Veja-se o Jeff Bezos, por exemplo. Homem mais rico do mundo e dono da Amazon, só nas últimas semanas aumentou a sua fortuna pessoal em 24 mil milhões de dólares. Não me enganei a escrever, podem reler, é mesmo aquilo. Curiosamente, nas mesmas semanas, 20 milhões de norte-americanos ficaram sem emprego e há milhões que agora fazem filas de quilómetros para receberem ajuda alimentar para não passarem fome. “Ai, Diogo! Mas o que é que isso tem a ver? O homem não pode fazer o dinheiro que quiser? E foi ele que contribuiu para esse desemprego, por acaso? Ele até emprega milhares e milhares de pessoas!”. Esta última parte é verdade. Só é mais chato que a maioria deles não tenha direito a seguro de saúde, que sejam mal pagos e que tenham um trabalho tão exigente que nos armazéns há dispensadores de analgésicos. Há também queixas de falta de material higiénico para se trabalhar durante a covid-19 e quando um funcionário morreu infectado, um outro que organizou protestos contra a falta de condições acabou despedido. Podemos juntar a isto o facto de arranjar todo e qualquer subterfúgio na lei para pagar o mínimo de impostos possível, e ter doado uns incríveis 100 milhões de dólares para o combate à covid-19, e percebemos que é um homem de grande coração e de uma consciência social e cívica de primeira água. Vou só voltar a repetir: 24 mil milhões vs. 100 milhões. Até me ia emocionando. Gosto como ele, o Bill Gates (sempre envolto numa aura de senhor caridoso), Buffet, Zuckerberg e tantos outros, juntam tanto dinheiro no banco (para quê, exactamente?) que dava para construir um SNS inteiro nos EUA, e depois mandam umas migalhas para o chão e o povo aplaude-os enquanto eles dão auto-palmadinhas nas costas. Trágico-cómico.

A propósito da economia, o nosso grande guru, Gustavo Santos, fez uma aparição televisiva para dizer que o coronavírus: "Vai dar uma abalo brutal [na economia] e ainda bem. A economia mata as pessoas, às vezes não lhes tira o ar, mas mata-as porque as manipula, escraviza, amedronta, as ameaça". Bravo. A falta de noção é que nunca deu um abalo ao Gustavo, já desde os tempos em que disse que os cartoonistas do Charlie Hebdo tinham sido assassinados porque se tinham posto a jeito.

Sim, a economia vai levar um abalo brutal e vai matar muito. Mas vai abalar os pobres, vai matar à fome os pobres, vai continuar a escravizar os pobres. Entretanto, os ricos continuarão a dormir descansados. Por isso, Gustavo, não, não é ainda bem. Porque isto vai continuar bom é para os super-ricos e para os gurus, para milhões de outros vai ser horrível e a equidade vai continuar a ser uma miragem.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Kalifat: Não adorei, pela falta de profundidade dos temas que acho que não foi explorada. Mas entretém.

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