O culto da família real, os “royals” como se diz nas ilhas, e em especial da rainha, é quase como uma religião. A BBC Internacional passou esta quinta-feira vinte e quatro horas de festividades espetaculares entrecortadas com entrevistas de súbditos absolutamente deleitados com a figura de Isabel. Até os Sex Pistols, que em 1977 chocaram o país com uma música que dizia “God save the Queen, a fascist regime”, participaram das comemorações. Multidões entusiasmadas, como em Portugal só se vê nas vitórias do Benfica, encheram as ruas a agitar bandeirinhas. Coros de deliciosas crianças entoaram cânticos de louvor à monarca. Uma veneração que, se fosse num regime fascista, seria considerada tenebrosa, alastrou por todo o país com uma luminosidade contagiante. Até as ex-colónias, que sofreram sob o jugo mercantilista dos britânicos, se juntaram alegremente às comemorações. Tudo para festejar uma senhora cujo principal feito é não fazer nada, apenas representar um conto de fadas e um poder inexorável — o Império que desapareceu durante o seu reinado, mas mantém o fausto esplendoroso.

Conta-se que o rei Farouk do Egipto, ao ser derrubado pelo republicano Gamal Nasser em 1952, terá dito: “No futuro só haverá cinco reis, os quatro dos naipes de cartas e a rainha de Inglaterra.” Ainda há reis em alguns países, mas são figuras discretas que mantêm a sua sobrevivência com uma vida pacata de classe média-alta. Precisamente ao contrário, a coroa britânica prospera numa exibição permanente de luxo e aparato, misturada com a exposição minuciosa da sua vida privada a alimentar os jornais de escândalos.

Os "royals" são simultaneamente um símbolo da veneração do antigamente misturado com um muito contemporâneo cepticismo quanto aos seus méritos. Ricos a perder de vista, destacam-se por não fazer absolutamente nada. Os seus deveres consistem em comparecer a inaugurações e festividades e não se meter em política. Nunca se ouviu uma única palavra de Isabel e da família sobre o Brexit, o custo de vida, os problemas do Serviço Nacional de Saúde, as peripécias da governação da Grã Bretanha ou dos acontecimentos mundiais. Os discursos oficiais da rainha são escritos pelo gabinete do primeiro-ministro; “O nosso Governo decidiu que” é a fórmula usada, seja o governo de esquerda ou direita, progressista ou conservador. Esta imparcialidade (impotência, diriam alguns) é o segredo de longevidade de uma instituição que, ao longo de mais de cinquenta reis, teve alguns assassinados, outros depostos e até foi banida por uma breve república puritana, no século XVII, para voltar sem poder e muito aparato. 

No auge do Império, no século XIX, reinou a desagradável Rainha Vitória (a ela se atribui frequentemente a frase “We are not amused” em resposta a uma piada) durante 63 anos (1837-1901), recorde de longevidade só batido agora por Isabel II. Esse império começou precisamente com Isabel I (1558-1603) e sempre se orientou pelo princípio resumido por Lord Palmerston em 1848: “Não temos aliados eternos e não temos inimigos eternos. Os nossos interesses são perpétuos e é o nosso dever segui-los”.

Que interesses? Prosperar nos negócios, enriquecer à custa das outras nações e de colónias exploradas com eficiência, magistralmente manipuladas pelo Governo de Sua Majestade, que se limitava a reinar “pelo exemplo” de saber ser rainha.

Aliás, nós, portugueses, também somos um “exemplo” dos interesses do sistema britânico. Em 1372, pelo Tratado de Tagilde, rectificado em Londres no ano seguinte, formamos a mais velha aliança ainda vigente entre dois países. Durante estes 650 anos, o tratado serviu sempre os britânicos e a nós, ocasionalmente, quando lhes dava jeito a eles. Os episódios são muitos, e até seria pouco diplomático listá-los todos, neste ano de Jubileu de Isabel II, mas não resistimos a dois: o acordo feito com os franceses de Junot, que pode sair de Portugal com todo o saque da primeira Invasão Francesa (1808), menos a preciosa biblioteca do Bispo do Algarve, levada para a Bodleian Library, em Oxford, onde permanece ainda hoje. No seguimento desta história, depois da derrota final dos franceses, na terceira Invasão, os britânicos ficaram a tomar conta do país, que, entretanto, tinha o nosso rei D. João VI no Brasil – levado por eles, a troco da abertura dos portos brasileiros aos barcos ingleses.

