O Presidente dos Estados Unidos da América está sob investigação do Congresso, num inquérito para a sua destituição (‘impeachment’), acusado de abuso de poder no exercício do cargo. Depois de semanas em audições à porta fechada, as sessões do House Intelligence Committee (Comissão de Análise de Informação, na tradução oficial portuguesa) da Câmara dos Representantes iniciou a audição pública das testemunhas, um espectáculo mediático para milhões de eleitores.

A audição pública, feita na maior e mais institucional sala das comissões, um auditório com centenas de lugares e um amplo espaço para a comunicação social, destina-se a mostrar à nação todas as intricâncias do processo. A edição para TV é cinematográfica, com várias câmaras que permitem mostrar os intervenientes de frente, a falar para a câmara em grande plano, para que nada se perca.

Só para recapitular o processo: esta Comissão ouve testemunhas e as duas partes em confronto, republicanos e democratas, têm amplo tempo para os interrogatórios. Se a comissão decidir que há razões para o impeachment, o processo segue para o House Judiciary Committee (Comissão Judicial) que formalizará a acusação. Sobe depois para o Senado, que actua como um tribunal, onde os advogados atacam e defendem e os senadores são o júri.

O Intelligence Committee tem um presidente democrata, que dirige os trabalhos – Adam Shiff, representante dum círculo eleitoral da Califórnia -, e um vice-presidente republicano, Devin Nunes, do Ohio. O Judiciary Committee é presidido pelo democrata Jerry Nadler, de Nova Iorque, coadjuvado pelo republicano Doug Collins, da Georgia.

Como já dissemos é certo que as duas comissões decidirão pela acusação – as provas são concludentes –, mas a probabilidade de Trump ser destituído por um Senado de maioria republicana são remotas, por mais robusta que seja a argumentação.

Portanto, estes procedimentos têm um objectivo estratégico da parte dos democratas: não conseguindo destituir Trump, podem, contudo, apresentar ao eleitorado provas convincentes da sua culpabilidade, que diminuirão as probabilidades de reeleição presidencial em 2020.

Contra os democratas joga a complicação do processo – embora o que se passou já seja suficientemente claro, a pormenorizada inquirição de tantas testemunhas, que respondem a horas de perguntas pró e contra no mais excruciante detalhe, é afinal um espectáculo maçudo, em que o espectador, a não ser que tenha tardes inteiras para assistir, se perde nos meandros. Ficamos a saber de dezenas de reuniões e centenas de telefonemas e emails entre muitos intervenientes, com uma grande quantidade de datas, pois a sequência cronológica é essencial.

A questão em disputa é se o Presidente Trump pressionou o Presidente duma potência estrangeira, a Ucrânia, para seu benefício pessoal. Tanto pode ser considerado um crime de corrupção, como de subversão do interesse nacional, com a adição de outros crimes igualmente sujeitos a destituição.

Mas esta questão desdobra-se nos pormenores. Trump suspendeu a ajuda militar à Ucrânia a troco da investigação contra o filho do seu rival eleitoral, Joe Biden? Trump propôs um negócio (“quid pro quo”) com o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski – tu investigas o filho de Biden, eu concedo-te uma entrevista na Casa Branca? Os ucranianos perceberam que a ajuda militar e a entrevista com Trump dependia duma declaração de Zelenski de que investigaria a empresa onde o filho de Biden, Hunter, era administrador? Ou apenas uma declaração genérica de que Zelenski combateria a corrupção no seu país, sem especificar a empresa de Hunter, a Burisma, seria suficiente?

A estas intrincâncias legalistas acrescenta-se a enorme quantidade de personagens envolvidas: o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland, a ex-embaixadora na Ucrânia, Marie Yovanovitch, Kurt Volker, ex-Enviado Especial para a Ucrânia, Rick Perry, Secretary of Energy (Ministro da Energia dos EUA), Mick Mulvaney, Chefe de Gabinete de Trump, Rudolph Giuliani, advogado particular de Trump, e mais dúzias de funcionários do aparelho estatal norte-americano, sem contar ainda com os ucranianos que, evidentemente, não testemunham na Comissão Parlamentar.

Há ainda a hostilidade de Trump às investigações, que levou a Casa Branca a proibir que os seus funcionários no activo respondam a qualquer pergunta. Figuras que seriam essenciais para perceber a sequência de acontecimentos e incriminar Trump estão assim impedidas de prestar depoimento.

