Mais uma crónica no Observador a desprezar completamente a liberdade de cada um para se identificar com o género que bem lhe apetecer, independentemente do sexo biológico de nascença. Nada de novo aqui. Desde textos abertamente racistas e machistas, ou a negar as alterações climáticas, claro que surpreende aproximadamente nada que volta e meia também surja um texto transfóbico, mascarado de clarividência científica. Desta vez, foi o próprio José Manuel Fernandes, publisher do jornal. Mais uma vez, não há surpresa aqui.

Valendo-se dos espectaculares argumentos da "natureza", do que é "natural" ou não, dos cromossomas e sei que lá mais cambalhotas semânticas que dá, para tentar disfarçar o tão grande incómodo que lhe causa que as pessoas possam ser livres para serem o que são. Entre todas as barbaridades que diz, claro que vem a clássica "preocupação" com as crianças. "Ai as nossas crianças, ai que horror que estão a obrigar todas as crianças a serem transgénero e é o fim da civilização" (não diz isto exactamente, mas é parecido). Esta preocupação torna-se ainda mais divertida quando pensamos que algumas destas pessoas são também quem nega as alterações climáticas (não sendo o caso do José Manuel Fernandes). Se não houver mundo habitável, é capaz de não importar muito o género dos humanos, porque não haverá humanos. Pormenores.

Além disto tudo, e relacionado com este último ponto, dei com vários comentários, incluindo o de um deputado do PSD que dizia no Twitter que “(a identidade de género) será o debate mais importante dos últimos anos”. Imaginem ser um político e dizerem mesmo isto sem se rirem.

O planeta está em emergência climática, com muito poucos anos para reverter a situação e já com efeitos devastadores para a humanidade. As políticas neoliberais das últimas décadas têm afundado boa parte dos países numa desigualdade económica trágica entre ricos e pobres, que é causadora de sofrimento e morte aos milhões. As Big Tech são cada vez mais uma plutocracia com mais poder que muitos governos e que continuam desreguladas e minar as democracias. O fascismo cresce em vários países do mundo, em particular na Europa. O racismo, o machismo e a homofobia continuam a matar todos os dias. E mesmo assim, mesmo com tudo isto junto a acontecer ao mesmo tempo, estas pessoas conseguem realmente dizer que o debate mais importante dos próximos anos é sobre o género com que cada um se identifica, quem ama quem, quem faz sexo com quem.

Portanto, ou acham que todas as outras coisas que eu disse não existem e o mundo está perfeito tirando a transexualidade, ou sabem que tudo isso existe e é grave, mas nada é tão grave como uma pessoa que nasce com pénis mas que sente e sabe que é uma mulher. É aflitiva esta aflição que este pessoal tem com a sexualidade dos outros. Acho cliché justificar isso com falta de sexualidade própria, mas às tantas faz sentido. Vão lá tratar disso, e deixem cada ser aquilo que mais lhe faz feliz.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Gangs of London: Boa série. Algumas partes são mesmo muito violentas (achei por bem avisar).

- Todos Devemos Ser Feministas: um muito bonito livro de Chimamanda Ngozi Adichie.

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