Quando o nome de Lula, acompanhado da cúpula do PT, emerge envolvido em escândalos de desvio de dinheiro que tomaram conta dos media no mundo inteiro, quem primeiro sentiu o golpe foram os movimentos de esquerda no Brasil. Mesmo aqueles progressistas de centro que passaram encantar-se ao ver na administração do autarca de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, as virtudes de uma terceira via que funciona - e funciona sem alinhamento radical - perderam a confiança. Lula era uma sombra muito próxima.

O atual autarca de São Paulo dedicou atenção genuína às questões sociais, colocou a proteção ao cidadão acima das intensas reclamações sobre a redução de velocidade no trânsito - que teve como resultado a queda significativa do número de acidentes e mortes. Haddad investiu na periferia, criou 354 km da mais criticada ciclovia do Planeta e reduziu o espaço dos carros nas ruas para ter corredores de prioridade constituídos por 423 km de faixas exclusivas de autocarros - o que diminuiu o tempo de ir e vir dos trabalhadores, aqueles que não andam em carros blindados, nem em helicópteros.

Haddad apresentou a terceira via que não se preocupou em construir uma única ponte, túnel ou viaduto - fontes de tantos desvios de verbas em administrações anteriores. Uma administração que não divulgou os seus feitos, mesmo sem denúncia de desvio ou improbidade administrativa, mesmo tendo afastado fiscais corruptos da autarquia que lá estavam há vários mandatos.

Preferiu usar o dinheiro para recuperar viciados em crack, gerar empregos aos transgéneros e lançar luz sobre o debate da cidadania e a ocupação humana e solidária da cidade. Um autarca que teve que fazer frente à fúria de uma classe média para proibir o tráfego de veículos aos domingos na Avenida Paulista, principal via da cidade (algo como a Av. Liberdade, em Lisboa), que desde então se tornou um dos pontos mais frequentados pelo paulistano em caminhadas com amigos e familiares.

Haddad é um comboio de alta velocidade em direção ao futuro e promoveu uma dos governos mais modernos da cidade. Mas os erros do PT fizeram com que muitos dos passageiros que investiram na sua viagem, saltassem na plataforma e embarcassem no comboio do passado, um comboio cujas viagens jamais chegaram ao destino prometido. Lotado na sua primeira classe pelo topo da pirâmide da sociedade paulistana, aquela que frequenta os melhores restaurantes, as melhores escolas, os melhores hospitais, reside em mansões com seguranças, desliza pelas avenidas em carros blindados a praguejar por não poder usar as faixas dos autocarros e ciclovia, com os seus carros. Nem imaginam o que é a periferia, exceto quando sobrevoam com os seus helicópteros rapidamente.

Estão ali, naquele carruagem, desde sempre. Tratam-se no diminutivo, frequentam as mesmas piscinas, a mesma praia, e as mesmas festas. São os filhos e os netos de quem já comandou esse mesmo comboio e, inexplicavelmente, enriqueceram na vida pública. Todos eles. Hoje fazem parte do extrato do PIB brasileiro. Possuem o ADN da riqueza.

Eles observam as carruagens de trás, onde se acotovelam os seus eleitores obtusos, por monitores estrategicamente instalados. De lá é possível vê-los felizes por estarem ali, na terceira classe do comboio dos mais espertos, ainda que estejam enlatados como sardinhas e sem ar-condicionado. Com uma felicidade tão volátil quanto um perfume barato, aproveitam o momento de glória alheia para postar selfies nas redes sociais com frases vitoriosas, ar de deleite e troça sobre o autarca que não foi reeleito. Estão lá, apertados, rindo muito, e com sede. Nesse comboio, quem bebe são os passageiros da 1a classe, e bebem champagne. E riem de tudo.

Desde a fundação do PT, a pior votação que um candidato do partido ao município de São Paulo conquistou foi a que Fernando Haddad contabilizou neste triste primeiro domingo de Outubro. E a culpa foi do próprio PT. Não fosse o voto antipetista, haveria segunda volta nessa eleição, como acontece há 24 anos sempre com um candidato do PT na disputa da segunda volta. Haddad paga pelos erros e pelos crimes cometidos por seu partido - ainda que ele próprio tenha gerado uma divisão interna no PT. Haddad escapou da tentação populista, ficou ao lado da sua cidade. Haddad perdeu.

A derrota de Haddad, considerada pela direção do PT uma catástrofe semelhante ao impeachment, tira das mãos do partido a sua melhor montra de gestão mas, pior ainda, tira de São Paulo a sua melhor oportunidade de alcançar o futuro sem deixar de olhar por quem precisa no presente. Perdeu-se o timing do embarque no comboio da modernidade. Quem sabe amanhã surge um Haddad fora do PT e que se transforma na melhor opção de todos.

Pelas declarações recentes de João Doria, o candidato eleito que tomará posse em janeiro de 2017, São Paulo terá um choque de tristeza pela frente. Doria irá subir novamente o limite de velocidade no trânsito em toda a cidade, já na primeira semana. É assustador. Deverá reduzir a ciclovia e interferir nas faixas exclusivas de autocarros, para alegrar a carruagem da frente e interferir diretamente na vida da carruagem de trás, que terá na memória, a mais passageira das alegrias.

O que resta aos paulistanos é investir fé na poesia do carioca Vinícius de Moraes, “A tristeza tem sempre uma esperança: de um dia não ser mais triste não”. Em janeiro conto o resto desta viagem.

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