Só na passada segunda-feira, a fortuna pessoal de Jeff Bezos cresceu 13 mil milhões de dólares. Vou repetir: num único dia, o homem mais rico do mundo ganhou 13 (treze!) mil milhões de dólares. Voltem atrás e leiam de novo, se assim for necessário, que eu sei que a realidade às vezes é tão descabida e irreal que instintivamente nos recusamos a concebê-la.

O Bezos tem agora cerca de 180 mil milhões de dólares acumulados, também um número que o nosso cérebro nem consegue ao certo processar. A qualquer pessoa que mostrou o mínimo ultraje, quem sabe até um pouco de asco, por uma única pessoa ganhar tanto dinheiro num só dia, exactamente na mesma altura em que milhões de pessoas estão a ficar desempregadas e a cair na pobreza, logo apareceram os liberais iluminados do costume, os seguidores da religião do Dinheiro, a lembrar que o Bezos ganhou aquilo tudo na segunda-feira por causa da valorização das acções e não das vendas da Amazon.

Cheguei a ficar com cãibras nos olhos de tantos os revirar ao ler estas e outras coisas. E acho realmente fascinante como tantas pessoas defendem o Bezos como se fosse o seu clube futebol, defendem-no como o Profeta da sua religião, como o intocável Todo Poderoso a quem amam lamber os sapatos, trocados por um par igual novo todos os dias, que devem custar mais do que o dinheiro que vão ganhar em toda a sua vida. É tão divertido quanto patético.

Nem me vou alongar sobre a perspectiva filosófica, ética e moral, da existência de bilionários — não, não deviam existir, qual é o sentido? — mas pensando apenas no Bezos, vendo como constrói toda esta riqueza à custa da exploração de recursos humanos e ambientais, fico genuinamente surpreendido com a exaltação que se faz à sua alegada genialidade.

Paga uma ninharia a grande parte dos seus trabalhadores, não pagando “sick leave” [baixa por doença] a muitos deles. Durante anos conseguiu não pagar impostos federais, e ainda recebia reembolsos do Estado. Há uma página da Wikipédia só com dezenas e dezenas das queixas e processos contra a Amazon. Durante semanas recusou-se a fornecer máscaras e álcool gel aos seus trabalhadores, e mais uma vez não lhes continuava a pagar se fossem infectados com covid, mas aparece em todas as notícias quando doa 100 milhões para o combate à pandemia. Até me vieram as lágrimas aos olhos com tal gesto de bondade, só que depois percebi que era o equivalente a uma pessoa normal doar um pires de tremoços.

Mesmo que se seja de direita, apreciador de certa forma da Amazon, ou nem se importe muito com a desigualdade económica catastrófica que a existência de bilionários continuar a alimentar, parece-me extraordinário que se idolatre alguém que é um pedaço de lixo com fatos de luxo. “Ó Diogo, seu esquerdalho revoltado, tu estás é com inveja, e o dinheiro é dele e ele faz o que quiser com o dinheiro, além de que está nos EUA, não é cá”. Ó filhos, poupem-me. Isto já vai longo, se não eu explicava-vos porque é que estão errados. Fica para outra crónica.

Até lá, mesmo que sejam seguidores da religião do Dinheiro, tentem pelo menos escolher um Deus que tenha, pelo menos, laivos de algo que se pareça com um ser humano decente.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

-Discurso da Alexandria Ocasio Cortez: a propósito de ter ser insultada por um colega congressista, teve depois um discurso brilhante e importante para qualquer sociedade.

- Janeiro: esse lindo tem um novo álbum. É porem-no à escuta.

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