Como em tudo, a questão rapidamente descambou em partidos radicalíssimos: há quem adore o cheiro dos ecrãs — e todos aqueles (muitos mais) que recusam ler livros que não sejam de papel.

Ora, nesta questão dos livros de papel contra os livros electrónicos, a vantagem retórica vai para o Partido do Papel, que se faz valer das recordações de infância, do cheiro dos livros, da tradição, das bibliotecas já existentes, das frases bonitas que se tiram da internet e por aí fora — é quase uma Irmandade do Livro, toda esta gente que jura a pés juntos que odeia livros que não sejam em papel.

Pronto, talvez não odeie, mas não gosta lá muito desses espertalhaços armados em tecnológicos que não sabem o que é bom.

O Partido do Livro Electrónico usa apenas uma estratégia de divulgação da sua doutrina: o silêncio. Enquanto milhares louvam os livros em papel, quem lê num ecrã está calado. No entretanto, é capaz de transportar milhares de livros no bolso, prontos a abrir a qualquer momento (pelo menos, quando têm bateria).

Dum lado, o doce sabor das memórias dos livros que folheámos. Do outro, o sabor a novidade e a utopia da biblioteca infinita (mas ainda assim bastante cara).

Antes de mais, uma confissão: tenho livros pesados até dizer chega, mas também já experimentei as delícias da tinta digital — e leio nos dois formatos.

Ora, agora que já passaram alguns anos desde a explosão dos livros electrónicos, talvez possamos pensar um pouco mais a frio nesta guerra.

Vejamos então, com imparcialidade, as vantagens dos livros electrónicos — para logo depois avançarmos para as vantagens dos livros em papel.

Só para não deixar esta crónica crescer para lá do que é confortável, limitar-me-ei a cinco vantagens para cada lado. Em relação às desvantagens, ficam para o ano, pode ser?

Cinco vantagens dos livros electrónicos

  • Não precisamos de andar com muitos calhamaços atrás e mesmo assim podemos estar a ler vários livros ao mesmo tempo. O que é bom.
  • Podemos ler o primeiro capítulo de algum livro que nos desperta a curiosidade para ver se apetece ou não.
  • Podemos ler à noite, sem ter a luz ligada, o que pode irritar quem se deita ao nosso lado.
  • Não precisamos de comprar novos equipamentos: se não quisermos um desses leitores só para livros, podemos instalar aplicações no telemóvel.
  • Podemos fingir que estamos a ser zombies sempre de olhos nos ecrãs, irritando aqueles que gostam de se queixar de tudo — e afinal estamos a ler o mais interessante livro do mundo.

Cinco vantagens dos livros em papel

  • Podemos oferecê-los à vontade: a verdade é que oferecer livros electrónicos é difícil e um pouco ridículo. «Olha, aqui tens um embrulho. Lá dentro está um papel com o título do livro que te comprei para o telemóvel.»
  • A sensação de que um livro em papel funciona em qualquer lado é magnífica. Para quem anda sempre aflito com a bateria do telemóvel, ter um livro pronto a ler ali ao lado é um alívio, sem pensar em mais carregadores e tomadas que nunca chegam.
  • Podemos coleccioná-los: sim, podemos ter 1000 livros no telemóvel, mas os livros também são objectos, com cor e peso e textura — e isso é bom. (Assim se explica que tanta gente tenha tantos livros que ainda não leu — algumas almas ficam intrigadas com este fenómeno, mas os livros que não lemos também fazem parte da nossa vida.)
  • É mais fácil dar uma olhadela e ter noção do livro antes de começar — e também voltar ao livro depois de o ler e recuperar as sensações apenas com o folhear das páginas. Parece-me — mas posso estar enganado — que é mais fácil aprender em papel. Procurar uma passagem (por mais estranho que pareça) também é mais fácil. E, ao folhear ao calhas, encontramos sempre alguma coisa boa. Nos livros electrónicos, não é tão fácil andar a ler o livro ao sabor da sorte e do azar.
  • E depois, claro: o cheiro, as recordações, até — perdoem-me — os cortes de papel nas mãos. Tudo isso faz parte e é saboroso. Há ainda a possibilidade de escrevinhar, de sublinhar ou simplesmente de pôr o nosso nome e a data na primeira página.

Parece-me que os livros em papel ganham... E, de facto, se puder escolher, escolho — para mal das minhas estantes — um livro em papel.

Agora, quero dizer isto: os livros ensinaram-me a desconfiar de mim mesmo, a desconfiar das minhas próprias preferências e — mais importante — a desconfiar dos erros de pensamento em que todos caímos mais tarde ou mais cedo.

Ora, um dos erros de pensamento que por aí andam são as falsas dicotomias — e está é uma delas! Parece que temos de escolher. Parece que só podemos ler ou livros em papel ou livros em ecrã.

Na verdade, não temos de escolher. Podemos ter livros em papel e livros digitais. Os ditos não são ciumentos. Vou a uma livraria, compro em papel. Quero experimentar um capítulo de um livro, descarrego-o para a gerigonça de ler. Preciso de lê-lo já, compro para o telemóvel. Estou em casa com vontade de cirandar, chego-me às estantes e pego num livro em papel.

Muitos livros — é o que vos desejo neste Natal!

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é Pontuação em Português.

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