A marca de locais pretensiosos de onde chuchar wi-fi, Starbucks, deve estar radiante. Em primeiro lugar, está de chuva. Em segundo lugar, tem toda a gente a falar dela porque um copo parecido com aqueles em que serve mokkas e coisas assim foi “esquecido” em cima de uma mesa de uma das séries mais vistas de sempre. Esquecido entre aspas porque uma parte considerável dos espectadores não acreditou nisso. Muitos sugeriram que tinha sido a própria marca de Seattle a pagar bom dinheiro para gerar aquilo que é definido pela palavra, jovem mas séria, awareness.

Entretanto, o diretor de fotografia da série – aquele que talvez ainda tenha as orelhas a arder já que milhões de pessoas não pararam de se queixar da luminosidade do episódio anterior – já veio a público assumir a incompetência da sua equipa. Revela que estariam cansados das gravações do episódio anterior, originando o tal anacronismo com recipientes. Não só não era um copo da Starbucks colocado lá de propósito, como até pertencia a uma pequena cafetaria local da Irlanda do Norte, onde as filmagens em questão decorriam. Portanto, não só não era product placement, nem sequer era o product deles.

É normal que estejamos sempre à procura de publicidade onde ela pode nem sequer existir. Somos assaltados tão frequentemente, de formas cada vez mais sofisticadas, por anúncios, que não temos opção senão estar alerta. É como se vivêssemos num bairro problemático, um em que as grandes marcas são os principais bullies. Para além disso, achar que tudo é publicidade também tem o apelo da teoria da conspiração. Não queremos ser nós os que são comidos por parvos, logo escudamo-nos no ceticismo.

É interessante a dimensão do domínio visual e conceptual de certas marcas. Aquele copo de papel com tampa de plástico, por muito que seja utilizado por milhares de estabelecimentos do género, é associado imediatamente à Starbucks. Se o Jon Snow estivesse na casa de banho a espremer uma espinha antes da batalha de Winterfell e ao lado aparecesse pousada uma lâmina de barbear, em princípio isto aconteceria de forma semelhante à Gillete. Aquela cafetaria da Irlanda do Norte não terá ganho mais com isto do que as três libras que o latte do assistente de realização custou.

Não deixa de ser escandaloso que uma equipa com tantos meios tenha deixado passar aquela bizarria. Garantidamente, se isto acontecesse num vídeo sobre o Renascimento para Área de Projeto do 9º ano, os alunos chumbavam. Mas, tudo bem, é só uma série em que cada episódio custa 15 milhões. Tenho a certeza que nas próximas séries com este ambiente medieval a HBO terá nos créditos uma nova profissão, a de Indivíduo Responsável Por Garantir Que Nenhum Copo de Papel Com Revestimento em Polietileno Aparece Na Porra de Um Plano de Uma Série Que Nos Rebenta com o Orçamento.

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