de mercado de trabalho flexíveis”, ou “criação de um clima de negócios que favoreça a realização de investimentos estrangeiros directos”. Na de 2006, o tema foi “Construindo e Sustentando a Prosperidade”. Os resultados práticos, como seria de prever, ficam muito aquém das belas intenções. O que não impede que no final de cada encontro se façam airosos comunicados, negociados vírgula a vírgula para não ofender ninguém e deixar todos orgulhosos do progresso da comunidade das nações.

Nesta época de eventos planetários em tempo real, uma reunião do G20 é um espectáculo mediático em que os principais protagonistas – aqueles que realmente têm importância mundial, por serem muito ricos, ou muito fortes, ou muito maus – executam uma coreografia complicadíssima, multi e bilateral, em que os sorrisos, os apertos de mão e os encontros privados têm significados subliminares que os analistas tentam descodificar e a audiência segue boquiaberta e apreensiva.

Já antes de sexta-feira, 30 de novembro, quando começou o encontro em Buenos Aires, corriam informações contraditórias; primeiro, que Putin e Trump teriam um tête-à-tête à margem dos trabalhos gerais onde, fez saber o Kremlin, falariam da Síria, Irão e Coreia do Norte; depois, através dum tweet de Trump, Putin e o resto do mundo ficaram a saber que não haveria encontro nenhum, dada a recente malvadez dos russos em relação à Ucrânia. Os dois acabaram por dar um aperto de mão formal e evitaram-se. Alguns analistas consideram que a razão porque Trump não se quis encontrar com Putin não foi a Ucrânia, mas porque pareceria mal numa altura em que o seu ex-homem de mão, Michael Cohen, fez revelações comprometedoras sobre os negócios do então candidato a Presidente com oligarcas russos ligados a Putin.

Também se previa que Shinzo Abe teria uma reunião trilateral com Trump e Narendra Modi. Comentava-se muito qual seria a recepção a Mohammed bin Salman, agora que está sob suspeita de ter mandado assassinar o jornalista saudita Jamal Khashoggi. Certamente que não falaria com Tayyip Erdogan, sobre o qual recaem igualmente inúmeras suspeitas de perseguição e detenção (esta confirmada em vários relatórios)  a uma quantidade não revelada de jornalistas, mas que tem feito render ao máximo o caso Khashoggi. Bin Salman foi evitado e mesmo ignorado por toda a gente, o que se notou especialmente na fotografia de conjunto, onde foi relegado para um canto, ao lado do inócuo e já irrelevante Michel Temer. Mas Putin, sempre um “bad boy”, fez questão de lhe dar um caloroso aperto de mão e trocar umas frivolidades.

Trump, que se salientou logo à entrada, ao cumprimentar abruptamente o anfitrião, Macri, recusou todos os encontros bilaterais, com excepção do único que lhe interessava, com o grande amigo / arqui-inimigo Xi Jiping. Foi aliás uma reunião com a presença de pesos pesados das duas comitivas, da qual saíram mais umas reviravoltas da disputa comercial em curso. Resumindo os complicadíssimos pormenores, ficou decidido um adiamento das punições tarifárias de parte a parte. A China continuará a importar produtos industriais, energéticos e agrícolas e os Estados Unidos não aumentarão de 10% para 25% as taxas sobre os produtos chineses– isto durante 90 dias. A questão é realmente complicada, dada a interligação das duas economias. A China já é o maior fabricante mundial de automóveis e produz as principais marcas europeias para consumo interno; a General Motors importa a sua linha Buick Envision da China e desde Julho que paga 25% de tarifa, em cima dos 2,5% que os americanos aplicam a todos os carros importados. (É difícil de perceber que uma empresa americana pague 27,5% de taxa de importação pelos seus próprios carros, mas é assim mesmo). Por outro lado, a China até ao verão aplicava uma taxa de 25% sobre as importações de automóveis de qualquer origem, mas reduziu-a para 15%, ao mesmo tempo que aumentava para 40% os carros americanos, para retaliar contra as restrições de Trump.

Outra situação complexa, mas de outro nível, são as questões de propriedade industrial e apropriação de tecnologia. Os americanos dizem que os chineses copiam os segredos tecnológicos dos produtos que fabricam para os Estados Unidos, mas crê-se que em Inteligência Artificial (AI) já ultrapassaram os americanos. Estas questões acabaram por não ser abordadas; depois logo se vê.

O comunicado final da reunião é uma obra prima de contorcionismo. Segundo contou à Reuters um observador europeu, “há tabus para os chineses e tabus para os americanos. A palavra “proteccionismo” foi retirada para satisfazer os americanos. “Boas práticas comerciais” não foi usado por vontade dos chineses. E a expressão “sistema multilateral de comércio” só entrou com o esclarecimento de que “o multilateralismo não atingiu os seus objectivos.”

Enfim, uma trégua de 90 dias, como muito bem diz “The Economist” .

A posição dos Estados Unidos em relação a Mohammed bin Salman não estando definida, Trump preferiu não falar com o sheik, mas acabou por se encontrar com Erdogan. Do que falaram, não se sabe, porque a comunicação social foi expressamente barrada da reunião.

O outro acordo importante que saiu desta reunião foi a assinatura do novo Tratado Norte-Americano de Livre Comércio pelos Estados Unidos, Canadá e México – tratado esse que ainda tem de ser ratificado pelas legislaturas dos três países. Trudeau não resistiu a chamar-lhe “um novo NAFTA”, sabendo que Trump, detestava o NAFTA. O presidente norte-americano prefere chamar-lhe Acordo Estados Unidos-Canadá-México. Pena Nieto limitou-se a mostrar a sua satisfação por se resolver o imbróglio, sem lhe dar nenhum título.

No jantar de sexta-feira, a coreografia dos lugares à mesa deve ter endoidecido os responsáveis pelo protocolo. Trump ficou de um lado de Xi Jiping e Putin do outro. Diversas inimizades e interesses devem ter complicado muito a colocação dos líderes à mesa, quase todos acompanhados pelas esposas. Infelizmente a maioria dos telespectadores mundiais não ficou a saber destas negociações de bastidores, que devem ser bastante reveladoras...

No final do encontro foi emitido um comunicado de 31 pontos intitulado “A Construção de um consenso para um desenvolvimento equitativo e sustentável”. Como o título indica, não contém nenhuma obrigação substancial – para lá do apoio ao Acordo de Paris a que os Estados Unidos, o maior poluidor, não quis aderir.

Enfim, um espectáculo sumptuoso da desordem da chamada “ordem mundial”. Há óperas mais interessantes, se bem que com menos consequências.

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