O cenário ideal para a convivência civilizada é aquele em que os adversários políticos combatem na defesa das suas ideias e fazem-no, com respeito pelas diferenças, com estima recíproca. Essa cordialidade está impossível entre as correntes que dominam a paisagem política nos EUA – aliás, com réplicas generalizadas na Europa.

Nos últimos dias levantou-se a especulação sobre se Trump está apto para servir o país como presidente, com as imensas responsabilidades do cargo. É inquietante a incapacidade de Trump para tolerar pontos de vista diferentes dos seus.

Uma discussão que calhou na noite dos Óscares sobre a desordem da personalidade narcisista de Trump faz pensar na personagem interpretada magistralmente por Peter Sellers no filme Bem-vindo Mister Chance, realizado em 1979 por Hal Ashby. Chance é um jardineiro com o cérebro muito desprovido de conhecimento, a não ser sobre jardinagem. Não sabe mais nada do mundo nem do que se passa à sua volta. Peter Sellers dá existência a essa personagem com um rosto geometricamente inexpressivo, vazio. Mr. Chance, quando é convidado a falar, balbucia frases enigmáticas. Ele procura reproduzir o comportamento das personagens que tantas vezes vê na televisão, a sua única referência social. Um dia, levado a um encontro com o presidente dos EUA, este pede-lhe opinião sobre a instável economia do país; Chance responde-lhe que “depois do inverno vem sempre a primavera”. O presidente viu na resposta uma alentadora metáfora. O discurso de Mr.Chance, de facto, não tem substância, mas as suas desconcertantes respostas são interpretadas como parábolas proferidas por um iluminado talhado para ser líder. O sistema mediático instrumentaliza o discurso de Mr. Chance vendo nele enorme profundidade política. De facto, é tudo uma ilusão frágil. Mas Mr. Chance é lançado para presidente.

Poderia haver um Mr. Chance em 2017?

Trump, em um mês de mandato, já mostrou incompetência e irresponsabilidade de sobra. Desde o ataque à liberdade de crítica ao excluir os media não alinhados, à ameaça de abrir uma nova corrida às armas nucleares, passando por tantos mais absurdos que têm sido discutidos. Nem por isso perdeu apoios no seu campo republicano, antes pelo contrário. O voto que tornou possível a eleição de Trump é algo que estava há muito em processo de fermentação. Trump é apenas um sintoma da crise neste mundo moderno globalizado. Não é o resultado de uma fúria passageira. É a grande questão que temos pela frente. Deve ser conveniente analisar o que está por baixo da espuma do espectáculo.

Em Los Angeles, na noite dos Óscares, o bombom da fantasia de la La La Land esteve por uns instantes à frente da violenta realidade de Moonlight. Mas a confusão ficou reparada em dois minutos. Este episódio desconcertante foi protagonizado por Faye Dunaway e Warren Beatty. Num filme de grande violência e erotismo, já com meio século, Bonnie & Clyde, eles foram os mais glamorosos foragidos da história do cinema. Interpretaram uma história verdadeira de crime e paixão na América dos anos 30 do século XX asfixiada pelos efeitos da Grande Depressão: começaram por ser assaltantes de postos de abastecimento de gasolina e continuaram como assaltantes de bancos. Acabaram a sua história de gangsters enredados num amor atormentado e sofrimentos existenciais, apanhados por uma emboscada da polícia e abatidos com o corpo crivado por balas. Agora, parece que ressurgiram no fecho da noite em que o cinema quis desafiar Trump. Também deram um golpe na reputação de infalibilidade da PwC

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O génio de Michelangelo na Capela Sistina mostrado na mais alta definição.

Quatro minutos e 13 segundos de discussão sobre a América que votou Trump.

A história de romance do espião do KGB que ficou seduzido pelo American dream.

Duas primeiras páginas angolanas: esta e esta.

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