No caso holandês, as sondagens indicam que o resultado da votação dos 12,6 milhões de eleitores vai dar ao Partido da Liberdade (PVV) de Geert Wilders entre 27 a 30 lugares entre os 130 no parlamento de Haia. No entanto, apesar de ser o partido maioritário, é improvável que os outros partidos lhe deem oportunidade para governar: liberais, democratas-cristãos, social-democratas e verdes já avisaram que recusam coligar-se com um partido que pretende proibir o Corão, fechar mesquitas, limitar o número de magrebinos no país, sair do euro e voltar ao florim e convocar um referendo com a intenção de que a Holanda saia da União Europeia. Assim, o PVV, com uns vinte e tal por cento dos lugares no parlamento, tende a ficar na oposição e a Holanda deve continuar governada por uma ampla coligação europeísta.

O ideário de Wilders está na linha do de Trump nos Estados Unidos e tem afinidades com o de muitos britânicos que votaram pelo Brexit. Também tem proximidade com a Frente Nacional de Le Pen  em França e a Alternative fur Deutschland (AfD) de Frauke Petry na Alemanha, dois partidos em alta.

Le Pen tem praticamente assegurado o primeiro lugar na primeira volta das presidenciais francesas em 23 de abril. Mas sabe que na finalíssima das eleições, em 7 de maio, a votação da França republicana vai certamente barrar-lhe o acesso à presidência. O cenário para Le Pen ficou ainda mais difícil nos últimos dias com o surgimento de um candidato que aparece pelo centro, Emanuel Macron, capaz de agregar simpatias tanto à esquerda como à direita, o que o desgastado candidato da direita tradicional, Fillon, embrulhado em suspeitas de favorecimentos familiares, não conseguia. Nunca  houve probabilidade de eleição de Le Pen. Fillon era superfavorito até à revelação das suspeitas que desgastam muito o candidato que tinha como bandeira a integridade. Macron, um ex-ministro socialista da economia, personagem que junta com carisma elitismo e populismo, está bem colocado para, aos 39 anos, suceder a Hollande e reforçar a França como pilar europeu com os valores da liberdade, igualdade e fraternidade. Aliás, um mês depois das presidenciais, os franceses votam em legislativas e a tendência é para sub-representação do partido de Le Pen.

Nenhuma sondagem contempla a possibilidade de que o nacionalismo de Marine Le Pen possa ditar regras neste ano em França.

Em Setembro é a eleição alemã, a ser decidida entre a chanceler Merkel e o pretendente social-democrata Schulz. Os nacionalistas da AfD vão certamente subir bastante, mas sem força para entrar no governo de Berlim.

Este quadro de tendências afasta o fantasma de colapso da União Europeia em consequência das consultas eleitorais deste ano. Mas o mal-estar europeu, ou até revolta com o estado das coisas, persiste. O sentimento anti-União Europeia está a propagar-se.  As dúvidas perante a maior crise migratória desde a Segunda Grande Guerra Mundial estão instaladas.

Se não tivermos o impulso de políticas que façam ressurgir a empatia (que já houve) dos cidadãos com os ideais de solidariedade e progresso em que foi alicerçada a União Europeia, e que defendam o seu modelo social que é único no mundo, então o desastre está pela frente.

Muita gente anda a falar em declínio da Europa e do mundo ocidental. O discurso que nestes dias tomou a Casa Branca em Washington decerto contribui para essa noção de retrocesso civilizacional. O discurso de Trump assenta na venda da convicção de que os EUA foram grandes e deixaram de o ser. Muito voto europeu em partidos extremistas nacionalistas e populistas tem por motivação essa ideia de declínio. Tem sido passada a impressão de que o despertar da China, do Brasil, da Índia, da África do Sul e de outros países emergentes está a prejudicar o modo de vida ocidental. É fértil o quadro de livros publicados nos últimos anos com essas teorias: The Last Days of Europe e After the End of the European Dream and the Decline of a Continent, ambos por Walter Laqueur; Decline & Fall: Europe’s Slow Motion Suicide, por Bruce Thornton; Submissão, por Michel Houellebecq, são alguns dos exemplos.

O facto, porém, é que nunca como na última década tanta gente encontrou no mundo ocidental padrões de vida com alguma qualidade e evolução no sentido da igualdade.

De facto, fechar fronteiras às pessoas e ao comércio, hostilizar outros, reduzir a cooperação internacional, como pretende a onda nacional-populista, isso sim, pode levar ao declínio.

Ou seja: a estratégia de envenenamento da esfera pública com a ficção de declínio, como fazem Trump e muitos extremistas europeus, essa sim, pode levar-nos ao declínio. Precisamos de um raio de sol. Ou melhor, de esperança. Requer uma extraordinária conjugação de vontades, sonho, engenho e audácia política.

Também a ter em conta:

Está a ser contestada a escolha da imagem do assassinato a sangue frio do embaixador russo na Turquia para o prémio de fotografia do ano no  World Press Photo. Mas o que escandaliza é a brutal realidade, não é a coragem do fotojornalista que fez o seu trabalho. Como num jogo de diferenças entre realidade e ficção ele mostra-nos a realidade da linguagem da violência.

Apenas 24 dias depois da posse, está exonerado Michael Flynn, conselheiro de segurança de Trump, apanhado pelo que andou a tramar com os russos. Flynn é esta personagem. Está para se ver se o caos em volta da Casa Branca vai levar ao desastre ou se fica pela farsa.

Alerta geral para os lixos no mar: o combate robusto à poluição dos oceanos é cada vez mais prioritária.

A Playboy regressa ao seu normal.

A capa de revista escolhida hoje é esta da edição de aniversário da The New Yorker. Há que confiar: numa próxima ilustração veremos a chama na flâmula a reavivar-se.

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