Para os adultos antes de 1980, o Zimbábue não existia: falávamos então nas Rodésias, colónias fabricadas por Cecil Rhodes precisamente cem anos antes, para criar uma faixa ininterrupta britânica entre o Norte e o Sul do continente africano. Rhodes foi um dos impulsionadores da ideia de um caminho de ferro britânico que ligasse o Cairo, no Egipto, à Cidade do Cabo, na África do Sul, projecto nunca concretizado mas que mudou a forma de olhar para África. As ideias de Rhodes foram também matéria-prima para a discussão do chamado “mapa cor de rosa”, que amargou a vida portuguesa no final do século XIX. Mas isso é outra história.

Na década de 1950, o Norte e o centro tornaram-se independentes, com os nomes de Zâmbia e Malawi. Mas os colonos da Rodésia do Sul - o actual Zimbabué -, que praticavam uma agricultura muito rentável, não estavam dispostos a dividir o poder com as 16 tribos do seu território e declararam unilateralmente a independência. Foi a primeira vez, desde a independência dos Estados Unidos em 1776, que uma colónia se separou à força da Grã-Bretanha. Os ingleses protestaram mas nada fizeram e a ONU limitou-se à condenação da praxe.

Os colonos da Rodésia do Sul , dirigidos por Ian Smith, aguentaram bem a antipatia internacional (embora apoiados abertamente por Portugal e pela África do Sul) mas não conseguiram dominar a sublevação de dois partidos africanos, o ZAPU e o ZANU. Seguiu-se uma guerra civil selvagem. Para abreviar uma longa e sangrenta história, em 1980 Robert Mugabe, um professor da classe média africana que se tornou líder do grupo independentista ZAPU, assumiu o poder como Presidente a assinou um acordo com os colonos, segundo o qual eles não tinham qualquer poder político mas podiam conservar as suas terras.

É graças a Mugabe, e pelas piores razões, que o Zimbabué reaparece esporadicamente no noticiário internacional. Primeiro, o ZAPU, agora rebaptizado Zanu-PF e amalgamado com as forças armadas, colou-se  que  nem lapa ao poder e criou uma ditadura brutal, mal disfarçada com oito eleições em que Mugabe inevitavelmente ganhava e os opositores fatalmente desapareciam. Depois, resolveu expropriar as quintas dos brancos e dá-las aos ex-combatentes do ZAPU, que estavam pouco interessados em explorá-las. O resultado foi que o país, além de dirigido com mão de ferro, deixou de poder alimentar a sua população. Mugabe, hoje com 94 anos, tornou-se o símbolo do ditador africano violento e incompetente, e com razão: foi o presidente em exercício com mais longo tempo no poder em África e o Zimbábué caiu na extrema miséria. Em 2002, o país foi expulso da Commonwealth.

Em 2008, o único opositor de Mugabe com algum peso, Morgan Tsvangirai, conseguiu quase 50% de votos nas eleições e por algum tempo o ditador viu-se obrigado a fazer um acordo de partilha que não cumpriu. (Tsvangirai morreu de cancro o ano passado. Anos depois da eleição de 2008, Mugabe descair-se-ia ao reconhecer que o opositor tinha obtido 73% dos votos.)

Não podendo ser deposto por nenhuma oposição, Mugabe acabou derrotado pelos seus próprios apaniguados. Em 2013 começou a promover a sua segunda mulher para sucessora. Grace Mugabe, sul-africana, nascida em 1965, é conhecida no país como Gucci Mugabe, pelo seu hábito de ir à Europa gastar fortunas em compras, e é detestada por muitos, inclusive os militares da velha guarda, que a consideram uma arrivista. Foram eles que organizaram um golpe palaciano, no ano passado, e escolheram Emmerson Mnangagwa como novo Presidente.

Mnangagwa, de 75 anos, foi assessor de Mugabe e chefe dos “serviços de informação”. Os seus métodos valeram-lhe a alcunha de Crocodilo. Para se legitimar, Mnangagwa marcou mais umas eleições, tendo o cuidado de manter uma mal-afamada Comissão Eleitoral e de garantir todos os métodos para ganhar , evitando contudo métodos violentos, pois o que precisa acima de tudo é de uma legitimação internacional que liberte o Zimbábué do sufoco das sanções e estimule o investimento estrangeiro.

Mas entretanto o partido de Tsvangirai (MDC) tem um novo líder, Nelson Chamisa, pastor protestante e advogado de 40 anos, não ligado ao regime, que representa uma esperança nova para os esfomeados zimbabianos. Embora sem sangue, a competição entre os dois adversários foi tensa e envolveu a maior parte dos 17 milhões de habitantes. 75% compareceram às urnas na segunda feira passada, dia 30 de julho. Na quarta-feira, 1 de Agosto, a comissão eleitoral finalmente anunciou os resultados, mais ou menos dentro do esperado: maioria absoluta para Mnangagwa.

E os resultados deram o resultado também esperado: motins e mortes. É muito provável que os distúrbios continuem nos próximos dias. Se crescerem muito, mas mesmo muito,talvez Mnanagagwa tente um acordo com Chamisa; ou talvez Chamisa tenha a mesma sorte muitos oposicionistas de eleições anteriores...

Já durante a campanha o MDC tinha afirmado que as listas estavam viciadas, que os boletins de voto tinham sido concebidos de forma capciosa e que tinha existido intimidação dos eleitores. Também que a comissão eleitoral é parcial, o que foi confirmado por observadores e especialistas internacionais independentes.

Formou-se também uma coligação de grupos civis não partidários, a ZESN, que colocou 6.500 fiscais em parte das 10.985 secções de voto. Havia outros grupos fora da coligação, mas nenhum estava autorizado a divulgar números antes da declaração oficial. Cerca de dois milhões de votos não puderam ser validados por estes grupos.

Resumindo: mesmo sem Mugabe, o Zanu-PF fez umas eleições à Mugabe.

O facto, ainda assim, é que a situação do país nunca mais será a mesma sem Mugabe. É verdade que Mnangagwa tem um passado sinistro, mas os analistas concordam que a sua governação será diferente sob muitos aspectos. Percebe de negócios – e como! Era dono, juntamente com a clique militar, de incontáveis empreendimentos comerciais e imobiliários e das minas de ouro, platina e diamantes que passaram a ser as maiores exportações desde que a agricultura caiu no abandono.

O Zanu-PF precisa que este resultado seja reconhecido pois está consciente de que uma eleição considerada fraudulenta impedirá a integração do país na comunidade internacional e as consequentes ajudas financeiras necessárias para escapar à bancarrota.

Ao fim de quatro décadas de Mugabe, o desemprego é enorme e as infra-estruturas estão em muito mau estado. Mnangagwa tem insistido sempre na necessidade de pacificação nacional para haver investimento estrangeiro. Como irá fazer essa pacificação, ninguém sabe, apenas se pode imaginar.

A questão realmente não é quem ganhou esta eleição, porque quem ganhou, por fraude ou à força, foi certamente o Zanu-PF e os militares vão reprimir violentamente quem disser o contrário. A questão é até que ponto a clique no poder está disposta a ceder à oposição para aliviar o estado deplorável da economia e a fome dos cidadãos.

Quanto a Mugabe, lá está, impávido, com a sua mulher Grace, a gozar uma merecida reforma dourada.

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