O segundo episódio é o famigerado Mapa Cor-de-Rosa, o território entre Angola e Moçambique, que eles nos exigiram no ultimato de 1890. Com grande indignação nacional, fez-se uma subscrição pública para construir uma canhoneira – contra a já invencível armada inglesa – que foi fabricada no Barreiro pela empresa norte-americana Babcock and Wilcox...

À escala mundial, o Império – cuja “jóia da coroa” era a Índia, dada por Portugal como dote da rainha Catarina de Bragança, ao casar com Carlos II em 1662 – dedicava-se ao comércio internacional. Assim, roubou a planta do chá à China e levou-a para a Índia, seu domínio; roubou a árvore da borracha ao Brasil e plantou-a em Sumatra, também seu domínio; obrigou os chineses a comprar ópio plantado no Afeganistão, também seu domínio; e por aí foi, usando um sistema original, que consistia numa Companhia das Índias Orientais que podia fazer todo o tipo de exploração sem comprometer o governo de Sua Majestade...

Mas estamos a desviar-nos. O nosso tema é a circunspecta Isabel II, a monarca que reinou mais tempo na História – setenta anos! – e calhou assistir ao fim do Império e a uma mudança radical de costumes na Grã-Bretanha, mantendo a compostura. Um mérito, dirão alguns; não teve outro remédio, dirão outros.

Os factos, toda a gente sabe, mais ou menos. Não era para ser rainha, calhou-lhe porque o tio, Eduardo VIII, abdicou para casar com uma americana divorciada em 1936, e o pai, que lhe sucedeu como Jorge VI, morreu de cancro aos 56 anos. Casada com um primo, o príncipe grego Filipe, em 1947, conhecido pelo charme e pelas gafes, foi coroada em 1953.

Tiveram quatro filhos, Carlos, Ana, André e Eduardo, sobre cujas vidas e escândalos não vamos falar, uma vez que são objecto de cobertura mediática permanente.

No campo doméstico, ao princípio Isabel tentou manter a família dentro da compostura conservadora que se esperava da família real – o tal “exemplo” – atormentando a vida da irmã Margarida, que queria casar com um militar honorável, porém divorciado. Por fim anuiu a que ela casasse com um fotógrafo plebeu, rapidamente nobilitado, mas acabaram por se separar e a princesa foi infeliz até à morte, em 2002. Em 1981, Isabel permitiu que o filho e príncipe herdeiro, Carlos, se casasse com um membro da pequena nobreza, Diana. Contudo, em 1992, no chamado “annus horribilis” da casa real, tudo implodiu: Carlos e Diana separaram-se, assim como André e a outra plebeia com quem tinha casado, Sara Ferguson. Subsequentemente, as duas ex tiveram umas vidas atribuladas e escandalosas – Diana namorando um egípcio duvidoso e Sara vendendo o acesso aos royals – e a rainha, à falta de melhor atitude, manteve uma postura esfíngica que não caiu muito bem entre os súbditos. 

Por fim, desistiu, ou adaptou-se, aceitando a amante de Carlos como futura rainha e o casamento do neto Harry com uma actriz norte-americana de “sangue misto”. E os súbditos, por um lado deliciados com tanto sumo para os jornais de escândalos, por outro acabaram por reabilitar Isabel II e hoje vêem-na como uma simpática velhinha.

No campo internacional – que, não esqueçamos, é dirigido pelos interesses politico-comerciais do Governo – Isabel soube receber e ser recebida com charme por todas as figuras da cena política mundial, de Ceaușescu a Trump, cumprindo o seu dever de representar o país com pompa e circunstância.

O seu reinado coincide com o fim do Império, habilmente transformado num sistema chamado Commonwealth, que consiste basicamente em manter o sistema de exploração das antigas colónias segundo métodos pós-modernos e globalistas. (Salazar, se não fosse teimoso e antiquado, podia ter seguido o exemplo...)

Agora, passadas as dificuldades e os passos em falso, Isabel chega aos 96 anos com dignidade e o tal papel exemplar sem ressentimentos. 

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