Para simplificar uma longa história, o que está suficientemente provado é que Trump, de facto, quis condicionar a ajuda dos Estados Unidos à Ucrânia – um país que está em guerra com a Rússia e precisa da sua ajuda para sobreviver – aos seus interesses pessoais.

Todos os funcionários chamados à barra fizeram questão de declarar a sua imparcialidade partidária, provada pelo facto de terem servido vários governos, tanto democratas como republicanos. Um deles, o Tenente-Coronel Vindman, é um combatente condecorado na Guerra do Vietname; e os vários embaixadores inquiridos têm longas carreiras no serviço diplomático, com credenciais apartidárias indiscutíveis.

E todos, dentro do que conhecem dos acontecimentos, foram unânimes em esclarecer sem muito espaço para dúvidas duas situações: a primeira, que Trump realmente pressionou a Ucrânia para seu benefício eleitoral; segundo, que o Presidente criou um canal diplomático paralelo, isto é fora do State Department (Ministério dos Negócios Estrangeiros), dirigido pelo seu advogado pessoal, Giuliani, para andar pela Ucrânia a promover o seu interesse pessoal.

Só o caso de Giuliani, que ainda não foi chamado a depor, é suficientemente surreal e suspeito para levantar as maiores questões. Não sendo um funcionário do aparelho de Estado, negociou com ucranianos e tentou influenciar os diplomatas americanos em Kiev, com carta branca do Presidente e com o conhecimento de John Bolton (que não quer depor) e de Mike Pompeo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que ignorou os avisos dos seus funcionários para as actividades “paralelas”do advogado. Bolton, que entretanto se demitiu de Conselheiro de Segurança Nacional, disse mesmo, segundo várias testemunhas, que Giuliani era “uma granada de mão que vai explodir na nossa cara” e que as suas actividades ucranianas equivaliam a um “negócio de drogas”.

A cada dia que passa, com mais três ou quatro testemunhos, mais evidente se torna toda a teia de actividades desenvolvidas por Giuliani e por três diplomatas – esses contra vontade – para influenciar a Procuradoria-geral da Ucrânia e tirar do caminho ucranianos e norte-americanos que não queriam colaborar com a situação. Sondland chegou a dizer abertamente que “toda a gente” no Ministério dos Negócios Estrangeiros e na Casa Branca estava “por dentro” dos acontecimentos. Ele e mais Kurt Volker e Rick Perry eram conhecidos como “os três amigos”, o canal oficial de pressão junto de Zelenski e dos seus assessores.

A defesa republicana, constituída por Devin Nunes e pelo representante republicano do Ohio, Jim Jones, o trauliteiro encarregado das afirmações mais contundentes, alega que não há provas concludentes. Segundo eles – e os tweets e afirmações de Trump – tudo não passa de uma tentativa desesperada dos democratas para prejudicar o Presidente, baseada em boatos e testemunhos em segunda mão.

Não podendo desacreditar as credenciais impecáveis das testemunhas, afirmam que elas foram coagidas ou não estiveram presentes nas situações ilegais – o que não é verdade, uma vez que muitas assistiram pessoalmente ao famoso telefonema de Trump com Zelenski (em que ele lhe pede um “favor pessoal”), confirmam que a ajuda militar à Ucrânia foi liberada, e que o país não fez até agora qualquer investigação à Burisma, e que o encontro Trump/Zelenski em Washington está adiado, mas não suspenso.

Quanto aos democratas, dizem que os testemunhos falam por si e que, todos somados, mostram um quadro inegável de prevaricação do Presidente.

Para uns e outros, as mesmas respostas representam realidades diferente. Por exemplo, depois do depoimento de Sondland, que afirmou peremptoriamente que havia o tal “quid pro quo”, a comunicação social considera que o caso é cristalino, enquanto os republicanos e a Fox News salientam que ele nunca recebeu instruções directas do Presidente para fazer o acordo armas-encontro em Washigton, ou armas-investigação sobre a Burisma. O mesmo depoimento, conclusões opostas.

Quanto ao eleitorado, o objectivo deste processo, permanece imóvel: as sondagens indicam que as bases de Trump continuam inabaláveis. Resta aos democratas a esperança de que os indecisos, que são sempre quem decide uma eleição, estejam a perceber o que se passou. Vamos ter de esperar até às eleições para saber.

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