Eis um verso da poetisa Filipa Leal e que se pode ver numa rua no Porto, uma faixa presa a duas árvores. Para mim que, já se sabe, sou lamechas, o gesto comove-me: alguém teve o trabalho e o cuidado de escrever o verso – Havemos de ir ao futuro – e preparar atilhos para prender às duas árvores, subir a um escadote para colocar a faixa e, depois, com a ajuda de outro alguém que considerou que fazia sentido a tarefa, imagino eu, olhou com orgulho de missão cumprida este “escrever” na cidade.

Os gestos das pessoas não cessam de me espantar. Pela sua bondade, pela sua poesia, mas também — porque o espanto dá para os dois lados —, a maldade, a crueldade. Bem sei que estamos todos cansados e que é fácil desdenhar as lamechices e afins, uma certa generosidade ou bondade é vista com ironia, sarcasmo, o que quiserem chamar. Como se não fosse possível aceitar que as pessoas possam ser boas, ter gestos de solidariedade. Há quem seja tão desconfiado que uma ajuda pertence ao capítulo das “agendas” e “conspirações”. Estamos todos no mesmo barco, de alguma forma a crise que vivemos tornou-nos igualitários, já aqui o escrevi.

O mundo melhorará depois disto? Teremos menos ataques de cinismo por aí? Imagino que não, a história da humanidade mostra que sempre vivemos nesta dicotomia, bom/mau, e não nos vamos curar disso mesmo. A descrença no bem está já a um nível tal que considero que atingimos um pico. É um retrocesso civilizacional, é dizer que não acreditamos no outro quando deveríamos, hoje mais do que nunca, perceber que sozinhos não valemos nada. Havemos de ir ao futuro, escreveu Filipa Leal, nesse livro maravilhoso que se chama "Vem à Quinta-Feira". Havemos de ir sim, e não iremos sozinhos, por isso talvez não fosse mau repensar de cada vez que começamos a dizer: “Ah, pois mas aquele tipo tem a mania...” ou a escrever posts nas redes sociais cujo objectivo é destruir, destruir, destruir.

Estaremos, nesse futuro onde iremos, a precisar de construção, construção, construção. Chamo-lhe a Fé Humana, assim com letras maiúsculas porque me falta outro termo, mas sei que temos esta construção nas mãos. Eu vou ver dos atilhos e da faixa, e vocês?

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